O olho debaixo da pia ( parte 2)

2926 Words
sarcasticamente. - Aliás, você ficou de me falar porque saiu do décimo sexto andar se lembra? Você era a estagiária da Presidência não era? - Sim, eu te conto, mais não aqui, vamos a Copa. - Disse Clarice puxando Agatha pelo braço. A porta da copa se abre. O Olho se abre - Bom, sente-se. – Clarice puxa uma cadeira - Na verdade, eu era sim estagiária da presidência, fui contratada por Beatriz, mas fui ‘’rebaixada’’ pelo Marcelo... - Mas... O que você fez? O que aconteceu? - Agatha você sabe... O Marcelo gosta de meninas bonitas, percebe? E eu não sou exemplo nenhum de beleza. Agatha olha para Clarice, de fato ela não era nada atraente: franzina, baixa estatura, os dentes eram sobressaltados o nariz um tanto grande para o seu rosto. Nada que se encaixasse nos moldes de beleza da sociedade. - Mas ele n******e ter demitido só por isso, a Bia não fez nada? - Não fez. Você me conhece há pouco tempo, mas deve ter percebido o meu jeito atrevido, quando estou na razão eu falo mesmo, doa a quem doer, e foi em uma dessas rebeldias que eu acabei discutindo com o Marcelo. No dia seguinte, ele me chamou na sala dele, disse que a partir daquele dia eu iria trabalhar no andar debaixo e só iria ali quando ele chamasse. O motivo? Disse que eu era f**a demais, e que mesmo que eu me arrumasse, não conseguiria ficar bonita, e poderia assustar algum amigo dele que fosse na presidência visitá-lo. - Nossa! Ele te esculachou!- exclamou Agatha incrédula- Credo. - Ridículo! Escroto! p****e!... Muita raiva dele, pior que eu achava ele maravilhoso, lindo, o príncipe encantado dos meus sonhos. - Você não pensou em processá-lo? - Processá-lo?! Está louca?! Impossível! Entre os dez mais poderosos da cidade de São Paulo, Marcelo conhece onze! - O poder destrói as pessoas... - Poder, dinheiro, e tals... Bom ,mas acho que com r*****o a você, não há com que se preocupar, ele quer você e fará de tudo para te ter. - Como tem tanta certeza? - Confie em mim. Faz quase dois anos que trabalho com ele, e nunca o vi assim tão fissurado por alguém, nem mesmo por Bia... Coitada... Sofre. Bom, estou indo, você leva os papeis para mim por favor? Não estou disposta a estragar o meu dia vendo aquele cafajeste. Obrigada! - Clarice sai sem ao menos deixar Agatha responder. A fala de Clarice não saia de sua cabeça. Um misto de desespero com uma leve serenidade invadia seus sentimentos, sabia que seu emprego era garantido até pelo menos quando durasse o feitiço de Marcelo por ela, e ao mesmo tempo, sentia a presença de seu passado sombrio a atormentá-la novamente. A porta se abre. Entra Maria e Bete. - Olá, minha princesa! Como está? –diz Maria a Agatha. - Bom dia, meninas! - A Maria tem uma surpresa para você não é?- Bete responde com uma piscadela para Maria. Maria aproxima-se de Agatha, e retira um papel cartão azul de seu avental. - Tome, Agatha. É do Pedro, meu filho, hoje é o aniversário dele! Fez questão de ele mesmo escrever para você, ele vive dizendo que quer conhecer a menina ‘’das flores’’ e do’’ carrinho’’. Ele adorou o presente, muito obrigada. - Maria dá o mais forte abraço em Agatha, que docilmente o retribui. - Que bom, Maria! Isto me deixa tão feliz! Eu vou hoje na festa, sim. Pode contar com a minha presença e da minha tia também. - Fico contente que vá. Bom, vou levar estas xícaras para sala de reunião. - Eu acompanho você, fiquei de entregar estes papeis lá. Você vem Bete? - Alguém tem lavar esta louça não é madames?- Vocês podem ir, e vê se levem um “suquinho” de maracujá para amansar a ‘’fera’’ que hoje está “azeda”. - Só hoje?