Capítulo 5

4065 Words
— Quando você era criança eu fazia isso, e você não acordava clamando por Jesus e caindo da cama. — ele mostrou um sorrisinho tímido no canto da boca. — Quando eu era criança você não me ferrava vinte quatro horas por dia. — me encostei na cadeira tentando me manter longe dos flashbacks, se eu ficasse lembrando disso não iria para o céu tão cedo. — Vou ligar para a minha namorada. — ele se levantou. — Que namorada? — perguntei rindo. — A senhorinha do asilo? — A enfermeira gostosa. — me engasguei com o café. Não consegui respirar, não era possível que eu iria morrer por causa de um café. Meu pai apareceu atrás de mim e passou os braços na altura do meu estômago e apertando até que eu volte a respirar. — Não achei que você fosse ficar tão abalado... — Pai, você está pegando a enfermeira? Aquela mulher tem a mesma idade que... — parei de falar. — Eu. — E daí? — Isso é p*******a! Você deve estar com uns sessenta e tantos. Ela é quase uma criança. — Já que vocês tem a mesma idade e ela é uma criança... — ele começou. — Você ainda é o bebê do papai. — O bebê que está cuidado de você. — Falei convencido. — Tirando o fato de que, desde quando você me chama assim? — Desde que você se intitulou uma criança. — ele sorriu se sentando no sofá. Me encostei na parede. Que evolução, passei de demônio a bebê do papai. — Você entendeu o que eu quis dizer. — Nós nos amamos, prego. — ele sacou um Nokia tijolão do bolso da calça. Isso ainda existe?! Eu juro que tentei me segurar, mas não aguentei e comecei a rir feito um drogado. — Que foi? — meu pai me encarou curioso. — Eu te apresento a inovação da tecnologia, repete comigo, I—pho—ne. — falei sílaba a sílaba. — Eu sei o que é um Iphone, mas meu filho ingrato não me dá mais que um Nokia tijolão. — ele fez um drama para eu lhe dar um novo celular. — Oh, coitadinho, não tem um Iphone. Quando eu tinha quinze anos nem comida nós tínhamos. — disse friamente. — Será possível que você não consegue ter cinco segundos de conversa sem tocar nesse assunto? — ele indagou frustrado. — Se estiver incomodado com as minhas memórias de m***a, eu sei onde é a porta... — ele não me deixou terminar de falar. — Pois então esqueça, eu não quero que você vá. — ele se levantou do sofá quase aflito. — Eu... vou fazer uma corrida. — me virei para sair, toda essa coisa de "não vai" estava mexendo com meu psicológico já afetado. A estrada de tijolos era extremamente desconfortável para correr, mas pelo menos as árvores cobrem o Sol — não que estivesse quente, este lugar nunca está quente, mas causa incomodo nos olhos — coloquei os fones de ouvido e o medidor de batimentos. Estava preso a minha própria mente, talvez esse exílio social não me fizesse tão bem quanto eu esperava. Já sentia falta da vida frenética de Madrid, o barulho dos comércios abrindo e dos carros nas avenidas. O silencio abria espaço para que eu pensasse e pensar demais confundia minhas emoções. Observei os traços das ruas — até que era bonitinho — mas as pessoas eram uma releitura do capeta e para piorar ficavam encarando torto, tentando ser sensual. Passei por um grupo de garotas, quando percebi tinha uma delas correndo literalmente atrás de mim. O assaltante aqui sou eu, né? Parei de correr, eu não iria ficar sendo perseguido por um filhote cruz credo, quando o intuito era ter paz. A garota para junto a mim ofegante, como se não corresse daquela forma há anos. Parecia uma adolescente ainda, e talvez realmente fosse: — Eu vou correr até a América, vai vir junto? — não fui muito educado, mas a situação exigia medidas drásticas. — Até poderia ir... — abriu um sorrisinho s****o de quem está sugerindo que a América fica na sua cama. — Mas prefiro ficar bem aqui com você. — se aproximou, colocando seu dedo indicador sobre meu peito. — O que me diz? — Eu e você não vai rolar. — apontei para um anel no meu dedo que sempre usava para me livrar de situações como essas quando fosse necessário. Ela Ela deu as costas decepcionada e voltou às suas amigas do outro lado da rua. Parei em uma praça pequena, quase vazia, tirando por algumas crianças feias se jogando na terra. Saquei meu celular, tem uma mensagem de Raquel. Raquel Miralles: Conseguiu se resolver com seu pai? _8:34am Eu: Só se você considerar brigar a noite inteira, como reconciliação. Acredita que ele me deu