O olho debaixo da pia ( Parte 1)
No centro de São Paulo, em um escritório de advocacia, há um olho debaixo da pia da cozinha, no qual tudo vê, mas ninguém o vê...
O escritório Matos & Ferreira Sociedade de advogados é um dos mais famosos escritórios de advocacia da cidade de São Paulo, com mais de 400 funcionários trabalhando em luxuoso prédio de 16 andares, dia a dia tudo se passa normalmente. Barulhos de arrastar de cadeiras, olhos sobre o computador, telefones tocando, processos, teclados, papéis, passos, assobios, e mais uma ‘enxurrada’ de papeis.
Entretanto, em meio à selva de papéis, há algo diferente no décimo sexto andar onde fica a copa, embaixo da pia da cozinha, tem um Olho que tudo vê...
...
Abre-se a porta da copa. O Olho se abre. Entra as cozinheiras Bete e Maria segurando duas bandejas nas mãos:
- Não aguento mais Maria! Ele jogou o café de novo em cima da mesa, disse que estava frio, e que aquilo não era a “cara’’ do escritório. E o meu “INPS’’ que está atrasado faz seis meses? Isso ele não diz nada... - Exclamava Bete.
Maria não responde, apenas acena com a cabeça, está com o olhar distante, com os pensamentos voltados para o filho de seis anos que está em casa doente, está com leucemia. Maria não tem dinheiro para comprar todos os seus medicamentos, e a bolsa que recebe do governo, não é o bastante para sustentar seus outros três filhos. Todos em idade escolar.
- E ainda, ele disse que ...
Bete é interrompida pelo barulho da porta que se abria novamente. Era Maria Luiza, esta havia acabado de ser promovida a gerente de Recursos Humanos. Estava mais arrumada do que habitualmente e seu olhar vibrante combinava com a tonalidade de seus cabelos loiros recém - pintados, a maquiagem reforçada parecia esconder o soluço da noite passada, o término de seu noivado. O motivo? Flagrou-o na cama com sua melhor amiga.
- Meninas quero apresentar a vocês a nova estagiária Agatha.
Maria Luiza vira-se sorridente para a jovem que entra vagarosamente na copa. O Olho volta-se diretamente para Agatha.
Era uma beleza excêntrica, exuberante, jovial. Agatha tinha dezenove anos e havia acabado de se mudar para o grande centro de São Paulo. Aquele rosto angelical, na verdade, ocultava um passado conturbado, que muitos não conseguiam enxergar... Mas o Olho enxergava.
Agatha Medeiros era órfã de pais, a mãe era secretária de um advogado na cidade de Jundiaí interior de São Paulo. Passava o dia inteiro trabalhando só voltava para a casa à noite, o pai é quem cuidava dela, estava desempregado. Família que parecia normal até então, menos pelo fato de que, o pai abusava da garota quando criança dos quatro aos oito anos, sem que a mãe soubesse.
Um dia Agatha decidiu contar toda a verdade a mãe, porém esta a proibiu de denunciá-lo as autoridades, dizia que não iria ficar bem para a “imagem da família’’ a figura de um pai a******r.
A mãe de Agatha se separou do marido. Mas o pesar e a dor de encobrir a monstruosidade do genitor a fez cair em depressão, o que mais tarde a levou ao suicídio quando Agatha tinha 15 anos. Exames toxicológicos posteriormente indicaram a presença de substância sedativa em alta quantidade no corpo, mas a polícia de Jundiaí não tinha dúvidas: era suicídio.
Não demorou mais de um mês, para que a família Medeiros presenciasse mais uma tragédia. Em uma manhã de sábado, o pai de Agatha foi assassinado dentro de casa, com nada mais nada menos do que 46 facadas, sim, haviam 46 perfurações em seu corpo. Apesar das extensas averiguações desempenhadas pela polícia não foi possível identificar o assassino, mas seja lá quem quer que fosse não estava muito contente...
Após a morte de seu pai, a menina continuou morando no interior com os tios por parte de mãe, porém por mais que a família fosse afetuosa com Agatha, estavam a passar dificuldades financeiras para sustentar a garota. Foi quando mudou-se para o centro de São Paulo na casa de sua outra tia chamada Flora.
Flora amava Agatha como se sua filha fosse. Era viúva, não tinha filhos, seu falecido marido era coronel e desde a sua morte abandonou a profissão de professora e decidiu se dedicar ao floriculturismo.