- Responde Maria, fazendo o sinal da cruz. Agatha ri. As duas saem. Bete continua a lavar a louça copo por copo, prato por prato. O Olho observa atentamente, e repara o que ninguém reparou, seu avental cobre não só o uniforme diário de trabalho, mas também as marcas rochas e manchas de queimadura proporcionada pelo seu marido, que é alcoólatra. Bete é vítima da violência doméstica, assim como Agatha o foi. Uma ferida aberta no antro da sociedade, fétida, asquerosa, repugnante... Vil. Bete continua nesta vida, assim como várias outras “Betes’’. Lava a louça como se lavasse suas feridas, com muito cuidado, sem reclamar, sem pestanejar, sonha com um mundo melhor, um mundo com mais seres humanos. ... É chegada à noite. Agatha se prepara para passar alguns memoráveis minutos extras com Marcelo. Ou, talvez, horas? Agatha estava sentada, digitando, enquanto Marcelo ditava. - Por hoje é só. - Disse Marcelo- que estava a olhar pela janela o anoitecer Paulistano. - Bom, estou indo então... - Espere, vamos tomar um drink? Você bebe? - Muito obrigada Marcelo, mas não bebo. - Por favor, insisto, é só uma dose. Não vamos demorar. - Marcelo abre uma adega ​ao lado de sua mesa e pega uma garrafa de Whisky- Pode sentar-se neste sofá. Eu quero saber mais sobre você, você parece ser interessante, sem segundas intenções é claro, mas ...Gostaria que conversássemos como amigo, sei tão pouco sobre você... - Com todo respeito, acho que minha vida não é tão interessante assim... Ainda mais para uma pessoa tão importante como você... - Agatha sorria acanhadamente. -Gosto de conhecer as pessoas que trabalham comigo, eu sei que você com certeza já ouviu algo r**m a respeito de mim, eu tenho meus defeitos, e também tenho minhas qualidades... - Sim, todos nós temos. - Fico feliz por você ter aceitado a minha proposta, agora podemos passar mais tempo juntos... Marcelo conforme ia falando ia aproximando-se cada vez mais de Agatha, que recuava... Ele aproxima-se dela, está a um palmo do rosto de Agatha. Suas mãos alisam suas pernas,os quadris, o dorso de Agatha, subitamente começa a beijá-la ... Agatha não recua desta vez, está acuada como um passarinho na gaiola. .Gritar? Pedir Socorro? Não, ninguém iria ouvi-la. Não havia mais ninguém no prédio... -Por favor... Pode aparecer alguém... Eu tenho um aniversário para ir...- Sussurrava Agatha. Marcelo não cessa as carícias. Agatha não sabe o que está sentindo naquele momento, um misto de d****o e asco lhe paira a mente. De repente uma voz sussurra em seus ouvidos: - Se você contar para alguém eu te mato! Espere?Aquela voz não estava saindo da boca de Marcelo...Quem era?..Sim, Era ele... O homem que a abusou durante tantos anos. O Fantasma havia voltado. Com o susto, Agatha empurra Marcelo, que cai no chão. - Me desculpe, eu tenho um aniversário para ir... Não posso mais ficar... Agatha pega sua bolsa que está em cima da mesa, abre a porta, e sai. Marcelo não a impede apenas senta no sofá e termina de tomar o drink. O cordeiro havia fugido do lobo. O Olho se fecha. ... Mais um dia no escritório de advocacia de São Paulo, tudo normal, folhas, processos, cadeiras... A porta da copa se abre. È Agatha, que avista Tito na mesa, cabisbaixo, desolado, chorando. - Tito? O que aconteceu?- Pergunta em tom desesperador. - È o fardo que eu carrego, fruto do preconceito. - Alguém te desrespeitou?Quem foi? Porque se for... - Não querida, você não fará nada. Eu fui demitido, me acusaram injustamente, arruinaram minha vida , me acusaram de uma coisa que não fiz. - Pode me contar o que aconteceu? - Há algum tempo, vinham sumindo dinheiro dos caixas nos primeiros andares, há câmeras de segurança em todas as salas onde há dinheiro. Hoje o Marcelo me chamou na sala dele, disso que já havia averiguado as gravações das imagens . Disse que era eu o ladrão. - Mas, Tito, se não foi você, o que tinha nas gravações? - Ele não me deixou ver, disse que estavam em sigilo para serem levadas a policia, e que se eu não saísse dali imediatamente ele mesmo iria levá-las a policia. - Isso é um absurdo!!! È seu direito!!! Eu vou falar com Marcelo , isso não vai ficar assim... - Calma, Agatha! Não temos muito que fazer... Sabemos como o Marcelo tem influencia, e ninguém vai acreditar em um p***e , n***o, como eu... - Eu acredito em você. E eu vou falar com Marcelo.