Hoje eu voltei a escrever.
Não porque eu queira ser lido.
Mas porque há coisas que, se eu não colocar no papel, apodrecem dentro de mim.
Uiva esteve na casa hoje.
E como sempre, ninguém percebeu o que realmente acontece quando ela entra em um ambiente.
Não é sobre beleza.
Não apenas isso.
É sobre o silêncio que ela carrega, como se o mundo inteiro diminuísse o volume para ouvi-la respirar.
Ela usava luvas claras — como sempre. O tecido delicado escondendo mãos que nunca tocaram nada sem permissão.
O cabelo preso em um arranjo perfeito, daqueles que fazem parecer que até o vento precisa pedir licença.
E eu… eu a observei como sempre fiz.
Sem direito.
Sem voz.
Sem nome dentro da história dela.
Julius estava lá também.
Meu irmão.
E ela sorriu para ele.
Como se aquele sorriso fosse escolhido.
Como se ele fosse o destino.
Eu deveria ter aprendido a parar de escrever sobre isso anos atrás.
Mas não aprendi.
Porque o que ninguém sabe é simples:
eu a vi primeiro.
antes de qualquer promessa.
antes de qualquer nome ser colocado entre eles.
antes dela aprender a olhar para ele… e nunca mais olhar para mim.
Eu já tive um casamento.
Não daqueles que nascem do amor ou da esperança — mas dos que nascem de acordos assinados antes mesmo de duas pessoas se conhecerem de verdade.
Ela era uma mulher bonita, sim. Educada, presente nas festas certas, com o sorriso certo para as pessoas certas.
Mas nunca foi minha.
E, de certa forma, eu também nunca fui dela.
Ela amava outro homem.
Isso nunca foi dito em voz alta dentro da nossa casa, mas sempre esteve entre nós, como um terceiro convidado sentado à mesa.
Eu aprendi cedo que certas leis não foram feitas para proteger sentimentos. Foram feitas para manter aparências.
E naquela época, não havia divórcio que apagasse o que já estava decidido.
Então eu vivi anos dentro de uma casa onde não havia ausência física, mas havia ausência de tudo o que importa.
Ela não me procurava. Não me esperava. Não me escolhia.
E eu… eu aprendi a não esperar também.
Quando ela morreu, nada em mim celebrou. Só houve um tipo estranho de silêncio — como se o mundo tivesse cumprido um ciclo que já estava atrasado há muito tempo.
Fiquei viúvo.
Sem filhos.
Sem continuidade.
Sem nada que provasse que eu realmente havia pertencido a alguma coisa.
Foi nesse estado que tudo começou a mudar.
As leis da nossa cidade são antigas demais para serem gentis.
Uma jovem não escolhe livremente. Ela é conduzida. Direcionada. Entregue ao nome que melhor preserva a família.
E o pai de Uiva escolheu meu irmão.
Julius.
Porque eu já tinha sido marcado pela viuvez.
Porque, aos olhos dele, havia risco em mim.
Um homem que não teve filhos, que perdeu a esposa, que carrega silêncio demais… não parece uma escolha segura.
Eu não o culpo por isso.
Ele só não sabia o que estava entregando.
Foi assim que Julius passou a ser o homem autorizado a cortejá-la.
E, com isso, algo em mim começou a perder forma.
Porque ele não tinha interesse no que aquilo significava.
Para ele, era simples.
Uma mulher bonita.
Uma aliança conveniente.
Um futuro que já vinha pronto, sem esforço.
E foi nesse ponto que ele começou a me pedir cartas.
“Escreve pra mim.”
Ele dizia isso encostado na minha porta como se estivesse pedindo algo banal.
“Você sabe fazer isso melhor.”
Eu deveria ter recusado.
Eu deveria ter colocado distância entre mim e aquilo.
Mas havia algo pior do que obedecer Julius.
Era imaginar Uiva recebendo palavras vazias.
Então eu escrevia.
Sentado sozinho, com a pena entre os dedos, eu tentava colocar em palavras sentimentos que não eram dele — e que também não podiam ser meus.
Até que um dia ele riu.
Riu de verdade.
Como se aquilo fosse simples demais para ser levado a sério.
E disse, sem perceber o peso do próprio veneno:
“Mano, escreve uma carta pra ela. Preciso entregar hoje. Mas não tenho paciência pra isso.”
Eu olhei para ele.
E perguntei, tentando ainda acreditar que havia algo ali:
“O que você quer que ela sinta quando ler?”
Ele deu de ombros.
Como se a resposta fosse óbvia demais para existir.
“Eu olho pra ela e vejo nada demais. Só uma mulher bonita… que vai ser minha muito em breve. É isso.”
Eu lembro do som exato do silêncio que veio depois disso.
Porque não foi apenas raiva.
Foi compreensão.
Uiva não estava sendo amada.
Ela estava sendo escolhida.
Como um objeto que já tinha destino definido antes mesmo de ser tocado.
E o pior de tudo…
Ela ainda não sabia disso.
Foi naquela noite que eu escrevi a primeira carta que não era só uma carta.
E também foi a primeira vez que percebi que, se eu continuasse assim…
eu não estaria apenas observando a vida dela acontecer.
Eu estaria ajudando a entregá-la para alguém que nunca seria capaz de vê-la de verdade.