De Volta

1795 Words
Henrique O asfalto de volta pro Rio parecia mais estreito do que quando eu o deixei. Há dois anos recebi a notícia que me fez mudar tudo. Minha mãe precisava de mim, estava em São Paulo, e eu estava sem cabeça. Um turbilhão de coisas se passavam em minha mente, e um desses medos era o da morte. Minha esposa morreu, e eu não pude fazer nada, e quando soube que mais alguém poderia partir sem que eu pudesse fazer algo. Parti sem olhar para trás. O cheiro de hospital ainda me perseguia. Não importava o quanto abrisse o vidro, o quanto o vento entrasse, eu continuava sentindo. Quimioterapia tem um cheiro, sabia? Mistura de ferro e esperança velha. Fica impregnado na roupa, nos pensamentos, nas lembranças. Minha mãe morreu num quarto branco de hospital chique, enquanto eu segurava a mão dela e fingia que o mundo não estava acabando, por mais uma vez. Sentir a partida de alguém que amo, por mais uma vez era... sufocante. Beijei sua testa, e disse que estava tudo bem, que ela precisava descansar, que ficaria tudo bem. Mas não ficou nada bem. Demorei mais do que devia para sair de São Paulo e voltar para o Rio. Tinha medo do silêncio que me esperava, o silêncio que eu causei. Augusto por muito tempo foi como um irmão, e eu apenas parti sem deixar que ele fizesse parte do demónio que me ocorria. O telefone tocou algumas vezes nos primeiros meses. Mensagens do Augusto. “Volta logo, irmão.” “Luna perguntou de você.” Eu lia e não respondia. Depois de um tempo, ele parou de insistir. E eu me tranquei de vez. Era apenas o melhor jeito, no momento, de aguentar a dor. O convite da formatura dela ficou sem respostas, e toda vez olhava a mensagem e a foto da garo.tinha, o do aniversário de dezoito também, esse em especial quem mandou foi Augusto, e na mensagem ele dizia que seria um ba.ita presente se eu aparecesse, já que na formatura Luna nem sorria, e que parecia que a presença dele não parecia ser o suficiente. Eu entendia isso, Luna só tinha Augusto, e a mim, que fui como um tio. Eu não conseguia aparecer. Não queria ver ninguém naquele momento, não queria fingir estar bem, e nem me forçar a sorrir para ver ela sorrindo. Egoísta? Talvez... Mas dessa vez, quando o celular apitou e vi o nome dele depois de tanto tempo no meu celular, alguma coisa mudou. Augusto me deu tempo, entendeu o meu luto quando disse que dona Lucinda morreu, me deu espaço quando não respondi as condolências. “Sei que não deve estar com cabeça pra isso, irmão. Mas Luna faz dezanove na sexta feira. Aluguei um casarão pra comemorar, acho que ela ficaria feliz se aparecesse. Vamos entender se não estiver bem para isso, é só uma festa idio.ta kkkkk foi o que ela disse quando avisei que iria te chamar. Ela disse alguma coisas sobre "não sei porque insiste nesse vacilão" mas sei que não foi de coração, ela me perguntou depois se você já tinha respondido a minha mensagem, e fez cara feia quando eu disse que ainda não tinha falado cntg. Então assim, ficaremos muito feliz, irmão. As portas tá aberta, sempre." Depois disso mandou o endereço. Não respondi a mensagem. Mas de qualquer forma, estava na hora de voltar. Só joguei a mala no banco do carona e peguei a estrada. --- O casarão ficava no alto de um condomínio novo, desses cheios de vidro e jardim aparado. Parecia mentira um lugar assim existir tão perto do morro da providência, que estranhamente parecia igual. Estacionei, desliguei o carro e fiquei um tempo ali, olhando o portão aberto, escutando o som da festa vindo de longe — música alta, gente gritando, risadas altas. Meu coração acelerou. Era bom, mas agoniante estar de volta. Quando finalmente desci do carro, senti o sol quente batendo na lente dos óculos escuros que usava. O cheiro de carvão me acertou em cheio, igual no churrasco — a última vez em que passei um tempo com Augusto, e minha sobrinha. Só que agora, não estávamos na laje, e provavelmente teria uma nova adulta com raiva de mim, que possivelmente não olharia na minha cara. Augusto me viu primeiro. Estava encostado na varanda, camisa aberta, cigarro preso no canto da boca. O mesmo de sempre. Só o cabelo mais grisalho. E provavelmente, se eu citasse isso, ele diria que era culpa da Luna. — Filho da pu.ta... — ele disse, abrindo os braços. — Eu achei que tu tivesse virado fantasma. Não achei que viria, cara.lho! Abracei o velho amigo, e por um instante tudo pareceu igual. — Eu, decidi. Acho que estava na hora de voltar. — forcei um sorriso que não chegaram aos olhos. — Senti tua falta, Henrique. Os caras do movimento também. Sabe, o Th não lida com as coisas como tu lidava — Ele afastou o cigarro, me olhou de cima a baixo. — Sinto muito pela tua mãe. Assenti. Não tinha resposta. E na verdade, não queria acabar com a comemoração por causa da minha perda. — Luna ficou m*l, sabia? — ele continuou. — Quando tu sumiu, ela mandava mensagem direto. Achava que tu tava bravo, sei lá. Eu nunca contei pra ti porque achei que era drama de