Por muito tempo Flora permaneceu sozinha, a vinda de Agatha foi mais que uma companhia ela a considerava como filha ,e só fazia uma exigência a menina: teria que estudar. Exigência esta que foi deixada como herança de seu falecido marido, o coronel sempre vivia a dizer que: “O trabalho e o estudo dignificam o homem’’.
Agatha resolveu se inscrever no programa Jovem Aprendiz do governo e foi selecionada para trabalhar no escritório de Matos & Ferreira advogados.
Não imaginava ser selecionada para o maior escritório de advocacia do país, desde que a sua falecida mãe começou a trabalhar como secretária, Agatha sonhava em fazer faculdade de direito e abrir o seu próprio escritório. Mas havia um problema... Agatha não tinha o dinheiro para pagar a faculdade e seu sonho parecia distante. Pedir dinheiro a sua Tia? Jamais! Por mais que ela tivesse condições de pagar a faculdade, a menina não queria dar o trabalho de ser mais uma despesa na vida de Flora.
Agatha tratou de convencê-la de que iria trabalhar por alguns meses e depois iria estudar, nada feito, Flora a matriculou em um curso de informática.
Por diversos meses esta iria ser a vida de Agatha, de segunda a sexta ela trabalhava e a noite fazia o curso de informática.
...
Agatha estava ansiosa, iria conhecer os seus chefes hoje, sim, chefes, no plural; eram dois.
O escritório Matos & Ferreira foi fundado por um casal de jovens advogados: Marcelo Matos e Beatriz Ferreira. Marcelo é um galã como todos diziam, conheceu Beatriz na Universidade de São Paulo, entre um churrasco e outro, “agarrou” Beatriz e não largou mais.
Os dois formaram–se juntos, casaram, e decidiram fazer uma sociedade. Estavam tão empolgados com o empreendimento, que investiram afundo na sociedade e acabaram por receber uma indenização milionária de uma empresa. Foi o sobressalto dos negócios. De uma pequena sala alugada passaram para um escritório em um prédio de dezesseis andares e mais de 400 funcionários.
Mas nem tudo são flores. Marcelo era um tanto fanfarrão e galanteador. Beatriz fechava os olhos, pois assim seu coração sentia menos.
Até que um dia, dia difícil para ela, Beatriz chegou na sua sala no escritório e presenciou uma cena lamentável...Não podia mais suportar... Seu marido e a secretária juntos. Apesar do alvoroço e o escândalo que fez, ela o perdoou e decidiu que jamais contrataria secretarias jovens e bonitas. Ela não esperava por Agatha...
Marcelo era a*******e, e parecia que quanto mais ganhava dinheiro mais a*******e ficava, maltratava todos os seus funcionários, muitos diziam que o seu egoísmo era proporcional a sua beleza. Todos os dias quando chegava ao escritório era difícil não reparar nos olhares das mulheres em sua direção. Beatriz sofria amargamente.
A porta do Porshe bate. Marcelo ajeita o seu óculos escuro. Mais um dia de trabalho. Beatriz havia ido mais cedo para a entrevista com Agatha, geralmente era ela quem fazia , preferia assim, achava que Marcelo não tinha a menor paciência e acabava espantando os funcionários.
Agatha tomava seu café na copa. De repente a porta se abre, é Maria Luiza ,que sorridente diz:
-Bom dia linda! Beatriz já está na sua espera.
-Bom dia Luiza, já estou indo estou só estou terminando o meu café...e..bem estou muito nervosa... È meu primeiro emprego,..o que devo dizer?
- Fique tranquila- disse Maria Luiza puxando ela da cadeira e a direcionando com as mãos sob seu ombro na direção da porta- Não se preocupe Beatriz é a melhor chefe que você vai encontrar.
O sino do elevador avisava que havia chegado no andar, a porta abria-se , Marcelo ajeitava o terno, havia duas funcionárias no elevador com ele, cochicharam alguma coisa uma para a outra e riram. Marcelo só escutou algo como “Pra casar’’.
...
Agatha está em frente à porta da presidência, levanta o braço na altura de seu rosto, toma coragem e bate, do outro lado ouve-se uma voz dizendo: Pode entrar está aberta!
