— Pai?
Estava parado como uma coluna do templo, esperando o momento em que ele fosse se virar ou pelo menos que ouvisse, o que levando em conta a distância entre nós dois, seria complicado. Afundei minhas mãos no bolso da camisa enquanto ele lentamente virou o rosto:
— O que você está fazendo aqui, demônio? — ele rosnou e cruzou os braços na altura do peito, me encarando com um olhar do tipo "sai daqui ou eu te mato".
— Jacqueline me disse que você vai morrer em um mês. — expliquei sem me mover sequer um centímetro do lugar onde estava. Aquele deveria ser o reencontro mais frio da história e , ainda assim, senti algo em mim se manifestar quando disse sua sentença.
— E você veio para aprender a sambar, suponho. — não entendi a ironia, como a maioria das vezes. Revirei os olhos, pois nem quando tento fazer algo bom as pessoas cooperam. Talvez devesse simplesmente virar as costas e dizer à Raquel que ele morreu antes do imaginado e quando cheguei apenas tive tempo de acompanhar o enterro.
— Que?
— Aprender a sambar para que quando eu morra, você dance no meu túmulo, se é que vai ter um, o mais provável é que eu seja dado como indigente. — ele pigarreou, o ódio poderia ser percebido até mesmo por alguém que não nos estivesse escutando, pois ele praticamente cuspia as palavras e, sem dúvidas, se não estivéssemos a uma distância considerável, cuspiria em mim.
— Eu não gastaria meu tempo e dinheiro saindo de Madrid para esse fim de mundo para soltar fogos de artifício no seu enterro. Isso não é óbvio? Se eu vim é porque me importo, ainda que pouco, contigo. — Despejei as palavras como se fossem brasa em minha boca e, de fato, foi doloroso pronunciá-las e admitir a mim mesmo que, apesar de tudo que esse velho caquético e moribundo havia me feito, ainda sentia algo por ele.
— Quer dizer que agora você se importa com alguém que não seja você, Enrique? — questionou com uma sobrancelha erguida. — Pois eu quero que você vá para o inferno que é o seu lugar!
Deus e o mundo estão de prova que eu tentei ser uma pessoa gentil e generosa como manda a cartilha dos bons costumes, mas quando o outro ser humano não colabora, que escolha eu tenho senão utilizar os mesmos métodos?
— Querido papai, não pense que sua futura morada vai ser muito distante da minha. — ri sarcástico. — Não pense que estou aqui simplesmente porque sou um filho caridoso. Chame isso de evolução pessoal. Quando você morrer, e eu espero que seja logo, estarei livre de qualquer culpa que a sua existência última possa me gerar.
Senti o sangue nas minhas veias ferver de raiva, podia até apostar que minhas bochechas estão parecendo uma pimenta de frasco. Meu pai enfim pareceu surpreso, esse é o destino da humanidade, não? Se você faz algo que presta, ninguém liga, mas quando você desiste e faz o que quer realmente fazer, até o inferno para de queimar para observar.
— Tá feliz agora? — Perguntei tirando as mãos do meu bolso e esfregando meus cabelos com raiva, não era para ter sido assim, o desenrolar das coisas fugiu do meu script.
— Bem mais feliz que antes. Pelo menos agora você me disse a verdade, sem fazer os joguinhos do bom samaritano. Custa admitir? Esse é você Enrique, não precisa mentir logo para mim que te aguentei por dezoito anos até você se tornar... isso. — ele me olhou de cima abaixo desapontado.
— Todos somos o que queremos, pai. Você está num asilo para velhos sem família porque estragou a vida do seu filho, e mesmo assim eu não joguei na sua cara. — disse me sentando num banco de cimento extremamente desconfortável e que com certeza deixaria minha calça manchada assim que levantasse.
— Você estragou sua vida sozinho, não venha colocar a culpa em mim. De herói, você passou a vilão só de escutar a palavra dinheiro. — ele se sentou ao meu lado. A visão dali era péssima, muros cercavam todos os quatro cantos, parece um presídio. Me abanei com a mão só de pensar nisso.
— Melhor do que viver como um pobre, indigente, i****a e sem trabalho. — sorri de canto. E como sempre, tudo pelo dinheiro.
— Você sabe que tinha alternativas.
— Eu queria a mais fácil e rápida. — dirigi meu olhar para o céu cheio de estrelas, e depois para o meu pai. Seu cabelo estava ficando branco, mas alguns fios permaneciam castanhos, assim como os olhos cor caramelo, as rugas aparentes na testa e nos cantos dos olhos. Para um pobre até que estava bem conservado.
— Sempre quis, o que me faz pensar em por que desta vez você escolheu o caminho mais difícil? — ele perguntou me analisando.
— Do que você está falando?
