Luna
Eu sempre fui cheia de vontades. Um pouco mimada, talvez. Papai dizia que estava tudo bem querer algumas coisas, mas eu sabia que ele tentava compensar o tempo perdido. Dezessete anos sem poder ser pai, me deixando sem uma presença paterna por dezessete anos, e isso tudo por culpa da minha mãe. Ela morreu sabendo que eu iria procurá-lo um dia. E eu procurei. Mesmo com tudo o que aconteceu, aqui estou. No meio dessa realidade nova, e totalmente diferente. As vezes sinto até estar sonhando, um sonho estranho distorcido. Mas era a pura realidade, para m*l, para bem.
— Tá distante, gata!
A voz de Daniel me puxou de volta pro presente. Ele me olhava com aquele sorrisinho dele, o mesmo que ele usava quando sabia exatamente o que eu estava pensando.
— Aff, só pensando… — respondi, mordendo a tampinha da caneta.
— Deixa eu ver… começa com “Hen” e termina com “rique”?
Revirei os olhos e dei um tapa leve no braço dele. Daniel riu, e eu também. Ele sabia. Claro que sabia. Desde que cheguei, não consigo parar de pensar nele. No jeito que o Henrique fala, na voz firme, no olhar que parece atravessar todo mundo. Ele é… perigoso. E eu odeio admitir, mas isso só deixa tudo mais interessante.
Pode parecer errado? Sim... Mas não é como se "se apaixonar pelo melhor amigo do meu pai" fosse algo do que estava planejando, longe disso! Mas rolou...
— Eu sabia! — Daniel disse, jogando o cabelo pra trás com pose de diva. — Todo mundo tem uma quedinha por ele. As clientes da minha mãe vivem falando, “ai, o Henrique isso, o Henrique aquilo”. Eu não caio nessa porque, né, sou uma poc com bom gosto e amor próprio!
— Amor próprio nada! Eu vejo o jeitinho que olha para o Marcelo, Dani! E olha que o Marcelo tem uma cara de quem não presta, tenho certeza que é hétero — provoquei.
— Excessões! Ok? Excessões! Marcelo é mais novo, e é lindo — ele riu, e eu só conseguia pensar na idade, o porquê julgam tanto por ele ser mais velho... — Mas sério, amiga... Você ainda tem dezessete anos, ter crush em homens muito mais velhos pode causar problemas a ele.
Suspirei, olhando pra frente, fingindo que copiava algo do quadro.
— Eu vou fazer dezoito daqui dois meses, não acho que seja um problemão tão grande ele se apaixonar por mim também...
—Primeiro ponto: ele é mais velho e perante a lei isso seria crime! Mesmo você querendo. Segundo ponto: Ele é o melhor amigo do seu pai! Você vai arranhar problemas gigantescos... Seu pai pode simplesmente m.atar o Henrique!
—Tenho certeza que meu pai entenderia!
—Eu tenho certeza que não!
Daniel arregalou os olhos.
—Você é louquinha —Dani meneou a cabeça em negação, e eu entendia cem por cento o ponto dele, só não queria dar razão.
— Cala a boca — disse, rindo. — E olha, coloquei uma vagabunda pra correr no último baile da quadra, só porque ela ficou se esfregando nele. Quem ela pensa que é pra chegar perto do que é meu?
—Colocou pra correr?! Como assim?! — Se inclinou em minha direção. Safado! Adora uma fofoca.
—Eu vi ela se esgueirando, e eu cheguei mansinha e inocente dizendo que queria tomar açaí. Ele parou de dar atenção a ela pra fazer a minha vontade.
— Mentira! Me conta tudo, tudinho!
Mas a professora bateu a régua na mesa, mandando a gente calar a boca. Daniel fez biquinho e cochichou:
— Maldita matemática, sempre atrapalhando as fofocas boas.
*
O sol já começava a descer quando vi o carro preto estacionado em frente ao portão. Brilhava como se tivesse saído de um comercial, e dentro dele, Henrique. Camisa social clara, mangas dobradas, o antebraço marcado por veias que eu fingia não olhar — e nunca conseguia. Papai às vezes vem me buscar, mas quando é o Henrique... o dia muda de cor.