Sentada, Beatriz está digitando,com os olhos fitos no computador e o óculos dando o ar de maturidade, a princípio não olha para o rosto de Agatha , apenas diz:
- Pode-se sentar.., Só mais uma coisa aqui- continua digitando- .. E, vamos lá- virando-se para Agatha.
Beatriz fica um pouco desconcertada ao olhar para a menina, era bonita demais, uma beleza que a incomodava... Se a incomodava, incomodava porque? Seria algum medo que teria? Um medo de nome Marcelo? Dúvidas que pairam sobre os pensamentos femininos, um medo natural de quem tem algo a perder. Enquanto Beatriz a entrevistava, seu espírito estava inquieto, queria abrir o jogo, voltar atrás, queria expulsá-la sem motivo... Poderia ? Não, isso lhe parecia muito e******o na sua mente, e além do mais, ela também era bonita,... Não fora por isso que Marcelo a escolheu?
Conforme Agatha falava, Beatriz ia ganhando confiança na menina, era uma conversa muito agradável, estava se afeiçoando a ela, estava decidida a contratá-la.
- Bom, pode começar hoje se quiser.
- Sério?- Agatha não se conteve.
- Claro. Além do mais estamos precisando de uma estagiária na presidência. Tem muito trabalho por aqui. Disse ela sorrindo.
- Poxa muito obrigada, era tudo que queria ouvir hoje.
- Venha vamos conhecer o Marcelo, meu marido, ele está na sala de reunião.
Abre-se a porta da sala de reunião. Marcelo está com mais oito advogados conversando sobre negócios , Beatriz entra, sem permitir que ele proteste algo, exclama:
- Bom dia senhores! Bom dia meu amor!- aproxima-se dele e beija-o. Quero lhes apresentar a nova estagiária da presidência...
- Não vê que estou em uma reunião importante Beatriz...- Exclama Marcelo
- È rápido.Vem Agatha pode entrar!
Ela entra , aproxima-se da mesa timidamente, seu olhar sem querer encontra-se com os olhares de Marcelo. Distraído, deixa a caneta que está em sua mão cair. Marcelo a olha, como o lobo olha um cordeiro quando está com fome.
Não sabe dizer propriamente o que lhe enfeitiçou, se foi o olhar azul do mar de Agatha em contraste com seus cabelos negros, ou se foi o sorriso perfeito com os lábios carnudos, eram os lábios mais lindos que havia visto.
- Ela é de Jundiaí. - diz Beatriz desconcertada pelo silencio de minutos que pairava na sala.
- Claro, claro... Bom... Era só isso?. Prazer em conhecer Agatha. Podemos terminar a reunião Bia? – Diz Marcelo
- O prazer foi meu.- Respondeu Agatha com firmeza e seriedade.
Marcelo sorri para ela.
O que passou pela imaginação de Marcelo a respeito de Àgatha não é algo que poderia ser relatado naquela reunião, embora costumasse relatar com seus amigos sobre encontros casuais e fetiches, agora era hora de negócios, e sem dúvidas, teria muito tempo para conhecer Agatha...
A porta da copa se abre, O Olho também.
Agatha entra apressada está no seu segundo dia de trabalho, abre a geladeira ,pega um suco, e senta na cadeira, o Olho a observa.
A porta da Copa abria-se novamente. E quem entra, é um homem n***o, alto, forte, está com uma vassoura na mão.Esboça um grande sorriso para Agatha.
- Bom dia!
- Bom dia seu Joaquim- responde ela devolvendo –lhe majestosamente o sorriso.
- Ah garota! Já te disse , pode me chamar pelo meu apelido,Tito.
- Me desculpe.Tito, certo? Você quer um pouco de suco?
Tito agradece, e gentilmente recusa, diz que tem muito trabalho a fazer, pergunta-lhe sobre o tempo e se já viu o sol lá fora, diz que vai fazer calor.
A menina já tinha se afeiçoado a ele, a sua simpatia era contagiante.
O Olho volta-se para Tito, sabia que aqueles calos em sua mão eram de anos de trabalho, tinha uma vida dura, morava em um bairro humilde na cidade de São Paulo. Não era fácil pegar dois ônibus e um metrô para o trabalho, e chegar em casa tarde da noite em um bairro tão perigoso. Mas não reclamava, quase ninguém sabia da sua batalha de todos os dias. Tinha onze filhos. Sim, sustentava sozinho onze crianças. A sua esposa o abandonou após o nascimento do décimo primeiro filho, nunca mais a encontrou.
