P.O.V Melissa
Eu sempre guardei raiva, sempre me senti triste e abandonada, mesmo sem saber do que havia acontecido eu cultivava raiva por causa daquela vida sozinha e triste, e eu jamais pensei que fosse sentir qualquer outra coisa além disso.
Mas, saber que minhas mães estavam para ter um filho e que eu fui a substituição dele era doloroso demais.
- A Instituição que você sempre visita e administra..
- Sim, foi a forma que eu encontrei de sempre ter um pedacinho do Dom comigo. - ela respondeu calmamente enquanto suas lágrimas rolavam livremente por seu rosto.
- Eu fui.. - respirei fundo sentindo minha voz quebrar, Katie acariciou os meus braços sussurrando que estava ali comigo enquanto eu tomava fôlego para poder perguntar aquilo. - Fui a substituição do bebê morto?
- Não! - ela se apressou em dizer desesperada. - Filha, você nunca foi vista como uma substituição.
- Mas você acabou de dizer que me encontrou no hospital ferida, que minhas mães biológicas morreram e você decidiu ficar comigo. - falei exasperada tentando não me sentir decepcionada.
Tudo o que eu sabia é que eu tinha duas mães, Cheryl e Toni, e que herdei os cabelos ruivos de uma delas, que quando eu era somente um bebê um acidente de carro havia acontecido, elas morreram, e minha mãe decidiu me adotar e conseguiu fazer isso um tempo depois.
- Não foi tão simples Mel. - Oliver pronunciou estendendo sua mão para tocar a minha. - O bebê das suas mães não tinha chances de viver, elas sabiam disso, mas não procuraram um bebê substituto, na verdade a Olívia nem sabia que você existia até um tempo antes da adoção.
- Mas, você me disse que me visitava no orfanato em Boston todo mês. - olhei para as orbes da minha mãe, ela podia mentir mas seus olhos não.
- Sim, eu passei a te visitar desde que soube que você havia sido mandada para um orfanato, mas a Olívia não sabia disso, ela sequer sabia que você existia. - a encarei incrédula. - Nosso casamento esfriou muito depois que o Dom se foi, eu me afastei da sua mãe e não estive lá quando ela precisou de mim, o que a deixou muito decepcionada e amarga..
- Abandonou a mamãe depois que o bebê morreu? - ela sequer foi capaz de dizer em voz alta, apenas a vi assentir com a cabeça.
- Você tinha passado por cirurgia, estava sozinha e machucada, então eu passei a sempre ir vê-la e levava junto a Amy que por ser enfermeira podia te dar um cuidado especial.. - respirei fundo ao sentir minha barriga doer. - Eu só queria garantir que ficasse bem, mas eu acabei me apegando a você, me apaixonei por cada detalhe seu, e quando me chamou de mamãe, eu confirmei o que já suspeitava, não podia simplesmente deixá-la ir.
- Quando a Olívia soube que você existia, ela ficou muito surpresa, mas sabe o que ela fez? - Oliver sorriu nostálgico. - Ela abraçou você, e a partir dali ela se tornou a sua mommy, como você gostava de chamar. - sorri me lembrando do seu sorriso, era a única coisa que eu conseguia lembrar dela.
- Eu não sei como me sentir.. - murmurei secando as lágrimas silenciosas que banharam minhas bochechas. - Katie, me ajuda a levantar.
- Filha, você..
- Preciso me deitar. - a interrompi sem delicadeza.
- Você ainda não comeu nada. - Oliver murmurou se levantando do chão. - Olívia comia por cinco pessoas quando estava grávida.
- Acho que ela só usou a gravidez para comer tudo que queria. - falei sorrindo. - Eu preciso descansar um pouco, não estou com fome. - ele assentiu em compreensão.
- A Emily pode te preparar um banho de banheira relaxante no quarto dela..
- Não precisa, eu a ajudarei a deitar. - Katie se pronunciou enquanto colocava suas mãos em minhas costas me empurrando levemente.
Retornamos ao quarto onde eu me deitei na cama espalhando-me por completo.
- Por que dispensou o banho de banheira por mim? - perguntei curiosa a vendo procurar algo em sua mochila. - Voltou a me ignorar?
- Quando eu comecei? - ela questionou enquanto colocava seu celular para carregar.
- Bom.. - refleti bem no que iria falar. - Parece que está ignorando.
- Não estou. - ela respondeu automaticamente, revirei os olhos me arrependendo logo em seguida ao sentir minha cabeça latejar.
- Tudo bem. - murmurei deitando de lado, visto que dividiriamos a cama eu não queria deixar a Katie desconfortável em ter que dormir ali.
- No que está pensando? - a ouvi perguntar ao passo que desligava a luz.
Somente o abajur na cômoda ao lado da cama iluminava o quarto, mas a minha mente permanecia no escuro, eu não sabia o que pensar ou o que sentir, e muito menos como reagir há algo que aconteceu há quase 18 anos atrás.
- Mel? - senti o lado vago da cama afundar, fechei os olhos para impedir que as lágrimas voltassem a cair mas foi inevitável.
Um nó se formou em minha garganta me fazendo soluçar alto enquanto o travesseiro abaixo da minha cabeça começava a ficar molhado.
- E-Eu.. - engoli a seco sentindo meu coração apertar. - Eu me sinto abandonada, Katie.
Escondi meu rosto entre minhas mãos me senti envergonhada por chorar daquela forma, desde que eu soube que minha mãe podia estar viva uma parte de mim queria ir procurá-la, mas, a outra parte, aquela garotinha interior de 3 anos se perguntava por que ela nunca voltou.
- Você não foi abandonada Mel. - senti sua mão deslizar por minha cintura até parar em minha barriga, seu corpo se aproximou do meu me abraçando com carinho. - Eu estou aqui com você.
- E-Eu não entendo por que..
- Shh.. - ela murmurou baixinho me pedindo para ficar em silêncio. - Não precisa entender agora meu amor.
Me virei com um pouco de dificuldade ficando de frente para ela, suas orbes verdes me fitavam com carinho, seu braço permaneceu ao redor do meu corpo nos mantendo próximas.
- Eu sei que tudo nessa cabecinha está uma bagunça agora.. - ela sorriu enquanto levava sua mão até a minha bochecha secando minhas lágrimas. - Mas você não está sozinha nisso, sua mãe está tentando consertar as coisas, vamos descobrir o que aconteceu com sua outra mãe, você conheceu seu tio e vai conhecer sua tia, e tem até a Emily.. - deixei um sorriso escapar ao ver sua cara de nojo ao mencionar a filha do Oliver.
- Você não gostou dela, né? - perguntei baixinho com a voz meio rouca devido ao choro.
- Só fiquei com um pouquinho de ciúmes. - ela confessou desviando seu olhar do meu.
Levei minha mão até a sua nuca a fazendo olhar para mim novamente, me aproximei do seu rosto lentamente e colei nossas testas fechando meus olhos.
- Você tem a mim, sabia? - ela sussurrou baixinho.
- É tudo o que eu preciso. - respondi sentindo meu coração aquecer.