Capítulo 1 – O Preço de um Recomeço
Já fazia dois anos que a minha rotina era exatamente a mesma.
Pensei nisso enquanto passava um pano em um copo de vidro, deixando-o brilhando antes de colocá-lo de volta na prateleira da cafeteria.
A máquina de café expresso fazia seu barulho característico, clientes conversavam em mesas espalhadas pelo salão e uma música baixa tocava ao fundo. O cheiro de café recém-passado misturado ao de pão saindo do forno costumava trazer conforto para muita gente.
Para mim, já não significava mais nada.
Todos os dias começavam do mesmo jeito.
Eu acordava no banco desconfortável do quarto do hospital, na esperança de abrir os olhos e encontrar minha mãe finalmente acordada.
Sempre imaginava como seria.
Ela abriria os olhos devagar, confusa, perguntaria por que eu estava chorando... e eu simplesmente a abraçaria.
Mas esse dia nunca chegava.
Depois de tomar um banho rápido no banheiro do hospital, eu vinha direto para a cafeteria.
Quando meu turno terminava, eu nem sequer passava em casa. Trocava de roupa no pequeno banheiro dos funcionários e seguia para meu segundo emprego, como garçonete em um dos restaurantes mais luxuosos da cidade.
Minha vida se resumia a isso.
Hospital.
Cafeteria.
Restaurante.
Hospital outra vez.
E, sinceramente...
Eu estava completamente exausta.
O restaurante pagava muito melhor do que a cafeteria. Qualquer pessoa diria que eu tinha sorte por conseguir trabalhar em um lugar tão sofisticado.
Mas elas não conheciam a minha realidade.
As contas do hospital aumentavam todos os meses.
Havia boletos atrasados espalhados pela gaveta da cozinha.
Os remédios eram caros.
Os exames eram caros.
Manter minha mãe viva era caro.
E, como se tudo isso ainda não fosse suficiente, eu havia recebido uma carta naquela semana.
A hipoteca da casa tinha vencido.
Se eu não conseguisse pagar, ela seria levada a leilão.
Quando minha mãe acordasse...
Se ela acordasse...
Eu nem teria mais um lugar para levá-la.
Só de pensar nisso, um nó se formava na minha garganta.
Respirei fundo antes que as lágrimas resolvessem aparecer.
Não.
Ali não.
Aprendi, durante aqueles dois anos, que os clientes não queriam conhecer os problemas da garçonete.
Eles queriam um sorriso.
E era exatamente isso que eu entregava.
Sorri para um casal que acabava de entrar e caminhei até eles com o cardápio nas mãos.
— Boa tarde. Sejam bem-vindos.
Às vezes eu me perguntava se ainda sabia sorrir de verdade ou se aquilo já tinha virado apenas parte do uniforme.
Mal sabia eu...
Que aquele seria o último dia da minha vida comum.
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O restaurante estava lotado naquela noite.
O brilho dos lustres refletia nas taças de cristal, garçons caminhavam de um lado para o outro e o som discreto de um piano deixava o ambiente ainda mais elegante.
Eu equilibrava três pratos sobre a bandeja quando ouvi um barulho estranho.
Primeiro veio uma tosse.
Depois outra.
Quando olhei na direção do som, vi uma senhora levar as duas mãos ao pescoço.
Seu rosto começava a ficar avermelhado.
Ela estava engasgada.
As pessoas ao redor levantaram assustadas.
Algumas gritavam por ajuda.
Outras apenas observavam, sem saber o que fazer.
Meu corpo reagiu antes mesmo que eu pudesse pensar.
Coloquei a bandeja sobre uma mesa vazia e corri até ela.
— Senhora, consegue respirar?
Ela apenas balançou a cabeça negativamente.
Os olhos estavam arregalados.
Sem perder tempo, posicionei-me atrás dela.
Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvi-lo nos próprios ouvidos.
Lembrei das aulas de primeiros socorros que havia feito na faculdade de Psicologia durante um projeto voluntário.
Era agora ou nunca.
Passei os braços ao redor da cintura dela e realizei a manobra de Heimlich.