Apesar dos apesares, ele vivia cantarolando, era muito dedicado ao trabalho, ganhava menos que um salário mínimo, não recebia sequer um ‘’bom dia’’ de Marcelo, mas não havia nenhum empecilho para que desse o mais largo e afetuoso sorriso.
...
Passaram-se um mês desde que Agatha começou a trabalhar no escritório, estava se adaptando ainda a rotina de serviços diários e intensos.
Agatha, em frente a pia da copa, lava com muita calma a louça que acabara de sujar. A água escorre em suas mãos, escorrem como sangue, repentinamente vem em sua mente: Quarenta e seis. Agatha solta na mesma hora o prato que está em sua mãos, parece que relembrou uma cena, uma cena que gostaria de esquecer.
A porta da copa se abre. È Marcelo.
- Não, não precisa limpar absolutamente nada- Esbraveja Marcelo ao ver Agatha que está encurvada no chão retirando os estilhaços do pouco que restou do prato.
- Desculpe-me, nem vi o senhor entrar, é que estava limpando e...
Marcelo sorri, e aproxima-se dela, está tão perto que ela consegue ouvir seu coração
- Não precisa se desculpar, eu pago funcionário justamente por isso, essa função não é sua, não quero ver suas mão calejadas e ainda por minha causa- diz Marcelo, erguendo as mãos sobre o rosto de Agatha para retirar os fios de cabelo que caíram em sua face.
Agatha com o toque, recua, parece assustada, e diz:
- Já entendi, se o senhor quiser não faço mais isso.
- Senhor? Senhor está no céu Agatha! Pode me chamar de Marcelo. Ah, sim! Mais uma coisa!- disse saindo em direção a porta- Gostaria de falar com você em particular, na minha sala após o expediente.
A menina apenas acena com a cabeça concordando. Está preocupada.
O Olho se fecha.
...
Na sala da presidência, Agatha observa cada detalhe do recanto de Marcelo. Canetas em cima da mesa, ordenadas por cor, ele é detalhista, organizado. Do lado direito está o computador e em torno dele alguns processos. A sala tem a predominância do estilo clássico, mas com pinceladas modernas. O teto branco faz o contraponto e o chão é com piso de porcelanato, revestido com carpete. As poltronas que ficam ao lado da mesa de Marcelo são de couro legítimo assim como a cadeira que ela está sentada. Em sua frente há uma enorme janela de vidro mostrando os arranha-céus da cidade de São Paulo, a cidade que nunca dorme.
Marcelo entra na sala apressado e ajeitando o terno.
- Desculpa a demora tive uma reunião no outro andar.
- Não se incomode, não faz muito tempo que cheguei- diz Agatha, tímida ,com as mãos entrelaçadas sobre seu colo.
Marcelo a observa por alguns segundos.
- Putz... Sério ...Você está cada vez mais linda.
Agatha, acanhada, não responde nada apenas sorri.
- Agatha eu estive conversando com Beatriz e ela me disse que você tinha interesse em fazer faculdade de direito, mas que por enquanto não tinha dinheiro para arcar com os custos da faculdade, procede?
- Sim... Na verdade... Eu pedi a Beatriz que guardasse segredo, pois era algo que eu tenho em mente, mas ainda não é nada concreto...
- A Bia guardando segredo? -Marcelo riu- Agatha, a Bia não consegue guardar segredo nem sob ameaça de morte. Mas vou lhe dizer, que bom que ela me deixou a par de sua situação, pois eu tenho uma proposta a te fazer.
- Diga.
- Estava pensando... - Marcelo se levanta e olha para a grande janela- Estava pensando na possibilidade de você ficar aqui após o expediente, por alguns meses, meia hora no máximo, te prometo, me ajudando com alguns processos... Você entende bem de informática não é?- Marcelo se vira para ela.
- Sim, minha tia me matriculou em um curso de informática, ainda estou no começo, mas já entendo bastante.
- Perfeito, necessito de alguém que entenda do assunto. E em troca de você fazer estas horas extras, que na verdade serão minutos, eu pagarei sua faculdade, o que acha?
- Pagar minha faculdade? Sèrio? Mas... Não sei... Acho que é um pouco precipitado, eu não tenho muita experiência...
- Agatha, experiência você vai adquirir aqui. E isso consequentemente vai ser bom para os seus estudos na faculdade, veja, você pode sair daqui e ir direto para a faculdade ou então se matricular em curso matutino.
