Capítulo 24

1229 Words
Capítulo 24 Daniela Marçal A manhã foi uma verdadeira tortura. Eu m*l conseguia respirar perto do Xavier sem xingar mentalmente de todos os nomes que conhecia. Não eram muitos, meu vocabulário não era tão vasto como eu queria para xingar meu chefe. Xavier Lancaster resolveu tornar os meus últimos dias no Reino Unido uma verdadeira missão impossível. Era nítido que ele estava querendo me levar ao limite, queria me ver fraquejar ou dizer que ele tinha razão, que ele sempre sabia o que era o certo. Ele fez todo aquele show de propósito. Estava bravo por causa das flores. Era isso. Ele viu as flores e pensou que era um pedido de desculpas do Paul, e que eu tinha aceitado. Sendo que eu não fiz nada; só olhei para aquelas flores sem saber o que fazer com elas. Não queria flores, eu queria uma conversa franca e definitiva. — Você já conversou com o engenheiro sobre a piscina de borda infinita que eu quero de frente para a praia? — Xavier me chamou de volta para o mundo real, me tirando do caos de pensamentos que ele mesmo causava em mim. — Sim, ele disse que em uma semana mandou os orçamentos e o projeto com as modificações necessárias que foram solicitadas na última reunião — respondi, vendo que finalmente tinha abordado todos os temas com ele. — Perfeito... — Ele fechou a sua maleta de couro caríssima, que eu nem me atrevia a pesquisar o preço. — O projeto está perto do fim, quero somente o melhor... Brasil, teria que voltar... Meu padrasto, minha mãe... - Vamos almoçar? Já está na hora. Olhei para o meu relógio de pulso. Eu nem tinha levado o celular para a reunião por causa do grito que ele me deu ao perceber que eu estava demorando. — Sim, Sr. Lancaster, vou confirmar a reserva... — Ele concordou, e eu saí da sala correndo. — Ele te prendeu a manhã toda... — Joana parou ao meu lado com várias pastas. — A reserva do restaurante já está confirmada, ele iria sozinho. Inventou de te levar de última hora. — Joana jogou a bomba no meu colo. Como assim, ele inventou de me levar de última hora, se quase me mandou embora quando eu iria negar o pedido? — Como é que é? — Ela olhou para a porta onde o "bicho-papão" estava. — Ele vai almoçar com Pierre Montenegro, o dono daquele hotel no sul da França. — Sei... — Olhei para a pasta que eu tinha que levar para o almoço. — Ele quer comprar o hotel do Pierre Montenegro. — É o sonho dele. Está em negociação há anos... — Joana falou baixo. — Nunca chegaram a um acordo, viraram amigos, mas não se entendem sobre aquele hotel caindo aos pedaços. — Se eles são amigos e vão almoçar juntos... — Olhei para Joana. — O que eu vou fazer nessa reunião? — Não fazia sentido eu ir. - Fora que eu não estava nesse projeto, o meu projeto estava acabando. Será que ele iria me colocar nesse projeto? Claro que não Daniela, ele quer ver você sofrer! Fora que ele não conseguiu comprar o hotel até agora, porque eu iria acreditar que nesse almoço ele conseguiria tal feito? Xavier está há anos tentando comprar esse hotel em específico, e nunca consegue. São pelo menos dois almoços por semestre para ele tentar convencer Pierre a colocar um preço em seu único patrimônio. — Ele não tinha pedido a nossa presença, ele foi muito específico quando disse que era para acrescentar uma cadeira na mesa para você. Suspirei, não entendendo as loucuras que passavam pela cabeça de Xavier. — Tudo bem eu ir? Eu sou só a estagiária... — Joana riu docemente. — Você, melhor do que ninguém, sabe que eu não ligo para isso. Já estou velha, logo me aposento e você pode ficar no meu lugar. — Acabei rindo sem humor. — Acha que ele está te treinando para quê, Daniela? Olhei para Joana. — Ele está me treinando para me deixar louca! — O meu celular vibrou. — Nem levei o celular para a sala. - O projeto está acabando, Joana. Logo volto para casa, logo volto para o meu tormento particular. Fui até ele, e estava cheio de ligações do Paul, mensagens da minha família e da Marina. Respondi à minha mãe rapidamente, dizendo que as coisas em Londres estavam corridas, mas que eu estava bem, alimentada e dormindo como um anjo. Minha mãe não sonhava que eu odiava a ideia de voltar para casa, e que o marido dela era um lixo de ser humano. Para Marina, mandei emojis; ela entenderia que eu estava quase me enforcando no fio do telefone. Não podia falar, mas iria sobreviver. — Todos estão na minha caça... — disse frustrada, ignorando Paul. O que eu ia dizer para ele? "Vamos terminar por telefone?" Eu nunca faria isso. Por mais que fossem quatro anos jogados na lata do lixo, ainda eram quatro anos da minha vida e a ilusão de me casar e ter filhos. — Paul te ligou umas trinta vezes — ela disse, porque foi ela quem colocou o celular no silencioso. Joana me dava cobertura quando eu nem fazia ideia do que precisava. — E mandou mensagem dizendo que queria almoçar... — Olhei para as diversas mensagens de voz e escritas. — Eu não posso ir, Xavier quer que eu vá nesse almoço com Pierre. Ele praticamente jogou na minha cara que muitos dariam a vida para estarem no meu lugar e que eu não podia negar um pedido dele. Que não seria profissional da minha parte, e de certa forma aquele i***** tem razão. - Digo tentando dar um rumo a minha vida sem que Xavier se meta nela. — Nossa, ele está bem dramático esses dias... — Olhei para ela. - Mas é nítido que ele ficou morrendo de ciúmes por causa das flores, tanto que ele te ocupou a manhã toda para você não sair de perto. - Não viaja, Joana... - Digo sem muita emoção. — Ele tirou a semana para me testar, isso sim. — Joana concordou meio contrariada. — Calma, você ainda precisa do estágio, logo vai ser efetivada. — Respirei fundo porque não acreditava nisso. — Vá ao banheiro, se arrume e vá trabalhar. Esse restaurante é o sonho de consumo de qualquer pessoa que tenha um paladar apurado. Uma reserva naquele lugar tem que ser feita com três meses de antecedência.. - Céus... - Depois você conversa com Paul. Ele vai ter que esperar. Ele nunca teve pressa, agora vai ter que aguentar o seu tempo. Não é mais você que corre atrás dele. Ela tinha razão, Joana era doidinha, mas ela tinha razão. Era a única opção. Peguei meu celular e mandei uma mensagem com poucos detalhes, mas deixando claro que eu precisava conversar com ele. "Não posso almoçar, tenho um compromisso de trabalho com Xavier. À noite estarei mais tranquila, e preciso conversar com você. Mais tarde, te mando o endereço de um lugar onde podemos conversar." Mandei uma mensagem sem "bom dia" ou "Oi, lindo!". Nada carinhoso, até porque Paul nunca foi capaz de dizer além do apenas necessário em suas mensagens. Me arrumei no banheiro correndo. Eu estava indo para um dos restaurantes mais sofisticados de Londres.
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