As meninas da escola sempre olham. Algumas disfarçam, outras nem tentam. Fingem que tão procurando o Uber, mas os olhos... os olhos tão cravados nele. Me irrita. Me dá vontade de gritar “ele é meu”, mesmo sabendo que não é. Ainda.
Aperto a mochila contra o peito e caminho com o sorriso mais sonsa que consigo fingir. Abro a porta do carro, jogo o corpo lá dentro e, antes que ele diga qualquer coisa, me inclino e beijo sua bochecha. Um beijo rápido, mas cheio de intenção. Ele sorri — aquele sorriso contido, que não sei se chega aos olhos por causa dos óculos escuros. Uma pena. Aqueles olhos me desarmam.
— Como foi a prova? — ele pergunta, ligando o carro. O som da seta faz um “tic-tic-tic” que me dá nos nervos, mas o timbre dele cobre tudo.
— Fui bem... acho.
— Muito bem, espero. — Ele fala firme, os dedos longos se ajustando no volante. — Estou planejando um presente de formatura. Se passar de ano, claro.
Observo o jeito como ele dirige, concentrado, quase impassível. As mãos no volante, o maxilar marcado, o músculo do antebraço se movendo quando ele troca a marcha. É ridículo o quanto coisas tão simples conseguem me deixar... quente...
— Presente, é? — pergunto, com um meio sorriso. — O que é?
— Surpresa. — Ele me olha rápido, com um canto de riso nos lábios. — Vai ter que se formar pra saber.
Aquele olhar me atravessa. Curto, mas suficiente pra eu esquecer de respirar por um segundo.
— E falando nisso, seu aniversário tá chegando. Seu pai não fala de outra coisa.
— Já disse que um churrasquinho na laje tá ótimo — respondo, me jogando contra o banco e apoiando as pernas no painel. Eu sei que ele odeia. Ele nunca fala, mas o jeito que os dedos dele apertam o volante entrega tudo.
— Vou conversar com ele. Podemos convidar seus amiguinhos.
A forma que ele fala amiguinhos me mata de vergonha e vontade de rir ao mesmo tempo.
— Amiguinhos? Eu tenho dezessete, não sete. — Reviro os olhos.
Ele dá uma risadinha baixa, gostosa, daquelas que faz o canto da boca levantar devagar.
— Esqueço que você não é mais uma criancinha.
— Pois é... esquece mesmo. — Finjo desdém, mas por dentro queria que ele dissesse outra coisa. Queria ouvir que ele me via. De verdade.
— Quantas pessoas você quer chamar? — ele pergunta, ajeitando os óculos.
— Sei lá... uns seis. Um churrasco simples, pagode ao vivo, e tá ótimo.
Não digo que o que eu queria mesmo era um jantar à luz de velas com ele. Porque isso é o tipo de coisa que só vive dentro da minha cabeça.
— Acho que podemos fazer isso — ele responde, e de algum modo, o jeito que ele diz podemos me deixa... Feliz...
Entramos na comunidade. Ele abaixa os vidros, como sempre. Parte respeito, parte cuidado. O vento entra com cheiro de rua, fumaça e churrasquinho de esquina.
— Você vai na festa? — pergunto, tentando soar casual.
Ele dá de ombros, os olhos ainda na frente.
— Vou me esforçar, mas não prometo.
— Ah, qual é, Henrique?! Vai ser divertido.
Ele tira os óculos e me encara. O olhar dele é outra coisa. Firme, adulto, perigoso.
— Desde quando parou de me chamar de tio?
Dou de ombros, encostando a cabeça no vidro
— Desde que deixei de ser criança...
Ele respira fundo. O carro fica em silêncio por alguns segundos, só o som do motor e da minha respiração acelerada. Então ele ri, de leve
— Pra seu pai, você sempre vai ser
Mas não pra você, pensei
E tudo que eu conseguia era rezar — baixinho, quase um sussurro — pra que Henrique não me enxergasse assim também.