- Disse Agatha firmemente. ... - È, ela é gostosa sim, Marcelo. - Disse Pedro analisando a foto de Agatha - Eu quase consegui ontem à noite... Estava tão perto. Já vou te avisando que quero uma palavra sua com Maria Luiza, aquela fofoqueira é capaz de falar até para os defuntos. - Fique calmo amigo, não estamos mais juntos, vou partir para o segundo andar , tem outra secretaria gostosa lá. - Que seja, fique atento. Pedro era o melhor amigo de Marcelo, todas as suas aventuras eram ouvidas e opinadas por ele. Ele também era advogado e atuava em algumas causas com Marcelo, mas nunca quis entrar para a sociedade, além da profissão os dois tinham algo peculiar em comum: o modo como tratavam e destratavam as mulheres. Ouve-se um barulho na porta, Marcelo exclama – pode entrar!- Agatha entra e diz: - Posso falar um minuto a sós com você Marcelo? -Claro- Marcelo pigarreia e olha para Pedro. - Bom, estou saindo. Mais tarde falo com você. – Diz Pedro. Marcelo esboça um enorme sorriso ao ver Agatha, que apática, não o retribui. - Diga, minha linda. -Marcelo, eu quero falar com você a respeito de Tito. Conheço-o bem, apesar de não estar tanto tempo trabalhando aqui. Não sei se você sabe da história dele, ele sustenta sozinho umas onze crianças, e você... - Agatha! Agatha!- Interrompia Marcelo- Claro que conheço a história de seu amigo, o problema é: não dou a mínima, e muito menos admito ladrõezinhos atuando no meu escritório. - Marcelo, por favor- Agatha aproxima-se dele – Ele não fez isso eu tenho certeza. - Eu tenho as provas.- Marcelo se esquiva. - Mostre-me! - Sabe? Pensando bem, eu sei o quanto você gosta de seu amigo eu posso rever a demissão de seu amigo... Eu tenho uma proposta a fazer a você. - Diz Marcelo. - Qual? - Eu posso admitir seu amigo de volta, com uma condição: Você vai ficar comigo esta noite e as próximas, e não é só trabalhando... Se é que me entende... Agatha se espanta com a proposta, o rosto em pânico se propaga pelas suas pernas que parecem não sentir mais o chão... - Você esta propondo que... Eu me venda para você? - Estou propondo uma forma de te ajudar , e ajudar seu amigo.Você aceita ou não? - Jamais! Jamais, faria isso com a Bia, entendeu? Responde Agatha furiosamente- Ela te ama! - Que seja. Bom, estarei aqui se mudar de ideia. - Você é desprezível- Responde Agatha que sai da sala batendo a porta. Marcelo apenas sorria. De fato ele era desprezível. Mas que importa? Com todo o poder e dinheiro que tinha, sentia que podia comprar tudo e a todos. Agatha era apenas uma ilusão ,um sonho, algo distante, que faria de tudo para realizá-lo. A menina o evitou aquele dia e os outros seguintes. Mesmo com a rejeição de Agatha a ele, sentia em seu frio coração, que Agatha mais cedo ou mais tarde iria cair em seus braços, e como uma armadilha jamais poderia sair. O lobo estava prestes a agarrar o cordeiro... ... Bia estar a olhar fitamente para a tela de seu computador, enquanto digita balbucia algumas palavras como se o aparelho pudesse entendê-la. Seus olhos verdes resplandecem, parece que encontrou a palavra-chave para a sua conclusão e... Bam! Ouve-se a porta de sua sala abrindo escancaradamente por Marcelo. - Satisfeita, Bia!!! Eu fiz o que você me pediu, já demiti o funcionário Tito. E agora? Trate de dar um sumiço naquela v********a e ladra da sua amiga. Antes que eu mesmo a coloque para fora! - Não fale assim de Marli. - Responde Bia ajeitando os óculos- Eu ainda não conversei com ela, mas por favor, peço-lhe sigilo sobre isso, seria um escândalo se souberem que minha melhor amiga anda roubando o caixa do escritório. - Ah um escândalo! Escândalo, Bia, vai ser quando a policia descobrir que não foi Tito quem roubou, estaria arruinado se ele resolvesse processar o escritório e... Bia coloca os dedos nos lábios de Marcelo para calá-lo, e diz: - Amor ele é um p***e coitado. Não acho que iria processá-lo, e além do mais, você conhece todos os juízes da cidade de São Paulo, não acredito que ele seja tão atrevido em te desafiar. - Responde Bia que encerra com um beijo. ... Agatha lava o rosto no banheiro. A fala de Marcelo não abandona seus pensamentos. O que faria então? Cederia aos encantos de Marcelo? E se cedesse, seria para ajudar o amigo ou, por puro prazer? ... A porta da copa se abre. È Maria Luiza. - Agatha tem uma pessoa aqui que quer falar com você. Pela porta entra um homem corcunda com as calças arreadas