Uma.
Duas.
Na terceira compressão, um pedaço de alimento foi expelido.
A mulher puxou o ar com força, respirando desesperadamente.
O restaurante inteiro ficou em silêncio por alguns segundos.
Então os aplausos começaram.
Um cliente.
Depois outro.
Em poucos instantes, praticamente todos estavam de pé, batendo palmas.
Meu rosto esquentou imediatamente.
Nunca gostei de chamar atenção.
— Está tudo bem? — perguntei, ainda preocupada.
Ela respirou fundo algumas vezes antes de segurar minhas mãos.
— Você... salvou minha vida.
Sorri sem jeito.
— Fico feliz que esteja bem.
Ela continuou me olhando por alguns segundos, como se estivesse tentando gravar meu rosto na memória.
— Qual é o seu nome?
Em vez de responder, apenas segurei meu crachá preso ao uniforme e o virei na direção dela.
— Bella.
Ela sorriu.
— Bella...
Repetiu meu nome devagar.
— Obrigada, Bella. Eu nunca vou esquecer o que você fez por mim.
Antes de ir embora, deixou uma gorjeta tão generosa que meus olhos chegaram a arregalar.
Aquele dinheiro pagaria alguns dias de internação da minha mãe.
Saí do restaurante naquela madrugada um pouco mais aliviada.
Pela primeira vez em muito tempo...
Achei que talvez a vida pudesse finalmente começar a melhorar.
Eu não fazia ideia de como estava enganada.
Dois dias depois, o sábado finalmente chegou.
Era a minha única folga da semana.
Depois de passar a manhã no hospital com a minha mãe, resolvi ir para casa. Fazia dias que eu não permanecia ali por mais de algumas horas.
Assim que destranquei a porta, fui recebida pelo silêncio.
Um silêncio pesado.
Daqueles que fazem uma casa parecer muito maior do que realmente é.
Fechei a porta atrás de mim e apoiei as costas nela por alguns segundos.
Aquele lugar ainda carregava tantas lembranças que, às vezes, respirar ali dentro parecia mais difícil do que no próprio hospital.
Passei pela sala devagar.
Tudo continuava exatamente como dois anos atrás.
O sofá.
As cortinas.
A estante.
Os porta-retratos.
Meus olhos pararam em uma fotografia.
Aproximei-me e a peguei nas mãos.
Era uma foto do meu último aniversário.
Meu pai sorria enquanto abraçava minha mãe, e eu estava entre os dois, segurando um pedaço enorme de bolo e fazendo careta para a câmera.
Lembro perfeitamente daquele dia.
Eles estavam indo me buscar na faculdade para comemorarmos juntos.
Nunca chegaram.
Um motorista bêbado atravessou o sinal vermelho.
Meu pai morreu na hora.
Minha mãe entrou em coma.
E, desde então, eu nunca mais consegui comemorar meu aniversário.
O sentimento de culpa ainda me acompanhava.
Se não fosse meu aniversário...
Eles não estariam naquela estrada.
Se eu tivesse escolhido outro restaurante...
Outro horário...
Outra coisa qualquer...
Talvez tudo fosse diferente.
Respirei fundo enquanto uma lágrima escorria pelo meu rosto.
Hoje fazia exatamente dois anos.
Dois anos sem meu pai.
Dois anos esperando minha mãe abrir os olhos.
Dois anos vivendo apenas para sobreviver.
— Feliz aniversário para mim... — murmurei com um sorriso amargo.
Limpei rapidamente as lágrimas quando ouvi a campainha tocar.
Olhei para o relógio.
Não esperava ninguém.
Caminhei até a porta e a abri.
Meu coração falhou uma batida.
Era a senhora que eu havia salvo no restaurante.
Ela vestia um elegante conjunto branco, carregava uma bolsa de grife e mantinha a mesma postura refinada da outra noite.
Sorriu ao me ver.
— Bom dia, Bella. Posso entrar?
Fiquei alguns segundos sem reação.
— Claro...
Afastei-me, dando espaço para que ela entrasse.
