Capítulo 1
P.O.V Melissa
Me ajoelhei sobre a grama recém aparada como de costume, deixei um suspiro escapar tentando encontrar as palavras certas para começar aquele monólogo.
- Mommy.. - sorri tristemente. - Faz tempo que não a chamo assim, mas hoje encontrei uma foto sua escondida no quarto da mamãe, você era tão jovem e linda. - apertei a foto em minha mão engolindo a seco. - Não sei por que estou aqui. - olhei para a lápide sentindo meus olhos marejarem.
Olívia Clark-Torres
08. 09. 1995 - 25. 05. 2019
'Mãe, esposa, irmã e amiga amada'
"Desistir não é uma opção"
- Eu não acredito que esteja aí. - toquei a lápide gélida dedilhando aquela frase que tanto me intrigava. - Eu sei que não está morta. - sussurrei baixinho aquele segredo que eu guardava em meu coração. - Mas a mamãe parou de falar sobre você, e eu queria que ela estivesse feliz outra vez como nas fotos dos álbuns, eu queria que ela não desistisse e que não se tornasse tão amargurada.
Me calei ao sentir meu celular em minha mão vibrar, li a mensagem da mamãe apenas confirmando o que eu já sabia.
"Você está encrencada Melissa, sei que matou aula para ir ao cemitério, esteja em casa em cinco minutos."
- Mamãe está uma fera. - murmurei ajeitando meus óculos. - Isso parece e******o, mas, se você ainda está viva, me dá um sinal. - balancei a cabeça negativamente notando o quão louco era dizer aquilo.
Me levantei da grama pegando minha mochila e a colocando nas costas passei a mão sobre minha roupa limpando-a para poder ir embora, eu gostava de ir aquele horário pois o cemitério estava vazio, então ao notar a presença de um homem em pleno sol de meio dia coberto com um sobre-tudo e um boné estranhei.
Semicerrei os olhos tentando enxergar melhor visto que ele parecia olhar na minha direção, mas ao vê-lo dar um passo para a frente recuei me lembrando que poderia estar diante da presença de um maníaco.
- Ei, você. - ele murmurou me deixando ainda mais aflita, me perguntei o quão rápido poderia correr mas lembrei que não era muito boa com isso.
- Eu estou armada! - anunciei com minha voz trêmula dando passos para trás ao passo que ele se aproximava.
- Sua mãe jamais lhe daria uma arma. - ele riu baixinho retirando seu boné, abri a boca incrédula.
Era o mesmo homem das fotos, tirando o fato de que estava mais velho, com uma barba m*l feita e uma enorme cicatriz de queimadura na bochecha esquerda.
- Por favor não corra. - ele pediu calmamente erguendo as mãos. - Eu sou o..
- Tio Oliver. - deixei escapar ainda absorta.
- Oi Mel. - ele sorriu parecendo tentar conter suas lágrimas, eu não tinha certeza ainda se podia me aproximar ou não. - Você tem as bochechas da Olívia e o sorriso da Natalie. - sorri ajeitando meus óculos envergonhada, apesar de saber que era adotada eu adorava quando diziam que eu tinha algo das minhas mães.
- Por que está aqui? - questionei vendo-o se aproximar. - Minha mãe disse que você e a tia Valerie se mudaram com suas famílias um ano depois do que aconteceu. - eu não queria parecer rude mas eu sentia que havia sido abandonada por eles.
- Desculpe por deixar vocês, é que..
- É que a melhor amiga e irmã de vocês morreram e deixar a esposa dela e a filha de quatro anos era a melhor opção. - cuspi as palavras sentindo meu sangue esquentar, apertei meus punhos tentando conter minha raiva.
- Me desculpe Mel. - foi a única coisa que ele disse, não tentou se explicar ou me fazer entender, um pedido de desculpas foi a única coisa que recebi e eu sequer sabia ao certo pelo que era.
O vi me dar as costas e se afastar andando cabisbaixo lentamente.
- Tio Oliver? - falei um pouco alto para ser ouvida, ele se virou fixando seus olhos em mim.
- Oi pequena. - ele respondeu me fazendo sentir calafrios arrepiar todo meu corpo.
...
- Oliver protege a Melissa! - ouvi mamãe gritar no meio daquele barulho todo, havia fogo para todo lado e muita fumaça, mas fortes braços me agarraram e protegeram meu rosto.
Perfume de flores, este era o cheiro que o tio Oliver tinha.
- Ei pequena, está tudo bem. - senti seus braços me apertarem ainda mais, tirei o rosto do seu peito olhando a nossa volta.
Só havia fogo, e as mamães haviam sumido.
...
- Foi você que me protegeu do fogo. - ele se virou para mim confuso. - Eu me lembro de você, me protegendo do fogo no dia em que a mamãe morreu.
- Perguntou por que estou aqui.. - ele pôs as mãos em seu sobre-tudo se aproximando novamente. - É porque eu não estou convencido de que a Olívia está morta. - senti meu coração errar uma batida.
Será o tio Oliver o sinal que eu pedi?
- Sei que a Natalie contou a você que ela morreu queimada no incêndio. - franzi o cenho confusa afinal ele estava distante então não tinha como saber daquilo. - Mas isso não é verdade, ela foi sequestrada naquele dia pela Amy e o David.
- Você está brincando comigo? - perguntei incrédula, senti suas mãos agarrarem meu braço mas eu ainda estava tentando absorver o que havia ouvido.
- Eu acho que a Olívia..
- Se afaste da minha filha! - estremeci ao ouvir a voz da minha mãe soar atrás de mim e ao ver a feição do tio Oliver percebi que ele estava assustado também.
- Natalie.. - ele murmurou baixinho retirando as suas mãos de mim, assim que me virei arregalei os olhos ao ver minha mãe em seu uniforme com uma arma apontada para ele.
- Mãe abaixa isso, ficou louca? - ela continuou apontando aquilo na direção do tio Oliver como se não o conhecesse. - Ele é da família.
- Olha como você fala comigo mocinha. - ela guardou a arma em seu coldre ainda parecendo furiosa. - E família não abandona.
- Família também não mente. - ele rebateu imediatamente, senti que era uma péssima hora para estar entre eles. - Oi ruiva. - ele sorriu deixando sua cicatriz acentuada.
- Eu não o quero perto dela. - minha mãe falou sendo grosseira.
- Por que não quer que ela pense que a Olívia está viva? - ele questionou deixando minha mãe incrédula. - Já faz 15 anos Natalie..
- Deixe o passado no passado, os mortos precisam de sossego. - suspirei começando a duvidar que todos os mortos naquele incêndio na verdade não estavam tão mortos assim. - Precisa esquecer o que houve naquele dia.
- Minha mãe não desistiu de você. - murmurei olhando para a lápide dela. - Ela não desistiria de nós mãe. - engoli a seco sentindo meus olhos marejarem. - Não há um corpo aqui, há?
- Não. - minha mãe e o tio Oliver responderam ao mesmo tempo.
Era a única coisa que eu precisava saber para ter a esperança de que a mamãe poderia ainda estar viva mesmo depois de 15 anos.
Se não há corpo então não há provas de que está morta.