— Essa coisa de estar aqui para se livrar da culpa. Desde quando você se importa com isso? Se é que sabe o que é sentir culpa.
— Estou seguindo um concelho, pai... — Comecei com um sorriso aparente.
— Pela cara, percebo que não foi do padre.
— O padre me odeia! — revelei.
— Quem não?
— Minhas garotas, oras. — digo ofendido. — Agora, se me permite, nos seus últimos dias de vida, eu não vou ficar num lugar me lembra a uma cadeia.
— Olha a paranoia. — ele riu da minha cara.
— Vá se catar! Já assinei os papéis, está livre, regime semiaberto.
— Devo pular de alegria? Para mim não faz a mínima diferença. Eu vou m-o-r-r-e-r, em um mês, Enrique! Não interessa onde vou estar. — Ele gesticulou desesperado.
— Então, que m***a você quer?
— Eu quero que seja rápido.
— No fundo, você não é tão diferente de mim. — murmurei.
— As situações são completamente diferentes. Você tinha opções, já eu vou morrer querendo ou não. — A expressão triste em seu rosto destoava das minhas memórias em que ele sempre estava furioso. Estava muito cansado para sentir ódio e talvez como eu, apenas tivesse o arrependimento de não ter aproveitado melhor seus anos.
***
Eu desisti, desisti de tentar ser o que eu não sou, isso nunca vai funcionar se eu não parar de fingir, não posso esperar coisas boas se eu não paro de me enganar, às vezes eu realmente acho que estou mudando, isso é o significado de acreditar na minha própria mentira. Eu decidi que nada vai ser bom o suficiente se estiver tudo planejado, então, hora de deixar acontecer. Eu não me sinto bom, não me sinto algo que as pessoas gostem ou uma inspiração para alguém. Que Deus livre uma criatura de se inspirar em mim, porque uma coisa que eu aprendi, é que é muito mais fácil sair da luz e entrar no escuro do que voltar para a luz.
Mas deixando a filosofia para mais tarde, — porque tem horas que eu não acredito que penso umas merdas dessas. O meu sinal de Internet está h******l, isso é, vou ter uma semana de isolamento social, porque meu pai não é sociável depois que vê uma cerveja. Isso é, tenho 7 dias para ser filósofo a vontade:
— E nem pense em beber enquanto eu estiver aqui! — relembrei antes que ele resolvesse acabar com toda cachaça do mundo.
— Esse tempo isolado da humanidade me fez parar de beber. — ele falou orgulhoso. Dei uma risadinha, porque só rindo para não chorar.
— Fala isso porque não deixaram você beber lá. — tirei os olhos do meu jornal e encarei ele que estava com uma das minhas camisas? Quase arranquei os meus olhos com essa visão.
— Não acredita na minha mudança, Enrique? Diferente de você, não faço teatros. Não sinto mais a mínima vontade de beber álcool, especialmente quando isso vai diminuir meus poucos dias de vida. — ele ajeitou a gola da camisa. Metido.
— Certo, então papai Noel vai descer pela minha chaminé com as renas e a minha Ferrari vermelha? — ri irônico, ele só pode estar brincando com a minha cara para que eu o deixasse ir fazer compras e voltar com um miojo e 50LT de pinga.
— É sério, m***a! Por que diabos eu iria querer beber nos meus últimos dias de vida? — Perguntou se sentando em uma das cadeiras da mesa da sala de jantar. Novidade? A d***a do Enrique burro e m*l-acostumado, esqueceu completamente que não havia cozinheiras por aqui, o que significa que não tínhamos jantar.
— Sei lá, você disse que queria que fosse rápido. — murmurei batucando os dedos na mesa, talvez bem no fundo, o que eu passei desejando a minha adolescência inteira, não queria que acontecesse naquele momento. — E a propósito, não tem jantar.
Essa frase me fez lembrar aos malditos dias de verão que era quase forçado a passar com meu pai, que nunca tinha o que jantar, e sempre falava isso. Eu ligava para minha mãe e enquanto ele afogava a fome com uma garrafa de Vodka, eu ia comer com ela. Nos entreolhamos, acho que ele pensou a mesma coisa que eu, se é que se lembrava disso, afinal, a bebida faz as pessoas perderem a memória, não é mesmo?
— Tem um supermercado na esquina. — explicou sem animação nenhuma, pelo visto essa iria ser uma semana de cão.
— Eu não cozinho nem água fervida. — avisei.
— Essa espelunca tem serviço de quarto? — questionou com um olhar de desprezo.
— Nem quartos têm aqui, quanto mais serviço de quarto. — joguei o jornal na mesa. — Vou ligar para um fast-food.