- Eu preciso pensar Marcelo.
- Certo. Te darei o tempo que for, me avise quando tiver certeza , eu quero te ajudar no que for para o seu futuro- Marcelo se agacha ao lado de Agatha e coloca suas mãos sobre nas pernas dela – Ficarei honrado se aceitar- Ele se aproxima mais um pouco...
A porta se abre.
- Toc, toc. Estou entrando!!!
È Marli. Marli é a melhor amiga e braço direito de Beatriz. È também advogada, praticamente fundou o escritório junto com o casal. Ela está sempre muito alegre e simpática ,uma simpatia que às vezes enjoa. Marcelo a odeia, e o que mais queria, é que ela desaparecesse, sumisse, acha ela insuportável. Marli é uma pedra de tropeço para ele, conta tudo a Beatriz ,ademais, todos os “deslizes’’ de Marcelo foram rastreados por Marli. Mas de todos os defeitos dela, o pior deles, é outro, ela é cleptomaníaca. Ninguém ainda o sabe. Mas o Olho sim.
- Marli, por favor, o que faz aqui?
- Calma, querido. Eu esqueci a minha chave na minha sala, eu ouvi um barulho e resolvi ver o que está acontecendo...
- Já viu? Viu o que está acontecendo? Bom já esta pode se retirar, aqui não está acontecendo nada, apenas estamos acertando negócios de trabalho, você quer participar por acaso? Quer uma cadeira para você sentar?
Marcelo quando estava nervoso amedrontava até animal feroz, Marli e mais ninguém se atreviam a peitá-lo.
- Já estou de saída. – disse Marli .
...
- Alô tia ? Tudo bem? Não. Estou ligando para avisar que ... Aceitei a proposta do meu chefe. Isso,isso... Não Tia, não vou ficar até tarde da noite, é só por alguns meses, não vai passar de uma hora. Prometo. Eu fiquei de ver isso com ele. Não sei Tia, vou ganhar mais, mas não sei quanto ainda... Sim eu vou estudar, eu juro.
Agatha desliga o celular. Senta na cadeira que está na Copa.
O Olho a observa. O que Marcelo estava planejando? O que pretendia com aquilo? E por que ela havia aceitado? Eram perguntas que Agatha não ousava responder, tinha medo da resposta. Havia uma linha tênue entre a recusa e a aceitação da proposta, ao mesmo tempo em que não sabia por que aceitou, não sabia o porquê de ter que recusar.
Mas algo estava bem claro para ela. Marcelo a olhava com outros olhos, não como ele olhava para a Beatriz, isso lhe causava um certo medo, além do mais ,já tinha ouvido falar das “aventuras’’ de Marcelo pela empresa.
O fato é que Agatha estava confusa, nunca em sua vida havia se apaixonado. Os abusos sofridos na infância haviam tornado seu coração frio, duro, era incapaz de amar.Qualquer que fosse a intenção de Marcelo com ela, Agatha estava pronta.
Agatha se levanta da cadeira e pega a faca que está em cima da pia, olha, admira, como se remetesse a algo de seu passado, passa as mãos sobre ela, e de repente lhe vem em sua mente o d****o novamente, aquele mesmo d****o sombrio, aquela voz que não sabe de onde vem. Pega a faca, abre a torneira, a água escorre para limpar o sangue.
O Olho se fecha.
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Agatha e Clarice andavam apressadas pelos corredores do escritório, cada uma com um punhado de papel nas mãos, Clarice estava um pouco mais a frente de Agatha e a apressava:
- Vamos Agatha, o Marcelo já me ligou umas ‘’quinhentas vezes’’. Ai, Deus!... Acho que é hoje que ele me mata.
As duas entram no elevador em direção ao décimo sexto andar. Enquanto Clarice observa ansiosamente o painel do elevador em contagem progressiva até o décimo sexto, Agatha se admira no espelho ajeitando lentamente os cabelos para o lado.
- Está se arrumando para encontrar o seu chefe gatinho- diz Clarice rindo.
- Não fale assim Clarice, já lhe disse, foi a Bia que deu a ideia a ele, aposto! Ficou sentida pelo fato de eu não ter dinheiro para a faculdade e pediu que eu ficasse até mais tarde .È só isso nada mais.
- Aham ...Claro- disse Clarice sorrindo sarcasticamente.
...