Nem Te Contoooooo

1686 Words
Luna O sol de meio-dia batia pesado, derretendo até as calçadas da comunidade. Do alto da janela, eu via o movimento lá embaixo, gente vendendo pastel, moto subindo, som estourando funk em algum beco. E no meio de tudo, o carro preto de Henrique estacionado na frente da casa do meu pai. O coração deu aquele pulo i****a, e o calor aumentou enquanto me abanava com as mãos. Ele tava lá embaixo, conversando com meu pai. Camisa cinza justa, pulseira de couro no pulso, cabelo recém cortado, todo lindo. O tipo de visão que devia ser proibida, beleza que não deveria estar zanzando por aí sem uma dona. — Gata, se você olhar mais dez segundos, vai começar a babar na janela. — Daniel se jogou na cama com o celular na mão, mastigando um chiclete. — E aí, vai descer pra fazer cena ou vai ficar aí sonhando com o “tio gostoso”? Joguei uma almofada nele. — Cala a boca, bicha. — Ai, que agressiva. Olha que eu te processo por homofo.bia. — Ele se ajeitou, rindo. — Marcelo postou foto nova, sabia? — mostrou o celular, exibindo o sorriso do garoto. — E antes que pergunte, sim, eu dei like. Estou mesmo querendo chamar a atenção dele. — Vai lá falar com ele, ou coloca frutas na cabeça e sai sambando de cropped no pátio da escola. Simples assim! — Mas está ácida, hein! O que é? TPM chegou mais cedo? Revirei os olhos e voltei pra janela. Henrique tinha tirado os óculos e agora falava algo com meu pai, sério, o maxilar travado. Tinha tensão no ar. Sempre tinha, quando os dois estavam juntos, eu preferia não fazer muitas perguntas, meu pai dizia que negócios do morro não eram coisas para mim. Papai podia ser o chefe do morro, mas com Henrique... Comigo... as coisas eram diferentes. O tom de fala era diferente. — Eu ainda estou bobo que Henrique veio. Não lembro dele aqui em churrasco algum. — Daniel comentou, levantando pra espiar comigo. —Eu também estou surpresa. Geralmente ele não vem quando convido alguém da escola. —Desumilde, ele! Olha só... Seu pai é um gatinho também, sabia? Meio magrelo... Mas até que tem um charme. Sorri com desdém. — Cala a boca, antes que eu te jogue pela janela! O barulho do portão abrindo me fez olhar mais uma vez para baixo. Henrique olhou pra cima e encontrou meu olhar. Só um segundo, mas pareceu uma eternidade. Sorriu de leve, aquele sorriso que me desmontava, e acenou com educação. Acenei de volta. — EITA. Ele te viu. — Daniel sussurrou. — Eu vi o sorrisinho. Gata,Vocês estão quase flertando... Desviei rápido, fingindo procurar algo no quarto. — Não estamos quase flertando, Daniel. — Claro que não. Tá só trocando olhares cheios de tensão com o melhor amigo do seu pai. Bufei, mas ri. Era inútil tentar disfarçar. Daniel sempre via tudo. Quer dizer, meio que tudo! Henrique não estava flertando com uma adolescente de dezessete anos. Ele ainda me olha como se eu fosse a princesinha do papai e do titio. —Eu quero, de verdade, que o momento de flertar chegue. Eu vou colocar ele maluco... Vou deixar ele doidinho atrás de mim. —E como pretende fazer isso? Se ele te enxerga como uma sobrinha? Dancei um bico nos meus lábios. Mas tinha lá as minhas ideias. —Espere e verás, Dani... Espere e verás! Lá embaixo, o portao fechou fazendo um rangido alto e irritante. Meu estômago roncou, só pelos motivos de saber que já já a carne estaria assando. — Luna! Vem cá! Suspirei. Odiava quando meu pai me gritava. Odiava gritos na verdade. — Ai, meu Deus, lá vem... — Vai lá, princesa do morro. — Daniel jogou o travesseiro de volta. — E tenta não desmaiar se o Henrique falar com você. —Não posso prometer nada! Desci os degraus fingindo calma. O sol batia direto no rosto, me chegando um pouco, me fazendo tomar mais cuidado para não sair rolando da escada. Henrique encostado no carro, braços cruzados, e meu pai ao lado, falando baixo. — Tá aí, ó. — Augusto apontou pra mim. — A futura formanda. Ah, verdade... Fui bem na prova, e desde então, não esquecia o fato de que ganharia um presente do meu tio favorito... E que titio... — Já ouvi dizer que foi bem na prova — Henrique disse, a voz calma, mas o olhar... o olhar dizia que estava orgulhoso. Meu estômago gelou. — Fui sim — respondi, tentando parecer natural. Augusto se virou pro Henrique. — Vai com ela lá embaixo pegar a caixa de cerveja no bar. Já está pago. Henrique assentiu, e eu quase quis agradecer aos céus por meu pai ter senso! Caminhamos lado a lado até a rua, descendo a ladeira indo em direção ao bar. — Não sabia que você vinha hoje — falei. — Nem eu. Seu pai ligou há uma hora. Apesar que, não tinha como não vir comemorar