uma cintada? _8:39am Raquel: Sério? Estou rachando de rir! Mas por quê? _8:50am Eu: Porque eu o acordei 23:00am com um alerta de fogo. _8:50am Raquel: Atentado! Hoje você não veio tomar café aqui... _8:51am Eu: Meu pai mora em Granada, vou ficar uma semana sem o melhor Capuccino do mundo. _8:52am Me segurei para não falar sobre a melhor garçonete também. Eu: Arg! Estou na zona rural, é tudo r**m, o hotel é h******l, parece o do filme O Albergue, já assistiu? A comida é sem graça e para variar, não tem você. _8:53am Raquel: Não pode ser tão r**m assim, Enrique. _8:54am Eu: Acredite, é muito pior! Dá pra acreditar que hoje o banho, o piso literalmente soltou do chão? Eu podia ter tido um traumatismo e morrido. A propósito, acredita que eu estava fazendo minha corrida matinal e uma mulher começou a correr atrás de mim? Pensei que fosse tentativa de assalto até. _8:56am Raquel: É realmente kkkkkkk não vai dar pra defender. Nope, espera. Tinha uma mulher correndo literalmente atrás de ti? O que você fez? _8:57am Eu: Te juro, ela começou a correr do nada e eu fiquei tipo: o que é isso? Silente Hill? Eu dei um perdido nela, falei que sou casado. _8:58am Raquel: Meu turno vai começar em 2min, preciso ir, mas no horário de almoço eu realmente quero rir mais desses seus relatos. #aindaNãoConseguiPararDeRir. _8:58am Eu: Rindo da desgraça alheia, isso não é bonito! Vai lá, e me manda um Cappuccino pelo correio.  _8:59am Abri um sorrisinho i****a de orelha a orelha, como um adolescente e******o, e eu falo por experiência própria, eu era um adolescente muito e******o. Guardei o celular no bolso e segurei o pingente do colar em forma de presa de tigre. É, parece que as coisas estão mudando para o meu lado, só não sabia até quando. Ela nunca iria aceitar a vida que eu tinha, não que eu pretendesse contar de toda forma, mas ao passo que estávamos indo, ela iria descobrir eventualmente. Cheguei em casa ainda com um sorriso b***a no rosto, estava quase vendo o momento que vou sair cantarolando Bruno Mars por aí. Fechei a porta atrás de mim e dei quase de cara com o meu pai se pegando com a enfermeira do asilo. Esfreguei os olhos para ver se não estava vendo coisas, é isso mesmo. Agora sim, quero arrancar meus olhos! Arranhei a garganta, eles não pararam, pigarreei e nada... todos viram que eu tentei da maneira educada: — Não vai parar com a safadeza não? Que nojo! — disse dando uns passos para trás, esta memória é algo que eu bateria minha cabeça no chão para esquecer. — Ah, Enrique, você chegou. Essa aqui é a minha namorada, e amor esse é o meu filho. — meu pai nos apresentou. — Pai, eu já conheço a Jac! Eu só não sabia que vocês dois estavam se pegando, ela deve estar cega ou louca. — falei esfregando a mão no rosto, que vergonha! — Nós nos amamos, Enrique. Pare de ser invejoso! — ele repreendeu. Eu vou afogá-lo no chuveiro! — Inveja de que? — ri. — Eu também tenho relacionamentos em Madrid muito bem-sucedidos a propósito. — Relacionamentos, no plural?! — Jacqueline arregalou os olhos. — É bem... acontece — me enrolei para explicar, porque na verdade era uma grande mentira. O único relacionamento estável e sem vínculos monetários que eu tinha era com Josh. — Mas nenhuma delas está agora com você, já a minha bonequinha está comigo sempre. — ele abraçou Jacqueline. — Isso porque eu vim aqui para ficar com você, se eu soubesse que seria motel, teria trazido todas, ou melhor teria ficado lá com elas. — revirei os olhos e me virei para ir tomar um banho... ah, que saudade da minha banheira! — Que fofinho quando está com ciúmes. — meu pai me provocou. — Eu vou dar na sua cara, velho, e depois não me pergunte o porquê! — alertei com um sorriso malvado estampado no rosto. — Olha o bebê do papai bancando o machão. — ele riu mais ainda, minha cara já devia estar muito engraçada, porque até a i****a da Jacqueline estava rindo. Até eu já estava com vontade de rir se também não estivesse com raiva. Ignorei qualquer coisa que ele tenha dito depois disso — sinto falta de dar na cara de alguém — provavelmente, nas horas seguintes, iria sair para socar algumas árvores ou o mais lógico, procurar uma academia, porque com tanta tensão rondando meu pai e eu, seria melhor se eu fosse descontar a raiva em algo que não morra. A água gelada do chuveiro congelou meus músculos e a vontade fazer