adolescente — ele suspirou — ela mudou depois que você foi embora. Não quero que pense que tô jogando responsabilidade em cima de tu. Mas ela... — ele tragou o cigarro olhando o céu — ficou fechada, não me conta mais nada, sai com uma galera que não sou muito fã... mas pelo menos tá estudando. Assenti mais uma vez. E me senti culpado. Não tinha como não me sentir culpado. — Onde ela tá? — perguntei. — Tá lá no fundo, com o povo dela. Piscina, churrasco, essas coisas de jovem. Eu vim respirar um pouco, que já tô velho pra esse ritmo. — Ele deu uma risada curta. — Vai lá ver. Só não fique chateado se ela não... não for receptiva contigo. O jeito que ele disse aquilo me deixou sem chão. — Eu vou lá falar com ela — respondi. Mas as pernas quase não obedeceram. Segui pelo corredor lateral passando por um jardim bem cuidado, com flores coloridas, ouvindo o som da festa aumentar.Eram muitas risadas, e eu sabia que teriam pessoas jovens ali. Talvez eu nem caberia mais na vida dela. E entenderia se isso acontecesse. Quando virei a esquina e vi a área da piscina, o ar me faltou por um segundo. Aquele monte de jovens, copos plásticos na mão, gritando letras de funk com letras de senta, fod.e... E isso me deixava meio... Saudoso do tempo, meu tempo de jovem, e das músicas com músicas que fazem mais sentido.Os jovens na piscina jogavam água um nos outros. Alguns jogavam bola nos fundos. E varrendo a festa com os olhos, consegui ver um sorriso gigantesco ali na piscina. O cabelo molhado caindo pelos ombros, o sol batendo na pele dourada. Luna. Me assustei ao ver o quanto ela mudou. Parecia mais independente. Estava muito diferente. Eu não sabia dizer ao certo o que era. Por um instante, eu quis ir embora. Parecia errado estar ali, deslocado, com o luto ainda grudado na alma. Ela não me viu. E talvez fosse melhor assim. Seria mais fácil partir sem ela saber que eu estava por aqui, que tinha voltado. Augusto entenderia, não diria nada. Mas fiquei. Parado. O corpo travado entre a vontade de sumir e a necessidade de olhar mais uma vez. Ela ria. Dançava na piscina jogando os cabelos. Falava com os amigos. E, de repente, um garoto se aproximou. Vi o gesto, a aproximação, o toque rápido no rosto dela. O beijo que trocaram. Foi rápido, sem importância, mas me atravessou como se alguém tivesse apertado um gatilho dentro de mim. Não cogitei que tivesse namorando, e não planejava ver aquela garçotinha que me chamava de tio Henrique, beijando alguém. Não era ciúme. Sei lá, era uma queimação no peito. Como se eu tivesse perdido alguma coisa. O riso dela veio logo em seguida quando o beijo acabou. O garoto segurava na cintura dela e beijou o pescoço, senti meu corpo queimar, uma vontade de agarrar ele pelo pescoço e o jogar longe. Quem ele pensava que é para tocar ela desse jeito? Mas antes que meu corpo dissipasse a raiva, e tentasse lidar com as consequências de ter partido, sem ter dado tempo para preservar ela de namoradinhos. Uma garota a agarrou, e igual ao garoto, beijou os lábios dela. Alternou entre Luna, e o moreno magricela com cara de Zé drogui.nhas. E isso me deixou deslocado, estava velho de mais para lidar com coisas assim, mesmo que tivesse mexido comigo de um jeito estranho. Luna saiu da piscina, e a julgar pelo jeito que a garota e o rapaz saíram atrás, eu só conseguia pensar em uma coisa, e não gostei nada do que imaginei, e foi aí que ela me viu. Os olhos dela me encontraram do outro lado da piscina. Fiquei imóvel, como se tivesse sido pego fazendo algo que não devia. Ela congelou também, por um segundo só, e depois disfarçou, voltando a rir com os amigos. Ignorou completamente a minha presença, não demonstrando nada. E isso sim foi doloroso. Só que algo, algo que talvez eu tivesse julgado de uma forma errada, por vários fatores, aconteceu. Luna puxou a loira, e o magricela, e eu vi quando a língua dos três se laçavam. Engoli nada a seco, porque quando os dois beijaram o pescoço dela ao mesmo tempo. O olhar que Luna me lançou, era diferente do olhar de dois anos atrás. Eu enxerguei uma mulher, não uma menina. E acho que foi nesse momento que a ficha caiu. Luna não era mais a minha Luna... Luna era uma mulher. Eu era um homem... E lá no fundo, de um jeito que me levaria para o inferno... Eu queria ser o homem a estar com a língua na boca dela. Um fio invisível que me puxava e me deixava sem ar. A música pareceu sumir. As vozes ficaram distantes. Tudo o que restou foi aquele instante — ela me vendo, eu tentando decifrar o que havia por trás daquele sorriso. Raiva? Alívio? Indiferença? Sedução? Parecia sedução. Eu estava seduzido, e com vontade de dar um tir.o na minha própria cabeça por estar imaginando coisas com uma garota muito mais nova, e filha do meu melhor amigo. Me virei e fui embora pro lado oposto da festa, o coração batendo descompassado. Eu devia ter ficado em São Paulo. Devia ter continuado sumido. Me fodi.
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