o fato de que a filha do meu melhor amigo, vai se formar. — Então veio correndo? — Ele é meu chefe. — Ele olhou de lado, um canto do lábio levantando. Sabia que estava desdenhando — Não dá pra negar um convite desses, Luna! Eu estou feliz, de verdade. —Não é como se fosse algo incrível, é só o ensino médio —dei de ombros — vou ter sorte se passar em algum vestibular, o que me preocupa é realmente passar para alguma faculdade boa. —E o que quer cursar? Suspirei olhando o céu lá em cima. Estava tão azul e sem nuvens. —Eu diria direito... Mas acho que, tendo o pai que tenho, não seria uma boa ideia. Henrique ri. —Acho que psicologia... Eu sou comunicativa, e gosto de ouvir os problemas das pessoas. Acho que vou me sair muito bem. —Eu tenho certeza que vai. Senti minhas mãos comicharem. Gostava quando ele era positivo em algo que fosse sobre mim. De qualquer forma, saber que orgulhava a ele era bom. Ele entrou no bar, não demorou muito pra voltar com uma caixa de cerveja, e um pack pequeno. Peguei o pack sem nem pedir permissão, queria ser útil. — Está pesado? Não me importo de carregar — ele perguntou. — Tô acostumada a carregar peso. — Falei dando um pequeno sorriso. Ele arqueou uma sobrancelha, disfarçando um riso. — Imagino. Silêncio. Um silêncio cheio de coisa não dita. Subimos a ladeira e antes que pudéssemos entrar, Daniel apareceu na sacada do meu quarto. — LUUUNA! Marcelo curtiu minha foto! Henrique olhou pra cima, depois pra mim. — Esse é o Daniel? — O próprio — respondi sorrindo e abrindo o portão. — Boa companhia — disse, sorrindo. E nesse sorriso, juro, dava pra morar. —É doidinho, mas é meu melhor amigo... —Só veio ele? Quando Henrique passa pelo portão, eu o fecho, ele pega de mim o pack menor de cerveja. —É só um churrasquinho por eu ter passado nas matérias — dou de ombros —deixei para chamar os outros no meu aniversário. Já sabe se vai vir? —Estou considerando, não sou fã de festas. —Ja disse isso, vou entender se não vier. Dou um sorriso de lábios fechados, eu ficaria triste de qualquer forma. Então me viro e começo a subir as escadas externas para a área de lazer na laje. Papai estava acendendo a churrasqueira. Daniel estava ajudando a colocar as bebidas no freezer, e quando Henrique pisou ali com as caixas, Dani e Augusto foram logo ajudar. Fiquei feliz de ver meu amigo se dando bem com meu pai, desse ele não tinha ciúmes, e estava nítido os motivos, não é? Suspirei e sem dizer nada desci as escadas, agora na parte interna. Fui para a cozinha preparar algumas coisas para acompanhar o churrasco. Arroz, farofa, vinagrete... Pão de alho. —Nem avisou que desceria. Olhei de soslaio para Daniel enquanto colocava os ingredientes em cima do balcão. —Me ajuda picando a cebola? Preciso de bastante, vai no vinagrete, no arroz e na farofa. —Ajudo! — Dani abriu a gaveta já pegando a faca que ia usar — está meio desanimada, Henrique disse algo que te deixou assim, amiga? —Ah, não era pra eu estar tão abalada... Mas talvez ele não venha no meu aniversário — suspiro dando de ombros —eu não deveria ligar tanto, não é? —Oh, amiga... Dani se achega e me abraça. Todo carinhoso. —Está tudo bem, tipo... É uma comemoração i****a, sabe? Eu não o culpo de querer distância de uma festa assim. Vai ter adolescentes idiotas, falando coisas bestas... E é só... É só... Uma comemoração i****a. Dani me apertou um pouco mais, e como eu queria nem precisar ir pra laje comer com todos, olhar na cara do meu pai e deixar ele saber que estou chateada. —Não liga, não... Eu pelo menos vou estar sempre com você, seja pra qualquer situação. Suspirei querendo dar uns tapas nele. Não gostava de ser frágil perto das pessoas. Mamãe dizia: Seja forte, nunca deixe ninguém te ver para baixo, ou vão se aproveitar de você! —Daqui a pouco você vai estar se pegando com o Marcelo, vai esquecer de mim, vai ter outras prioridades. Dani deu um tapinha leve na minha cabeça. —Você é minha melhor amiga! Você é uma prioridade! Que se dane os machos gostosos. Recebi um beijinho na testa. Me senti muito sortuda por pelo menos, ter uma amizade sincera, e que eu torcia para que durasse. —Ele vai na sua festa, e se não for... p*u no cu dele! Com todo o respeito! Mas não vou deixar você se privar de se divertir porque seu querido titio não veio festejar. —Você é ótimo, sabia? —É... Eu sei... —disse num tom convencido. —Agora... Fofocas, Marcelinho curtiu suas fotos, e aí? Vai conversar? Dani bateu palmas e sambou todo desengonçado demonstrando sua plena felicidade. —Nem te contoooooooo.
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