anatomia em vivos. Às vezes, eu me perguntava: o que é que eu vim fazer aqui? Vivia em uma guerra nada fria com o meu pai, mais um pouco iria ter tiro e bomba. E eu não conseguia ver nenhuma diferença, a não ser o fato de que naquele momento estive mais irritado do que nunca, só o fato de estar naquele lugar já fez eu querer m***r alguém a punho. Foi aqui que eu passei os piores anos da minha vida, não foram muitos felizmente. Minha mãe morreu quando eu tinha 15 anos, e no auge da minha adolescência psicopata, mais uma vez eu tive uma crise egoísta. Todos pensavam que eu estava desesperado por causa da morte dela, e que minha mãe me perdoe, mas isso não doeu tanto quanto o que veio depois. Assim que o meu estado de choque passou, isso deve ter durado um dia, ou algumas horas, aí veio o estado de pleno desespero. Pois se minha mãe morreu, não havia outra pessoa para ter minha guarda, apenas o meu pai. Naquele momento eu pensei em todas as formas de contornar a situação, porque sim, mesmo com os hormônios da burrice atacando, eu sempre fui calculista — não que seja uma qualidade que dê muito orgulho — e teria de haver alguma forma de eu não ficar com o cara que eu mais queria m***r. Pois é, não teve. A guarda foi automaticamente passada para o i****a do meu pai, e aí, minha vida ficou mais ferrada do que já era. Antes, ficar com ele era só nas férias, mas depois da morte da minha mãe, era todo dia e toda hora. E já briguei muito com ele, já nos batemos e já nos reconciliamos, e este tempo de paz durava algumas horas que ele ficava sem beber. Por incrível que pareça, minha maior felicidade nessa época era não ter dinheiro, porque assim ele não iria comprar cachaça. E, foi justamente nesta situação que eu comecei a me especializar nos roubos, mas neste tempo era para o bem, eu roubava o meu pai para comprar a comida antes que ele gastasse com alguns litros de Tequila. E isso durou até eu conhecer Josh, o novo aluno que tinha acabado de sair dos EUA — ninguém sabia, mas ele tinha recebido uma ameaça de morte — e bem, nós vimos uma maneira mais fácil que trabalhar por anos e anos para comprar uma choupana no meio do mato. — Vai acabar com a água do mundo, Enrique! — a voz dele ressoou do lado de fora me tirando do transe reflexivo do chuveiro. — Me deixa em paz, velho. Quando você bebia você não se preocupava se eu ia acabar com a água, ou queimar a casa. Então, me faz um favor, volte a beber, agora não faz diferença. — retruquei encostando minha cabeça na parede. Só de pensar que ainda estava no segundo dia, dava até uma vontade de fazer como o p**a-p*u: arrumar minhas malas e ir para o Sul. — Então, quer dizer que o Santo Enrique, me prefere bêbado? — Eu não te prefiro de forma alguma, mas bêbado você não enche meu saco. Não mais. — Sussurrei a última parte só para mim. — Por sorte, eu não me importo com a sua opinião, mesmo que eu encha seu saco, não vou voltar a beber. — ele falou seguro de si. Desligo o chuveiro. — Faça o que você quiser, mas não me atrapalhe, porque não interfere mais em nada na minha vida o que você bebe ou deixa de beber, poderia ter feito isso quando eu ainda ligava. Sai do banheiro com uma toalha enrolada na cintura, umas mexas do meu cabelo caiam no meu rosto — já passou da hora de meter a tesoura. Aquela música do Nicky Jam, Travessuras não saia da minha cabeça, nem percebi que estava cantando e até dançando e o mais importante, também não percebi que meu pai ainda estava no quarto. Travei no mesmo lugar em que estava: — Pode continuar, eu não me importo. — ele colocou a mãos sobre a boca rindo. — E você pode sair, eu não me importo. — respondi abrindo o guarda—roupa. Ele continuou parado como uma coluna do templo. — Vamos lá, pai, você não vai ficar aqui enquanto eu me visto, né? — Dispenso. Mas não pense em pular as janelas antes de conversar com o papai. — levantei meu dedo do meio e ele saiu rindo. Vesti um moletom cinza, e antes que digam que só uso cinza e preto, eu não sou bandeira LGBT para andar colorido. Calcei um tênis de academia, e lá iria eu descontar minhas frustrações: — Eu disse que antes você ia conversar comigo. — meu pai falou balançando as chaves da porta, virei meu olhar lentamente para encara—lo. — Você-é-um-maníaco! — falei pausadamente, puxei uma cadeira para me sentar, seria bom que ele me falasse algo muito