Henrique
O cheiro de carvão queimando sempre me trouxe lembranças. Não das boas, claro — nunca das boas. O cheiro da pólvora vinha misturado com o mesmo tipo de fumaça. Desde moleque, aprendi a associar esse aroma ao que vinha depois: confusão, barulho, sirene, corpo no chão. Mas agora... ele vinha misturado com risada de adolescente, música velha do Zeca tocando num rádio chiado e um cachorro latindo no beco. Estranho como a vida é boa em mascarar o perigo.
A laje do Augusto parecia outro mundo, um pedaço de normalidade enfiado no alto do morro. Ele ajeitava a churrasqueira, concentrado, nem parecia que era o cabeça que comandava aquela po.rra toda. E Daniel — o amigo da Luna — fazia piada com tudo. Aquilo me fez rir, mesmo sem querer. O moleque era uma faísca ambulante. E mesmo com a minha aversão à adolescente, eu conseguia entrar nos assuntos que ele puxava. Os dois adolescentes desceram as escadas dizendo que já voltavam, deixando eu e Augusto ali.
— Isso me assusta pra cara.lho — ele disse, ergui o olhar enquanto abria uma garrafa de cerveja.
— O que exatamente?
— Luna crescendo, se formando.
— É o ciclo natural da vida.
— Tu tá ligado que eu me seguro pra não estourar a cabeça dos muleke com um tiro? — ele tira o cigarro da boca, ajeita a carne e se vira na minha direção — peguei um dos nossos olhando pra Luna, aquele olhar-
— Nojento que fazemos para as mulheres gostosas? — o interrompo e ele fecha a cara na hora, dou uma risada e bebo a cerveja — ela é uma menina muito bonita, Augusto. E você vai ter que se controlar.
— O cara.lho! Não consigo pensar nessa mole.ca beijando na boca, trazendo vagabundo pra casa.
— Vai se acostumando, meu amigo.
Augusto se volta para a churrasqueira, ficamos em silêncio por alguns instantes.
— Eu espero que ela arrume um cara bom! Que respeite, trate com carinho. Que não seja um perdido na vida.
— Como eu eu você? — pergunto.
— Como nós... Ela quer fazer faculdade de psicologia.
— Ela me disse — digo me levantando da cadeira.
— Ela tem sonhos, tá ligado? Não quero que arrume um homem que faça ela dar passos para trás.
— Augusto, se depender de mim, Luna arruma um cara descente.
Vejo o chefe sorrir.
~*~
Desci um pouco a escada lateral pra buscar mais gelo, mas parei quando ouvi vozes lá em baixo. A cozinha. A voz dela. Luna.
O nome pesou dentro da minha cabeça. Era quase estranho ouvir alguém chamando aquela menina de “formanda”, “mocinha”, ou qualquer coisa parecida. A via como uma menininha. Só que, agora, ela falava diferente, andava diferente, olhava diferente.
Encostei o ombro na parede, descendo os degraus devagar, sem fazer barulho. Não era por querer escutar conversa dos outros. Era instinto. A vida me ensinou a prestar atenção antes de ser notado.
A voz do Daniel veio primeiro, debochada, alegre...
— Ele vai na sua festa, e se não for... p.au no c.u dele!
Sorri de canto. Moleque atrevido.
Mas aí ela respondeu, e o sorriso morreu na hora.
— Eu não deveria ligar tanto, não é?
O tom dela… não era o que eu esperava. Luna sempre teve aquela coisa desafiadora, uma confiança que nem cabia direito no corpo. Mas ali… ela parecia outra. Tinha tristeza no jeito de dizer. E aquilo, por algum motivo, me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.
Eu sabia o que era crescer achando que ninguém liga. Sabia o que era engolir o próprio choro pra não parecer fraco. O Daniel tentou consolar, e a risada dos dois veio logo em seguida.
“Eu não deveria ligar tanto.”
“Talvez ele não venha.”
Ela tava falando de mim. Não precisava de muito pra entender. Já que fui eu mesmo que disse não saber se iria.
Respirei fundo, descendo mais um degrau. Vi de relance a luz da cozinha acesa, os dois em pé, ela mexendo nas coisas sobre o balcão, ele cortando cebola todo atrapalhado. A cena era simples, banal.
A menina da janela, que sempre gritava "Tio Henrique chegou!", agora estava ali, mexendo no vinagrete como se o mundo não fosse um campo minado. Como se o morro não engolisse sonhos todo santo dia. E, por algum motivo idio.ta, eu queria que continuasse assim. Que ela ficasse com essa leveza. Mas eu sabia que não ia.
