Capítulo 19

1500 Words
Capítulo 19 Daniela Marçal No fim, Xavier mandou o motorista dele me levar em segurança para casa. Eu estava irredutível sobre a presença dele perto de mim. Ele usou a desculpa de levar Olívia até comigo, mas não aceitei, Olivia tinha dever de casa, então foi melhor ele não vir. Achei maravilhoso, na verdade. Mesmo vendo que ele estava querendo se redimir por suas palavras, por que eu tenho certeza que ele não se arrependeu. Não iria fingir que nada tinha acontecido na noite passada. Teria feito a 'cara de paisagem' para ele. A ofendida foi eu, não ele. Como diz o velho ditado: “quem bate não se lembra, mas quem apanhou, nunca vai esquecer.” A questão é que meu chefe não pode achar que sempre vai se safar quando diz o que lhe dá na telha. É como se ter dinheiro o tornasse isento de responsabilidade, fosse a chave de ser ignorante, irritante e m*l-educado. Ele pode até falar o que quiser na empresa, pois lá ele paga bem para aguentar o seu estresse. Lá, eu sou funcionária dele, tenho que agir conforme as suas ordens e desejos relacionados ao trabalho, mas fora daquelas paredes, eu não sou obrigada a ouvir nada que tire a minha paz. Afinal, ele não é dono da minha vida, das minhas vontades e dos meus movimentos. Somente da droga do projeto que me prende aqui, como eu queria um milagre para continuar no Reino Unido. — Cheguei... — Abro a porta e sinto o cheiro familiar da casa em que moro há quatro anos. — Marina... — Ouço passos e logo minha amiga surge com uma xícara de café recém-feito. — Está viva? — Ela me olha com atenção, como se procurasse algo fora do lugar. — Achou que eu fui sequestrada? — Marina faz o sinal da cruz e bate na madeira. — Nem brinca com isso... — Ela me olha. — Fiquei preocupada com o Xavier, não com você. — Acabei rindo. — Você e a Olívia juntas não é algo que passe despercebido, ainda mais por aquele homem que tem tudo conforme deseja. — Nem me fala... Graças a Deus já estou em casa. — Como está a pequena? — Acabei sorrindo. — Linda como sempre. Além do mais, era a primeira vez que eu estava na casa dela, então a Olívia ficou animadíssima e queria me mostrar tudo. — Marina ri. — Estar com ela me deixa mais alegre... — Amiga... — n**o com a cabeça. — Deixa quieto. Sei que não vou me casar tão cedo, de qualquer forma. Marina sabia do meu desejo de ser mãe. Era difícil saber que esse sonho estava cada vez mais distante. Que horas eu iria arrumar um marido para mim e um pai para o meu filho? Eu estava prestes a ser deportada! — Ei. — Ela diz batendo palmas, espantando a tristeza. — Como foi com seu chefão? — Reviro os olhos. A raiva que eu estava sentindo por ele me lembrou o quanto Xavier era i****a. — Não estava lá por causa do i****a do Xavier... — Jogo o molho de chaves na mesa da sala. — Estava lá por causa da Olívia... Ela tem melhorado muito... Acabei jogando a bolsa de qualquer jeito, os sapatos tiveram o mesmo destino pelo chão de tacos velhos do lugar e meu casaco parou em uma das cadeiras do conjunto de quatro peças. Marina se sentou no sofá, era claro que ela estava esperando que eu contasse tudo o que aconteceu nessas vinte e quatro horas em que estive longe. — Sei que estava lá por causa da Olívia, Dani. Você e essa menina têm uma ligação especial e bonita. Entretanto, acredito que você interagiu com o seu chefe em algum momento, certo? Ou ele fingiu que você não existia enquanto estava na casa dele? — Suspiro. — Queria que ele tivesse fingido que eu não existia... — Marina estreita os olhos. — Xavier Lancaster é um i****a, Marina. Por um segundo assim... — Faço um sinal com os dedos. — Eu acabei me esquecendo desse pequeno detalhe na minha vida... — Qual detalhe? — Suspiro. — Que ele é um i****a! — Ela ri alto. — Qual é o motivo da sua revolta contra o seu chefe? O que eu falaria para a Marina? — O de sempre... — Ela não acredita em mim. — Não... Você nunca fica assim quando ele briga com você na empresa. — Ela tinha razão. — O