Não havia um mínimo luxo naquele lugar, eu poderia até ir para a minha antiga casa, mas aquele lugar me faria lembrar de coisas que eu não quero. Já esse hotel de estrada não me lembra nada além da pobreza nua e crua, não que eu goste muito de lembrar disso, mas estava irritado, não aguentava mais dirigir, então, o que me resta além de parar em Roncesvalles? Talvez, eu voltasse para a estrada amanhã para ir à um lugar mais bonito em Granada. Digamos que eu odeie a zona rural.
***
Não tinha a mínima paciência e nem sono para dormir enquanto cercado por irritantes barulhos de grilo nessa cama desconfortável e, para melhorar minha situação, esse albergue barato prometeu dois quartos e na verdade só tem 1. O que me obrigou a dormir e acordar ao lado do meu querido pai. A janela mostrava uma ampla visão para o nada. Havia um grande campo de gramíneas e árvores que delineavam a visão noturna do horizonte, onde as estrelas brilhavam no céu de uma forma que nunca havia visto em Madrid devido à poluição luminosa. O Always on display do celular 23:00h. Não havia nada pra fazer, o velho já estava dormindo, mas eu estava aqui como um lampião.
Abri um sorrisinho travesso antes de levantar da minha cama e ir acordar meu pai, se não há nada pra fazer, então iria procurar uma briga:
— FOGO! — gritei perto do ouvido dele que quase caiu da cama, m*l pude conter o riso. Ele me olhou com uma cara de poucos amigos.
— Vou te mostrar o fogo da minha cinta. — rugiu começando a tirar o cinto, agora que eu ri mais ainda.
— Não, não faça isso, não quero ver strip-tease do meu pai. — disse dando alguns passos para trás.
— Moleque depravado! — ele terminou de tirar a cinta, ele estava realmente convencido de que eu saí da minha cidade linda, para ir ali apanhar de uma senhor moribundo que m*l conseguia se segurar em pé.
— Estou no frio da solidão. — ri enquanto me deitava no chão, quero dizer, cama.
— Pois agora você vai entrar no quente da minha cinta. — ele pigarreou vindo atrás de mim.
— Pode parar com o teatro, pai. Foi engraçado, mas você não vai me bater com a minha cinta. — digo revirando os olhos, quando de repente, sinto uma dor chata na minha perna. Ele não fez isso, fez?
Senti meus próprios olhos entrarem num mar vermelho, dirigi meu olhar para ele. Pedi internamente para que Deus não me deixasse fazer o que eu tinha em mente, porque mesmo meu pai sendo o que é, eu respiraria culpa se o matasse, foquei em um ponto que não seja ele:
— Vou te dar uma chance, velho. Sai da minha frente, eu tenho um longo histórico de assassinatos. — murmurei, meu sangue ferveu de raiva.
— Então me mata! — ele falou com um sorrisinho malvado. — Prove a si mesmo que você continua um assassino.
— Não!
— Me mata. Não é o que você quer desde que eu me separei da sua mãe?
— Não!
— Vamos lá, Enrique, me faça esse favor e me mata de uma vez.
— Eu já disse que não, m***a! — levantei tão rápido quanto um raio e segurei seus ombros. — Enfia no seu cérebro oco, eu não vou te m***r, mesmo que eu sinta vontade e mesmo que você peça.
Seria mentira se eu dissesse que doeu, porque não, não doeu, só que é tão irônico o cara que ferrou com a minha vida estar querendo me "disciplinar". Larguei-o e me sentei de novo na cama, fitei o chão enquanto minha mente desligava toda a adrenalina da raiva, liberando agora um hormônio próprio meu, “tristeza flashbackada pós raiva”.
24 DE DEZEMBRO DE 1999
No Natal como sempre, estavam meu pai, minha mãe e eu, o resto da família estava embaixo da terra, eu tinha 10 anos, meus pais estavam separados, mas adoravam mentir para mim e dizer que nada iria mudar, mesmo que eles não estivessem mais juntos. Isso antes do divórcio litigioso. As nossas festas eram sempre assim, só com nós três, era para ser quatro, mas minha mãe perdeu a minha irmã no terceiro mês de gravidez, isso prejudicou mais ainda o casamento dos meus pais, principalmente porque ele queria ter uma filha para bancar o pai protetor.
A ceia m*l começou, meu pai já bebeu todas as bebidas da casa, os vinhos que vinham nas cestas de Natal do trabalho da minha mãe e o estoque que tinha aqui em casa. Àquela altura, ele m*l consegui andar sem cambalear ou parar de balbuciar bobagens e xingamentos. O olhar de preocupação da minha mãe era claro, mas eu não fui esperto o suficiente para entende-lo. Estava decorando a árvore de Natal, mas não conseguia alcançar o topo para colocar a estrela amarela brilhante. Fui chamar meu pai na cozinha para me ajudar a decorar e ele...
— ENRIQUE? — ele me chamou de volta para realidade.