Nenhum de nós consegue, quando entende que o mundo é mundo. E por isso tinha aversão a adolescentes, pois vivem achando que a vida é um conto de fadas, não fazem ideia da realidade das coisas.
Encostei o ombro na parede fria, olhando de longe, quieto. O cabelo dela caía pelas costas, solto, rebelde. Tinha um jeito de mexer nas coisas que me deixava meio esquisito. Um nó subiu na garganta, e eu desviei o olhar, respirando fundo. Não tinha entendido o que sentia.
— Daqui a pouco você vai estar se pegando com o Marcelo, vai esquecer de mim... — ela dizia, rindo, brincando com o Daniel.
Os dois riram juntos. E isso me deixava pensativo, quem estaria ali para ela quando não tivesse ninguém? E me peguei rezando para que não fosse ninguém ru.im. Rezando para que Deus me dê muitos anos de vida, queria estar aqui para ela.
Acho que foi nesse instante que percebi que fazia questão de estar aqui, pois era a Luna que trazia vida praquele lugar. E isso, pra um homem que só aprendeu a lidar com a morte, era perigoso demais.
Subi as escadas de volta, devagar, deixando o barulho da conversa pra trás. O céu já começava a mudar de cor, alaranjado no horizonte. O sol se deitando atrás das vielas. Peguei mais uma cerveja. Augusto veio logo em seguida, com o rosto suado, camisa aberta no peito, o olhar cansado.
— E aí, irmão? Tá tudo certo lá embaixo?
— Tudo tranquilo. Tua filha tá de cozinheira hoje — respondi, tentando soar natural.
Ele soltou uma risada.
— Estou aliviado que o amigo é via.do. Não confiaria nela lá em baixo com um garoto cheio de hormônios a flor da pele.
Assenti, sem conseguir disfarçar o incômodo.
— Augusto… — comecei, mas parei. Não sabia bem o que diria, e se dissesse, não sabia o que ele diria — deixa.
Ele me olhou curioso, mas não insistiu. Acendeu outro cigarro e voltou pra carne.
Fiquei ali, observando as fagulhas subirem, o som das pessoas na rua misturado com o chiado da gordura caindo no carvão. E pela primeira vez em muito tempo, me senti calmo por dentro, mas em conflito ao mesmo tempo, com algo que ainda não entendia.
ela apareceu com uma travessa nas mãos. Arroz, farofa, vinagrete. O rosto levemente suado, o sorriso tímido.
— Trouxe reforços — disse ela apareceu com uma travessa nas mãos. Arroz, farofa, vinagrete. O rosto levemente suado, o sorriso tímido.
Daniel veio atrás, equilibrando os talheres e falando sem parar.
— Estou fedendo a cebola.
Luna riu, e eu… me peguei rindo também. Era fácil rir perto dela. Difícil era lembrar o porquê de não poder. Sentia que estava deixando alguma informação passar batido. Ainda mais quando ela me olhou por um segundo, mas que foi tempo o suficiente para fazer meu peito aquecer.
— Obrigado, Luna — falei, quando ela colocou a comida sobre a mesa improvisada.
— De nada, Henrique.
Não me chamava mais de tio. Não que eu ligasse muito. Mas isso de alguma forma me ligou um alerta na cabeça, talvez medo dela estar crescendo rápido. O silêncio entre nós durou um segundo, mas pareceu mais. E eu senti de novo aquele peso. Acho que era o medo de ver ela crescendo. De perceber que o tempo não volta. De ver o perigo se aproximando de quem não tem ideia do tamanho dele.
A noite caiu devagar. O churrasco virou festa. Daniel e ela riam, tiravam fotos, cantavam alto algumas músicas que eu não fazia ideia existir, me senti antiquado. Augusto já estava mais solto, e os caras da segurança vinham e iam, rindo junto. Eu fiquei mais afastado, observando. Sempre observando.
No alto do morro, é assim que se sobrevive: vendo antes que te vejam. E mesmo ali, cercado de alegria, o instinto não me deixava em paz. De vez em quando, olhava pra Luna. O olhar se cruzava, mas com um tipo de vigilância que eu não sabia desligar. Ela era o calcanhar de Aquiles do Augusto, e, agora, sem perceber, começava a ser o meu também. Porque o morro tem código, mas não tem piedade. E uma menina bonita, filha do chefe, vira alvo fácil. Ela não fazia ideia. E eu que já sabia demais, e já estava perturbado com ideias na mente, decidi que eu estaria aqui para ela. Por proteção, por colo, por apoio... Por tudo!