Ela caminhou lentamente pela sala, observando cada detalhe da casa.
Seus olhos passaram pelos móveis simples, pelas paredes antigas e pelos porta-retratos.
Por fim, virou-se para mim.
— Bonita casa.
Forcei um pequeno sorriso.
— Obrigada.
O silêncio entre nós durou alguns segundos.
Até que tomei coragem para perguntar:
— Como a senhora descobriu onde eu moro?
Ela me encarou com tranquilidade.
— Eu sei muito mais sobre você do que imagina, Bella.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Como assim?
Ela cruzou as mãos sobre a bolsa.
Então começou a falar.
— Bella Miller. Vinte e dois anos. Filha única. Perdeu o pai há exatamente dois anos, no dia do próprio aniversário.
Meu coração acelerou.
— Sua mãe continua em coma desde o acidente.
Ela continuou como se estivesse lendo um relatório.
— Trabalha pela manhã em uma cafeteria e à noite em um restaurante de luxo.
Engoli em seco.
— Cursou seis períodos de Psicologia, mas precisou trancar a faculdade por causa da rotina de trabalho e da falta de dinheiro.
Cada palavra fazia meu estômago se revirar.
— Está endividada com o hospital. A hipoteca desta casa venceu e ela será levada a leilão em breve caso nada seja feito.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Ela ainda não tinha terminado.
— Nunca teve um namorado...
Fez uma breve pausa.
— E é alérgica a amendoim.
Um silêncio tomou conta da sala.
Eu m*l conseguia respirar.
— Está certa? — perguntou ela calmamente.
Olhei para aquela mulher completamente assustada.
Como ela sabia tudo aquilo?
Quem era ela?
O que queria comigo?
— Quem é a senhora? — perguntei quase em um sussurro.
Ela sorriu discretamente.
— Não precisa ter medo, querida.
Deu mais um passo em minha direção.
— Eu vim aqui porque quero lhe fazer uma proposta.
Franzi a testa.
— Que proposta?
Ela respirou fundo antes de responder.
— Quero que se case com o meu filho.
Por alguns segundos, achei que tivesse ouvido errado.
— Desculpa... o quê?
— Case-se com ele.
Continuei encarando-a sem conseguir formular uma resposta.
Ela prosseguiu com a mesma calma.
— Em troca, eu quitarei todas as despesas do hospital.
Meu coração disparou.
— Sua mãe será transferida para o melhor hospital do país.
Prendi a respiração.
— Comprarei esta casa e a colocarei no seu nome.
Minhas pernas pareciam cada vez mais fracas.
— E você nunca mais precisará trabalhar em dois empregos apenas para sobreviver.
Balancei a cabeça, tentando organizar os pensamentos.
Aquilo era absurdo.
— Eu... eu nem conheço o seu filho.
Ela sorriu.
— Isso pode ser resolvido.
— Mas... por que eu?
Ela sustentou meu olhar.
— Porque você salvou a minha vida.
A resposta me deixou ainda mais confusa.
— E porque acredito que você é exatamente a mulher de quem ele precisa.
Passei as mãos pelos cabelos.
Aquilo parecia um sonho.
Ou um golpe muito elaborado.
— Desculpe... mas qual é o seu nome?
Ela estendeu a mão.
— Úrsula.
Apertei sua mão automaticamente.
— Então, Bella...
Ela caminhou até a porta.
— Você aceita ou devo procurar outra garota?
Meu coração começou a bater ainda mais rápido.
Olhei para a foto dos meus pais sobre a estante.
Depois pensei na minha mãe.
Nas máquinas do hospital.
Nas dívidas.
Na casa.
No leilão.
Tudo girava dentro da minha cabeça.
Antes que ela abrisse a porta, tomei coragem.
— Úrsula... espera.
Ela parou.
— Posso pensar?
Ela sorriu pela primeira vez desde que entrou na minha casa.
— Pode.
Abriu a porta.
— Mas apenas até o final do dia.
Então saiu, deixando para trás um silêncio ainda mais pesado do que aquele que encontrou ao entrar.
Meu futuro parecia ter mudado completamente.