— O que foi? — falei tentando parecer o mais frio, mas acabou que o tiro saiu pela culatra e acabou ficando triste, assim como na véspera de Natal de 1999.
— O que deu em você? Não respondia... — ele começou com um tom preocupado, não me importo, estava quase entrando em transe de novo enquanto fitava o carpete. — Não me diga que tudo isso foi por causa daquela...
— Não, não tem nada a ver com isso. — disse ainda sem encará-lo. — Vai dormir, eu não deveria ter te acordado, afinal os mais velhos precisão dormir mais.
Humor mórbido. Continuei sem desviar o olhar do chão, só esperava ele levantar da minha cama e voltar a dormir, talvez agora eu conseguisse fazer o mesmo.
Ele continuou sentado ao meu lado:
— Não consegue levantar? — tentei usar um pouquinho do sarcasmo usual para não parecer que estou realmente triste.
Ele ignorou, mas depois de uns 5 segundos segura meu queixo e rapidamente puxou minha cabeça para cima. Tão rápido que achei que fosse quebrar meu pescoço:
— O que é?! — controlei a ira que inicia nas profundezas do meu cérebro, e provavelmente iria chegar nos braços se ele não saísse dali em 3s.
— O que tem de errado com você? — ele me analisou de cima à baixo, parando nos meus olhos.
— Exatamente tudo está errado comigo, mas disso você já sabia. — tirei sua mão do meu queixo e deixei minha cabeça cair sobre a cama. — d***a!
Senti minha cabeça latejar.
— É, eu já sabia.
***
14 DE FEVEREIRO DE 2015
2° dia
Antes mesmo de ver a luz, sentia um incômodo na nuca, quase como uma vibração térmica, que sinalizava alguém me observando. Abri os olhos rapidamente:
— Jesus! — exclamei antes de cair cama abaixo, até meu corpo ir de encontro ao chão duro e gelado. Bela maneira de acordar.
— Não, não é Jesus. É Daniel mesmo. — ele falou irônico e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
— O que estava fazendo? Tentando me fazer ter um infarto? Eu sou muito jovem para essas coisas! — Minha coluna estalou quando fiquei totalmente de pé.
— Já tem quase trinta anos, juventude é tudo que você não tem! — ele riu. Ignorei totalmente, naquele dia estava disposto a manter a paz espiritual e não me estressar com absolutamente nada que meu pai fizesse ou dissesse, ou com os obstáculos que o universo pudesse eventualmente colocar em meu caminho.
— Não me enche! — passei por ele como se não tivesse ali e entro no banheiro. — Porque, a propósito, é muito improvável que você lembre a minha idade.
— É vinte nove! — ele gritou do lado de fora do banheiro.
— Vinte seis, seu relapso!
Estava quase nevando, não é exagero, estava realmente um frio de congelar até o fogo do inferno. Vesti um moletom preto e fui ver o que tem para comer. Os armários estavam mais vazios que a minha barriga, já colada nas costas.
— Não tem nada para comer, filhinho. — escutei a voz do meu pai atrás de mim, paraliso na hora, quase entrei em mais uma daquelas lembranças desgraçadas.
— Por favor, para de falar essas coisas, tem um supermercado bem ali, e o meu cartão de crédito está comigo, ou seja, temos o que comer. — me apressei em dizer. Ele pareceu confuso, mas logo depois entendeu a referência. — Vou comprar algo.
— O leite você ordenha da vaca. — ele riu.
— Olha para a minha cara bonita de quem vai espremer t**a de vaca.
Ovo, pão e café. Estava parecendo o Enrique de alguns anos, a diferença é que hoje para mim isso é uma calamidade, quando eu morava com meu pai, era um tesouro:
— Sabe fazer ovo, Enrique? — ele questionou, com um sorriso f**o para minha culinária aprimorada.
— Saber, não sei. Mas parece fácil, qualquer coisa você usa seu charme na rua para conseguir uma garota que saiba. — disse. — Espero que eu consiga, porque se depender do seu charme nós morremos de fome. — sussurrei.
Nesses programas chatos de culinária, eles sempre quebram o ovo sem força nenhuma, estava batendo esse negócio a uma hora e nada de quebrar. Desisti da delicadeza e bato o ovo de uma vez, minha mão ficou completamente suja, assim como o fogão, o chão e a panela.
— Credo! m*l sabe quebrar um ovo. — meu pai se rachou de rir.
— Então, faça você! — lavei as mãos e me sentei na cadeira esperando o velho ir cozinhar.
— Veja e aprenda.
Ainda bem que não apostei, porque se não teria perdido bonitinho. Meu pai cozinhava, pelo menos a meu ver de pessoa que não consegue nem esquentar o leite.
— Por que você estava me observando antes de eu acordar?