que aconteceu que mexeu tanto contigo? Me afasto. — Você está viajando... — Ela vem atrás de mim. — Nãoooo! — Ela para na minha frente. — Sabe que eu não estou viajando, sabe que eu tenho um sexto sentido para essas coisas... — Olho para ela. — Que coisas, criatura? — Romance, amor, intrigas e até infidelidade. — Engulo em seco. — Lembra da gerente do bar? — Fecho os olhos. — Não vamos entrar nessa história, Marina. — Ela me olha como se eu a tivesse ofendido. — Eu sabia que aquela mulher era uma biscate! Eu avisei para o marido dela, o i****a não me ouviu, e o que aconteceu? — Suspiro resignada. — Ele a pegou o traindo na cama deles... — Digo, sabendo que ela vai querer saber a resposta. — Marina, sabe que isso foi coincidência, não sabe? Marina se sente desafiada mais uma vez. — Eu sempre te falei sobre o Paul, e você nunca me deu ouvidos... — Okay... — Digo, rendida. — Paul também foi um acerto de sua parte... — Xavier Lancaster não está fazendo tudo isso por causa da filha... — Olho para ela. — Ele tem algo a mais... Olhei para a minha amiga assustada, pois eu nem tinha começado a falar o que aconteceu, e ela me soltou uma dessas. — Marina... É complicado. Discutimos muito ontem, ele tocou em um ponto delicado para mim, e sinceramente, não sei nem se eu quero voltar para a empresa. Em vez de a minha amiga ficar com raiva e me apoiar, Marina faz o impensável: ela ri. — Do que está rindo, Marina? — Ela me olha e continua rindo. — Estou com cara de palhaço? — Ela chega a enxugar uma lágrima que brotava em um dos seus olhos. — Xavier sempre te olhou diferente... — n**o com a cabeça. — Aposto minha cidadania que ele ainda vai fazer sua vida virar de cabeça para baixo. — Paro tudo que estava prestes a fazer para encará-la. — Agora você está realmente viajando na maionese... — Ela n**a. — Não, não, não... estou falando o que eu vi no seu futuro. — A deixo falando sozinha na sala. — Não acredito que você voltou a prever o futuro? — Ela confirma. — Ah Marina, por Deus! Não começa... — Fecho a porta. — VOCÊ SABE QUE EU TENHO RAZÃO! — Tranco a porta e me encosto nela, fechando os olhos. – XAVIER É A SUA GARANTIA DE FICAR NO REINO UNIDO! Marina estava ficando louca, isso sim! (...) Assim que eu cheguei no trabalho, tive a notícia de que Paul tinha mandado rosas para a minha mesa. Se fosse em outra ocasião, eu teria ficado feliz, teria inflado meu ego e pensado que ele tinha sentido a minha falta ao longo de todo o final de semana. A questão é que ele não me ligou, não mandou mensagem e fez questão de mandar flores exatamente para o meu local de trabalho. Fora ele ter ido até a Marina, Paul não fez nada para saber realmente sobre mim. Não sei por que, mas esse ato me deixou ainda mais incomodada. Era como se fosse uma clara tentativa de chamar a atenção, mas eu tinha certeza de que não era a minha atenção que Paul desejava. Olho para as flores. Queria poder dizer que elas mexeram comigo de uma forma positiva, que elas aqueceram meu coração e que fizeram jus ao seu significado. Entretanto, não senti nada além do que eu sempre sinto: comodismo, negação e até uma pitada de culpa. Eu estava tão acomodada em tê-lo por perto que não me questionei se era realmente o certo a se fazer. Não senti aquelas borboletas no estômago que tanto leio em romances, não senti que foi um ato para fazer o meu dia mais feliz. Era como se ele estivesse reafirmando que ainda estava presente na minha vida e que precisávamos conversar. Xavier parou ao meu lado, olhou as flores e não disse nada, nenhuma crítica ou brincadeira. Nada! Ele somente olhou as flores, e eu podia jurar que revirou os olhos, mas ele é alto, não posso confirmar. - Minha sala em dez minutos... - Diz indo para a sua sala. - Não me faça te esperar... - Ele fecha a porta em um baque seco, oco e aterrorizador. Podia jurar que ele estava chateado. - Não... aquele homem é mais frio que o polo norte...
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