interessante para justificar o fato de ele ter catado as minhas chaves. Meu pai vinha andando até mim: — Sabe, Enrique, na sua idade você já deveria estar casado, com pelo menos um filho. — ele começou. Joguei minha cabeça para o lado, não era possível que ele tenha roubado as minhas chaves para falar da minha vida conjugal que, por sinal, nem existe. — Ah não, você não está tirando alguns minutos da sua vida para me falar de filhos e casamento. — me levantei da cadeira com as mãos no bolso, se ele não me desse essas chaves eu pularia do segundo andar mesmo. — Coisa que você mesmo me disse que era burrice. — E você ainda se lembra disso? Que espécie de criança com cinco anos lembra de algo como isso?! — ele gesticulou com a mão. — Acho que você comia muito peixe. — Não preciso de peixe para lembrar, agora me dê as chaves, minha vida conjugal não te interessa. — pedi andando até ele, que por sinal, se bem reconheço estava usando o meu perfume. Velho folgado... — Me interessa sim, agora coloque seu traseiro de volta na cadeira. — ele apontou para a cadeira. Ignorei. — Eu não quero ficar aqui escutando suas baboseiras sobre casamento! E não vou, porque você sabe muito bem que só estou aqui porque quero, a fechadura dessa porta eu quebro em dois segundos. — alertei, ele não dá muita atenção, apenas continuou olhando para a cadeira. Me dirigi a cozinha, peguei uma maçã verde e voltei para a sala. — Fala que me odeia tanto, mas não esquece nada que eu tenha te falado, e ainda segue meus concelhos. — ele falou se jogando no sofá. — Eu poderia dizer que não odeio ninguém, mas eu realmente não gosto de você. No entanto, você estava certo, eu poderia ser tudo que eu quisesse se não casasse. — disse me encostando no batente da porta, esperando que ele viesse e me entregasse a chave. — Mas você queria ser um soldado... — E você me chama de demônio e diz que todos me odeiam, incluindo você, mas veja só, quem depois de onze anos não esqueceu qual era o meu sonho infantil. — ergui uma sobrancelha, o sorriso apareceu quase que involuntariamente. — Odiar é muito forte, eu só não vou com a sua cara e nem com nada que tenha a ver com você. — explicou. — Mas você está fugindo do real assunto. Você queria ser soldado... — Você sabe o que aconteceu com esse sonho b***a. — disse fazendo um sinal de "pare" com a mão. — Você queria rápido e fácil. — ele falou com um ar de decepção. — Você fala como se só você tivesse o direito de se decepcionar com algo. — fiz um sinal negativo com a cabeça. — Você era o meu melhor amigo e me decepcionou como nenhuma outra criatura viva fez. Mas eu aposto que você não se lembra. Catei as chaves enquanto ele estava pensando no que eu disse e destranquei a porta. — Do que vo... — antes que ele terminasse a frase fechei a porta atrás de mim. Entrei no meu carro alugado e girei a chave de ignição. Enquanto os prédios e as pessoas iam ficando para a trás, eu continuei preso no meu próprio silêncio e mesmo que eu não quisesse, estava voltando ao Natal de 1999. 24 DE DEZEMBRO DE 1999 — Pai? — chamei por ele, com um sorrisinho i****a de quem estava vendo seu ídolo. — O QUE É AGORA, ENRIQUE? Será que você não pode parar um minuto de me atormentar?! — ele falou brutalmente, nunca tinha usado tanta arrogância na voz para falar comigo. Mesmo assim, eu não entendi que aquele era um sinal para não avançar e deixar a estrela para lá. — Me ajuda a colocar a estrela na árvore? — mostrei—lhe a estrela de plástico que nem era tão bonita para valer a pena o que iria vir depois. — Ainda com essa estrela i****a? Você já tem dez anos, deveria parar de ser tão e******o! — ele segurava o meu braço com força, estava doendo, mas ele não estava nem aí. — Por que você não vai se lascar ao invés de me atrapalhar? Vai brincar de se jogar na frente do carro. Eu estava começando a chorar, não tanto pela dor física — e olhe que estava doendo — e sim, pela quebra de uma ilusão que eu levava por tanto tempo, aquele que era o meu pai de verdade, não tinha nada a ver com a imagem de um herói que eu criava na minha imaginação. Ele foi me soltando: — Eu te ajudo a colocar a estrela. — senti o hálito h******l do álcool, mas não me importava, porque a esperança de que meu pai estava de volta não parava de crescer dentro de mim. Ele me levantou lá no alto, mas então, quando estava prestes