O que é?

1327 Words
Luna Eu sempre fui cheia de vontades. Um pouco mimada, talvez. Papai dizia que estava tudo bem querer algumas coisas, mas eu sabia que ele tentava compensar o tempo perdido. Dezessete anos sem poder ser pai, me deixando sem uma presença paterna por dezessete anos, e isso tudo por culpa da minha mãe. Ela morreu sabendo que eu iria procurá-lo um dia. E eu procurei. Mesmo com tudo o que aconteceu, aqui estou. No meio dessa realidade nova, e totalmente diferente. As vezes sinto até estar sonhando, um sonho estranho distorcido. Mas era a pura realidade, para m*l, para bem. — Tá distante, gata! A voz de Daniel me puxou de volta pro presente. Ele me olhava com aquele sorrisinho dele, o mesmo que ele usava quando sabia exatamente o que eu estava pensando. — Aff, só pensando… — respondi, mordendo a tampinha da caneta. — Deixa eu ver… começa com “Hen” e termina com “rique”? Revirei os olhos e dei um tapa leve no braço dele. Daniel riu, e eu também. Ele sabia. Claro que sabia. Desde que cheguei, não consigo parar de pensar nele. No jeito que o Henrique fala, na voz firme, no olhar que parece atravessar todo mundo. Ele é… perigoso. E eu odeio admitir, mas isso só deixa tudo mais interessante. Pode parecer errado? Sim... Mas não é como se "se apaixonar pelo melhor amigo do meu pai" fosse algo do que estava planejando, longe disso! Mas rolou... — Eu sabia! — Daniel disse, jogando o cabelo pra trás com pose de diva. — Todo mundo tem uma quedinha por ele. As clientes da minha mãe vivem falando, “ai, o Henrique isso, o Henrique aquilo”. Eu não caio nessa porque, né, sou uma poc com bom gosto e amor próprio! — Amor próprio nada! Eu vejo o jeitinho que olha para o Marcelo, Dani! E olha que o Marcelo tem uma cara de quem não presta, tenho certeza que é hétero — provoquei. — Excessões! Ok? Excessões! Marcelo é mais novo, e é lindo — ele riu, e eu só conseguia pensar na idade, o porquê julgam tanto por ele ser mais velho... — Mas sério, amiga... Você ainda tem dezessete anos, ter crush em homens muito mais velhos pode causar problemas a ele. Suspirei, olhando pra frente, fingindo que copiava algo do quadro. — Eu vou fazer dezoito daqui dois meses, não acho que seja um problemão tão grande ele se apaixonar por mim também... —Primeiro ponto: ele é mais velho e perante a lei isso seria crime! Mesmo você querendo. Segundo ponto: Ele é o melhor amigo do seu pai! Você vai arranhar problemas gigantescos... Seu pai pode simplesmente m.atar o Henrique! —Tenho certeza que meu pai entenderia! —Eu tenho certeza que não! Daniel arregalou os olhos. —Você é louquinha —Dani meneou a cabeça em negação, e eu entendia cem por cento o ponto dele, só não queria dar razão. — Cala a boca — disse, rindo. — E olha, coloquei uma vagabunda pra correr no último baile da quadra, só porque ela ficou se esfregando nele. Quem ela pensa que é pra chegar perto do que é meu? —Colocou pra correr?! Como assim?! — Se inclinou em minha direção. Safado! Adora uma fofoca. —Eu vi ela se esgueirando, e eu cheguei mansinha e inocente dizendo que queria tomar açaí. Ele parou de dar atenção a ela pra fazer a minha vontade. — Mentira! Me conta tudo, tudinho! Mas a professora bateu a régua na mesa, mandando a gente calar a boca. Daniel fez biquinho e cochichou: — Maldita matemática, sempre atrapalhando as fofocas boas. * O sol já começava a descer quando vi o carro preto estacionado em frente ao portão. Brilhava como se tivesse saído de um comercial, e dentro dele, Henrique. Camisa social clara, mangas dobradas, o antebraço marcado por veias que eu fingia não olhar — e