Eu tentei ser um marido, mesmo quando tudo dentro daquela casa parecia negar essa possibilidade.
Não por falta de vontade.
Mas por falta de resposta.
Ela era uma mulher educada, sim, presente nas ocasiões certas, perfeita diante dos olhos dos outros. Mas havia uma distância entre nós que não era apenas emocional. Era como se cada tentativa minha de aproximação encontrasse uma parede invisível, firme, constante, imutável.
Eu não era um homem c***l.
Nunca fui.
Houve uma época em que ainda acreditava que paciência seria suficiente. Que o tempo poderia criar algo onde não havia nada no início. Eu tentava conversar, tentava estar presente, tentava pequenos gestos que, em minha mente, deveriam ser suficientes para construir qualquer tipo de vínculo.
Mas ela não me respondia como esposa responde ao marido.
Não havia calor.
Não havia entrega.
Havia apenas formalidade.
E, com o passar dos anos, até mesmo essa formalidade começou a se tornar rara.
Ela amava outro homem.
Isso nunca deixou de existir entre nós, mesmo sem ser dito diretamente. Era um nome que não precisava ser pronunciado para ocupar espaço dentro da nossa casa.
E eu, mesmo tendo aceitado aquele casamento por dever, nunca consegui me tornar algo que fosse mais do que uma presença tolerada.
Eu não a forcei.
Nunca.
Por mais que a lei da nossa sociedade permitisse que um marido exigisse mais do que deveria, eu não consegui me ver nesse tipo de homem.
Havia em mim algo que ainda acreditava que respeito não deveria ser opcional, mesmo dentro de um casamento arranjado.
E talvez tenha sido isso que me destruiu lentamente.
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Houve noites difíceis.
Noites em que o silêncio dentro da casa parecia mais alto do que qualquer conversa poderia ser.
Ela dormia virada para longe.
E eu ficava acordado, olhando para o teto, tentando entender em que momento minha vida tinha se transformado naquele tipo de solidão compartilhada.
Em alguns desses momentos, eu me levantava e saía do quarto.
Não para procurá-la.
Mas para fugir da própria sensação de não pertencer a lugar algum.
Eu me trancava no banheiro, não por vergonha, mas por necessidade de estar em um espaço onde ninguém pudesse me observar falhar.
E ali, sozinho, eu pensava nela.
Uiva.
Sempre Uiva.
Antes mesmo de ela saber meu nome como algo relevante, ela já existia como um pensamento constante que eu não conseguia controlar.
Era injusto.
Eu sabia disso.
Mas a mente não segue justiça.
Ela segue ausência.
E Uiva era exatamente isso dentro de mim: uma ausência que crescia a cada dia.
Depois, havia o retorno ao quarto.
O retorno à realidade.
O retorno ao silêncio que me esperava como se nada tivesse acontecido.
E, em algum momento, eu percebi que eu também estava preso.
Não apenas ao casamento que não funcionava.
Mas a uma vida inteira que não havia escolhido sentir o que sentia.
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Quando minha esposa morreu, não houve transformação dentro de mim como algumas pessoas esperariam.
Não houve libertação imediata.
Houve apenas continuidade do vazio, agora sem a obrigação de fingir que havia algo ali.
E, mesmo assim, eu ainda pensava em Uiva.
Isso foi o que mais me assustou.
Porque naquele ponto, ela já não era apenas uma lembrança de juventude.
Ela era uma presença que havia se fixado em mim de uma forma que nenhum tempo conseguiu apagar.
E então Julius começou a falar dela como se já fosse dele.
E o mundo, com sua crueldade silenciosa, começou a organizar tudo ao redor disso.
Como se eu nunca tivesse existido naquele espaço.
Como se o que eu sentia fosse apenas um detalhe sem importância dentro de uma estrutura maior.
E talvez fosse isso mesmo.
Mas dentro de mim, nada disso era pequeno.
Nada disso era leve.
E a cada carta que eu escrevia para ele entregar a ela…
eu me tornava, pouco a pouco, o homem que mais a conhecia sem nunca poder ser reconhecido por isso.