a colocar a estrela, ele me soltou. A pancada no chão foi mais forte do que eu esperava, meu corpo caiu inteiro sobre meu braço. Aquele foi meu primeiro osso quebrado, e a d***a do herói? Estava rindo alto enquanto eu chorava e me contorcia no chão. Ali eu percebi que ele não era mais meu herói, e sim o vilão. ●● Voltei para a realidade, meus olhos estavam marejados. Ignorei. Depois de tanto tempo, eu me recuso a sofrer por isso. Joguei minha cabeça para trás como tentativa de não deixar as lágrimas caírem, mas como tudo para mim parece mais intenso quando se trata dele, lá estava eu, com o rosto molhado e vermelho. Mesmo depois de dezesseis anos, toda vez que lembrava disso era como se fosse agora, a mesma ilusão desfeita, várias vezes seguidas, algo como o meu inferno particular. Entrei numa academia de um antigo conhecido, amarrei a faixa branca nas mãos e comecei a dar socos sem parar no saco de pancadas, como se estivesse batendo em quem realmente queria. Encarei o braço que eu quebrei no Natal que eu passei no hospital rezando para não ter que voltar para casa, não tinha medo dele, nunca tive, mas toda vez que olhava para ele, era um punhal vindo contra tudo que eu acreditava, me decepcionando vezes seguidas. Acertei um soco com toda a raiva que pode ser transmitida dessa forma. Depois de passar quase 1h socando sem parar o saco de pancadas, desisti de furar o couro. *** Devia estar perto das 19:00h quando cheguei em casa de novo, o relógio esportivo continuou no pulso, mas não preciso repetir que não sei nem onde está o ponteiro nesse negócio, preciso? Senti falta do espaço da minha casa, e a privacidade... quero dizer, nem tanta privacidade. Na parede de trás da sala da pousada tinha uma varanda, com algumas flores murchas e uma cadeira de balanço do vovô. A propósito, era exatamente lá onde o velho estava sentado. Jacqueline estava na cozinha fazendo o jantar, e eu me sentindo um espírito naquele lugar. Encarei a paisagem através da varanda. No final, há algo bom em ser r**m, porque assim, não há expectativas sobre você, não há olhares tristes quando você comete mais um erro. Lá no fundo, ninguém quer te ver bem, porque quanto mais dentro do escuro, mais te empurram. Você pode ganhar o Nobel da paz, ninguém vai notar, mas se você jogar um papel de bala no chão, eles vão dizer o quanto você é h******l, e assim até que não faça mais sentido estar do lado bom, porque só te notam, quando você está nas páginas policiais. — Viajando na mariola, Enrique? — Jac Perguntou com um sorriso doce, nada comparado ao de Raquel, na verdade eu não acho que exista um mortal que tenha um sorriso mais lindo que o dela. — Momentos de reflexão. — murmurei. — Eu vivia tendo esses momentos de filosofia, queria ser psicóloga, mas acabei como ajudante de enfermagem de asilo. — ela passou a mão no rosto em desgosto. — Por que não se formou em Psicologia? — inquiri. — O mesmo que o de todo mundo... não passei no vestibular e não tinha dinheiro para pagar. — sorri forçado. — Sortudos serão seus filhos, que não terão que fazer o que não gosta por falta de papel. — Eu não quero ter filhos, Jac. — expliquei enquanto ajudava-a a colocar os pratos na mesa. — Ah, por quê? Só de olhar para você já sabemos que seus filhos viram arrasando corações desde a maternidade. — ela olhou para cima como se estivesse imaginando. — Eu não tenho vocação para ser pai, Jac. Veja só o meu temperamento h******l, não quero ter filhos para tratá-los como objetos. — fiz uma pausa. — Se for assim, prefiro não os ter. — Temperamento h******l, Enrique? Você é um monge de tão calmo. — ri junto com ela. — Isso porque você me vê de vez em nunca. — Tem alguma foto sua de quando era pequeno? — Jac perguntou enquanto terminava de arrumar a mesa. — Tinha um álbum que minha mãe guardava essas fotos vergonhosas, mas não sei onde está. — passei as mãos no cabelo. — Eu sou fanática por bebês e crianças, então, não leve na malícia, mas só de imaginar um mini você, dá vontade apertar e levar para casa. — ela sorriu. — E você? Por que não tem filhos? — Não tenho dinheiro nem para me sustentar, quanto mais uma criança. — Jac riu sem graça. — Vou chamar o velho. — disse me afastando. — Daniel, acorda! — chacoalhei seus ombros. — Eu prefiro quando você me chama de pai.
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