até o alto da cintura, blusa xadrez, e boné. Apesar de aparentar ter trinta anos, vestia-se como uma criança de pouca idade. Agatha corre para abraçá-lo. - Juca! Você veio! Que bom! Juca, era como se fosse um filho adotivo de Flora, tinha retardo mental, comportava-se de uma criança de oito anos. Fora abandonado ainda recém - nascido na porta de uma igreja. Nunca conseguiu ser adotado quando criança, talvez até por causa da enfermidade. Quando ainda jovem trabalhou como jardineiro de uma escola onde Flora trabalhava. A tia de Agatha, com sua imensa bondade, logo se afeiçoou ao rapaz, que começou a trabalhar com ela na floricultura. Além de trabalhar com Flora, Juca ainda fazia alguns b***s como coveiro em cemitérios. Tinha um grande carinho por Agatha, que o tratava como se fosse um irmão, mas Juca tinha um apego muito mais do que de um irmão, sonhava todos os dias com ela, e qualquer pedido da menina era uma ordem. - Vim trazer flores para Agatha- Disse Entrelaçando as mãos - Que gentileza! Obrigada!- Respondia Agatha com um leve sorriso. - Tia Flora espera Agatha lá embaixo. - Sim! Quase ia me esquecendo! Já estou indo. ... Era uma fria noite paulistana. Um homem, n***o, alto, com as roupas sujas, caminhava sem rumo pelas ruas de São Paulo. Tito não voltava para casa há dias, se recusava a voltar e mostrar a seus filhos a imagem de um homem fracassado, um homem que viria enfrentar um duro destino proporcionado pela desigualdade social. Parado em frente ao bar, Tito olhava para as moedas que estavam em suas mãos, as únicas que havia conseguido pedindo esmolas no sinal... Voltar para casa com o pão? Ou se resguardar de sua vergonha perante os seus filhos? Tito preferiu resguardar-se. Sentou-se na mesa do bar e comprou a aguardente mais forte que já havia pedido em toda a sua vida. Prostrado na mesa do bar, pegou o copo que estava sobre a mesa, abriu a garrafa, e tomou um gole. Uma dose que esquentava até o mais gelado dos corações. E então percebeu que a bebida tinha um gosto amargo, como a sua vida. Naquela noite Tito não voltou para casa. E naquela mesma noite, o seu filho mais novo, morria de inanição. Noite de inverno. Uma bela noite para ouvir os anjos cantarem, não? ... Marcelo chegou cedo ao escritório. Tinha que fazer algumas ligações. Enquanto fazia as ligações, olhava um site de carros importados e iates. Sim! Já sabia no que iria gostar com a nova indenização milionária que estava por vir. Iria comprar um novo iate para navegar pelas praias de Ilhabela. Ah!Como aquela vida era boa. - Pensava- Quem sabe não pudesse fugir com Agatha para bem longe dali, onde ninguém pudesse os encontrar? Deixou de lado o computador, e foi olhar a bela janela a sua frente, conseguia ver um pouco de seu reflexo pelo vidro. Era um homem bem sucedido, era bonito, cabelos eram lisos e negros que combinavam com seus olhos. O telefone toca. Marcelo atende. - Alo?... Sim é o Dr. Marcelo... Tito?... Ele trabalhava aqui, mas foi demitido... Sério? Ele foi encontrado morto?... Enforcado... Poxa, que pena!... Não, mas se eu souber de algo, darei informações... Marcelo desliga o telefone. Volta a olhar o site de carros luxuosos. Isso!Sim! Iria comprar um Maserati! ... A porta da copa se abre. Agatha avista Maria aos prantos. - O que aconteceu, Maria?- Agatha se desespera. - O Marcelo... Ele cortou a ajuda de custo. Era um beneficio a mais que eu recebia em dinheiro, ele dava para o tratamento médico do meu filho- Maria, segura o braço de Agatha, como um desespero- O que eu faço agora? O meu filho precisa desse dinheiro? E eu não posso fazer nada... O dinheiro era apenas uma liberalidade...- Maria prostrava-se sobre a mesa. Como a vida é injusta! Pensava Agatha. Uns com tanto, outros com nada. Qual o motivo de pessoas tão ruins se darem tão bem na vida? Onde estaria a balança da justiça divina? De fato era uma injustiça, mas nenhum questionamento naquele momento era capaz de fazer um mundo mais justo. Agatha precisava ter uma atitude... E já tinha em mente o que fazer... E o Olho sabia o que era. ...
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