nunca conseguia. Papai às vezes vem me buscar, mas quando é o Henrique... o dia muda de cor. As meninas da escola sempre olham. Algumas disfarçam, outras nem tentam. Fingem que tão procurando o Uber, mas os olhos... os olhos tão cravados nele. Me irrita. Me dá vontade de gritar “ele é meu”, mesmo sabendo que não é. Ainda. Aperto a mochila contra o peito e caminho com o sorriso mais sonsa que consigo fingir. Abro a porta do carro, jogo o corpo lá dentro e, antes que ele diga qualquer coisa, me inclino e beijo sua bochecha. Um beijo rápido, mas cheio de intenção. Ele sorri — aquele sorriso contido, que não sei se chega aos olhos por causa dos óculos escuros. Uma pena. Aqueles olhos me desarmam. — Como foi a prova? — ele pergunta, ligando o carro. O som da seta faz um “tic-tic-tic” que me dá nos nervos, mas o timbre dele cobre tudo. — Fui bem... acho. — Muito bem, espero. — Ele fala firme, os dedos longos se ajustando no volante. — Estou planejando um presente de formatura. Se passar de ano, claro. Observo o jeito como ele dirige, concentrado, quase impassível. As mãos no volante, o maxilar marcado, o músculo do antebraço se movendo quando ele troca a marcha. É ridículo o quanto coisas tão simples conseguem me deixar... quente... — Presente, é? — pergunto, com um meio sorriso. — O que é? — Surpresa. — Ele me olha rápido, com um canto de riso nos lábios. — Vai ter que se formar pra saber. Aquele olhar me atravessa. Curto, mas suficiente pra eu esquecer de respirar por um segundo. — E falando nisso, seu aniversário tá chegando. Seu pai não fala de outra coisa. — Já disse que um churrasquinho na laje tá ótimo — respondo, me jogando contra o banco e apoiando as pernas no painel. Eu sei que ele odeia. Ele nunca fala, mas o jeito que os dedos dele apertam o volante entrega tudo. — Vou conversar com ele. Podemos convidar seus amiguinhos. A forma que ele fala amiguinhos me mata de vergonha e vontade de rir ao mesmo tempo. — Amiguinhos? Eu tenho dezessete, não sete. — Reviro os olhos. Ele dá uma risadinha baixa, gostosa, daquelas que faz o canto da boca levantar devagar. — Esqueço que você não é mais uma criancinha. — Pois é... esquece mesmo. — Finjo desdém, mas por dentro queria que ele dissesse outra coisa. Queria ouvir que ele me via. De verdade. — Quantas pessoas você quer chamar? — ele pergunta, ajeitando os óculos. — Sei lá... uns seis. Um churrasco simples, pagode ao vivo, e tá ótimo. Não digo que o que eu queria mesmo era um jantar à luz de velas com ele. Porque isso é o tipo de coisa que só vive dentro da minha cabeça. — Acho que podemos fazer isso — ele responde, e de algum modo, o jeito que ele diz podemos me deixa... Feliz... Entramos na comunidade. Ele abaixa os vidros, como sempre. Parte respeito, parte cuidado. O vento entra com cheiro de rua, fumaça e churrasquinho de esquina. — Você vai na festa? — pergunto, tentando soar casual. Ele dá de ombros, os olhos ainda na frente. — Vou me esforçar, mas não prometo. — Ah, qual é, Henrique?! Vai ser divertido. Ele tira os óculos e me encara. O olhar dele é outra coisa. Firme, adulto, perigoso. — Desde quando parou de me chamar de tio? Dou de ombros, encostando a cabeça no vidro — Desde que deixei de ser criança... Ele respira fundo. O carro fica em silêncio por alguns segundos, só o som do motor e da minha respiração acelerada. Então ele ri, de leve — Pra seu pai, você sempre vai ser Mas não pra você, pensei E tudo que eu conseguia era rezar — baixinho, quase um sussurro — pra que Henrique não me enxergasse assim também.
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