capítulo 2

955 Words
Eu comecei a perceber que há memórias que não pertencem ao passado de forma simples. Elas permanecem. Não como lembrança, mas como presença. E a primeira vez que vi Uiva foi exatamente isso — uma presença que nunca soube ir embora de mim. Foi anos antes de qualquer promessa entre ela e meu irmão. Antes de qualquer nome ser dito com intenção. Antes de qualquer destino ser escrito por mãos que não eram as nossas. Eu ainda era, naquele tempo, um homem preso a um casamento que não era meu, tentando ser aquilo que a sociedade esperava e falhando em silêncio todos os dias. Eu me lembro de uma tarde clara, dessas em que a luz parece não tocar o chão com pressa. A casa dos de Valcourt estava cheia, como sempre, de vozes controladas e risos ensaiados, pessoas que se moviam como se cada gesto tivesse um propósito político. Eu não queria estar ali. Nunca quis. Mas eu estava. E foi então que ela entrou. Eu não sei se há uma maneira correta de descrever o momento em que alguém deixa de ser apenas alguém. Porque não houve som diferente, não houve anúncio, não houve qualquer coisa que justificasse o que aconteceu dentro de mim. Ela apenas entrou. E o ar pareceu perder a forma por um instante. Uiva era mais jovem. Ainda carregava aquela delicadeza que a sociedade tenta preservar nas moças antes que o mundo as ensine a esconder tudo o que sentem. Usava luvas claras, como todas usavam, mas nelas havia algo quase infantil, como se ainda não tivesse aprendido que até o toque precisa ser controlado. O cabelo preso com cuidado, com aquelas pequenas presilhas que as mães escolhem como se escolhessem o destino das filhas. E o vestido… o vestido parecia mais uma ideia de proteção do que uma roupa. Eu lembro de ter pensado, de forma absurda, que ela parecia alguém que ainda não tinha sido tocada pelo mundo. Não no sentido físico. Mas no sentido mais perigoso. O de ainda acreditar que o mundo podia ser gentil. Ela não olhou para mim. Não naquela primeira vez. Mas sorriu. Para alguém. Para algo. Talvez para a própria ingenuidade de estar ali sem saber o que aquilo significava. E eu, que deveria ter desviado o olhar como sempre fazia, permaneci. Observando. Como se já soubesse que aquilo era um erro. Um erro lento. Um erro que não se percebe no começo. --- Depois desse dia, passei a vê-la de longe. Não havia motivo legítimo para me aproximar. E mesmo que houvesse, eu não teria permitido. Eu ainda era um homem casado. Mesmo que vazio. Mesmo que ausente dentro da própria vida. Mas Uiva começou a existir nos espaços entre os eventos da casa, nos corredores onde ela passava sem pressa, nas conversas que ela não sabia que eu escutava de longe. E, com o tempo, algo em mim começou a se tornar perigoso. Porque eu não a via como os outros viam. Os outros viam uma jovem de família respeitável. Uma boa escolha. Uma presença adequada. Eu via outra coisa. Eu via silêncio. Eu via algo que ainda não tinha sido machucado. E isso, de alguma forma, me assustava mais do que qualquer outra coisa. --- Quando Julius começou a falar dela, tudo ficou pior. Ele falava como quem fala de algo que já possui por direito. Como se a ideia de conquista fosse apenas uma formalidade. Eu o escutava em silêncio, como sempre. Ele nunca teve paciência para detalhes. Nunca teve paciência para profundidade. E talvez por isso tenha sido escolhido. Porque o mundo não escolhe quem sente mais. Escolhe quem parece mais conveniente. “Ela é bonita, sim,” ele dizia uma vez ou outra, como se estivesse comentando o clima. “Mas isso é o suficiente. Não precisa de muito mais do que isso.” Eu lembro de ter sentido, pela primeira vez, algo que quase me fez perder a compostura. Não era ódio completo. Era uma espécie de pavor. O tipo de pavor que nasce quando você percebe que alguém está prestes a tocar algo que não sabe o valor que tem. --- Foi depois disso que ele começou a me pedir as cartas. Como se escrever fosse um favor pequeno. Como se palavras fossem objetos que pudessem ser emprestados sem consequência. Ele aparecia com aquele jeito leve, encostando na porta como se o mundo fosse simples. “Escreve pra mim.” E eu escrevia. Primeiro por hábito. Depois por culpa. Depois por algo que eu não gosto de nomear. Porque havia uma ironia c***l em tudo aquilo. Eu escrevia para que ele pudesse se aproximar dela. E, enquanto escrevia, eu era o único que realmente tentava entendê-la. Ele não tinha paciência para isso. Nunca teve. “Você pensa demais, Miguel,” ele dizia às vezes, rindo. “É só uma mulher. Não precisa transformar tudo em poesia.” E então ele me dizia o que queria. Como se fosse simples. Como se amar fosse uma instrução. E eu obedecia. Não porque concordava. Mas porque havia uma parte de mim que ainda acreditava que, se eu escrevesse bem o suficiente, talvez ela não percebesse o vazio por trás dele. Talvez ele aprendesse. Talvez não fosse tarde. Mas isso era ingenuidade minha. E eu sabia. --- Hoje, quando releio o que escrevi naquela época, percebo o erro com clareza. Não o erro de escrever. Mas o erro de acreditar que alguém como Julius poderia enxergar Uiva da forma como ela realmente deveria ser vista. E o erro maior ainda… foi começar a acreditar que eu tinha algum direito sobre isso. Porque naquele momento, eu ainda não sabia. Mas já era tarde. Eu já estava perdido nela.
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