CAPÍTULO 03 — ALLURA

2112 Words
— Eu gostaria de ver você outra vez, Allu, você gostaria de me reencontrar? Quando acordei essa manhã eu sabia exatamente qual seria a minha rotina, a mesma de muitos anos. Mas aprender a lidar com tantas emoções colidindo em tão pouco tempo é muito difícil. Cada vez que esse homem olha para mim eu sinto uma intensidade muito grande em minhas veias, é como se meu sangue gritasse para mim. O meu coração se torna cheio de sentimentos que eu nunca tinha sido apresentada, até hoje. Quase morri quando nossas mãos se tocaram, ou quando ele segura meu queixo e me obriga a aguentar o seu olhar que é mais quente que o sol. O sol está fazendo minha pele queimar, mas o Sr. Dimitri, está fazendo meu interior queimar. Isso torna minha respiração mais difícil, diferente. — Eu não posso, Sr. Dimitri. Meu tio não gosta de pessoas em casa e eu não saio sem sua permissão. — Explico, mesmo odiando o fato de que a única vez que eu verei o meu anjo da guarda é essa. Por isso, me forço a olhar para ele o máximo que eu posso. Porque se eu não terei a chance de olhar nesse rosto nunca mais, eu preciso gravar o máximo de detalhes de uma vez só. Os cabelos loiros-claros me deixam com o desejo errado de tocar neles, sentir se são tão macios quanto parecem. O olhar dele é inesquecível, me fazendo ter certeza que eu irei lembrar sempre que fechar os meus olhos. Sr. Dimitri também é muito alto, eu preciso erguer minha cabeça para conseguir encara-lo e isso me deixa mais i********e ainda. Essa roupa dele o deixa muito bonito, não é nada como o que eu tenho acesso mas eu tenho o desejo de sentir também. Mesmo assim, eu me contenho. Gravo na memória também os lábios rosados e como ele sorri de uma forma que faz as covinhas aparecerem. Mas o que eu mais sinto marcado em mim, é a forma que ele faz meu coração disparar como se estivesse em uma corrida. É exatamente esse sorriso que ele dá quando ouve a minha resposta. — Você está aqui agora. — Retruca. — Eu tive a permissão dele, não sei quando acontecerá de novo. Não posso dize-lo quando vir. — Então não diga, eu não te perguntei quando. Só perguntei se você quer me ver novamente, Allura, você iria gostar disso ou não? — Seus olhos parecem saber tudo sobre mim, por isso foi tão fácil conversar com ele. É como se o Sr. Dimitri enxergasse dentro do meu corpo, os meus pensamentos mais íntimos e ele já soubesse a resposta para essa pergunta. Por isso, é inútil tentar mentir para ele, até porque eu nunca precisei mentir antes e tenho certeza que o faria muito m*l. — Eu gostaria, muito. — Abaixo os olhos para fugir dos dele, só então eu consegui confessar. — Então quem sabe aconteça uma outra grande coincidência? — Apesar do tom de pergunta não parece que ele espera uma resposta minha, então apenas sorrio em resposta. — Voltarei aqui todos os dias, esperando o momento que você virá me ver. Espero poder olhar para você novamente, Allura. Então, onde só há nós dois visto que a mulher foi embora da cerca, Sr. Dimitri faz o que eu gostaria de fazer mas nunca teria coragem, toca meus cabelos alisando as pontas cheias com os dedos. Olho de relance a mão grande e forte que aos poucos sobe até minha orelha pelos meus cabelos e guarda uma mecha ali. Fecho os olhos ou iria desmaiar, essa é a minha tentativa de tentar conversar com meu coração que deve se acalmar. — Eu realmente espero que sim. — O anjo acaricia meu rosto, tocando minha face gentilmente com os dedos longos e firmes. — Nós nos veremos muito ainda, Allura, se assim desejar. Não se preocupe. — Eu não sei porque gosto tanto de sua promessa, mas gosto. Sr. Dimitri finalmente afasta as mãos de mim e eu suspiro enquanto sinto minhas bochechas ardendo. — Porém eu vou ficar por aqui dessa vez, eu estou mais perto da pista por aqui. Há algum problema de você voltar sozinha daqui ou prefere que eu a acompanhe? — Não, não há problema algum. Eu estou segura agora, graças a você. — Sorrio, como se isso fosse capaz de retribuir tudo que ele fez por mim. — Nunca poderei agradecer por ter se arriscado desse jeito para me salvar, mas novamente, obrigada. Se não fosse você eu nunca teria me recuperado do estrago. Eu sei que Deus olhou por mim mesmo nesse fim de mundo em que me escondo, e me salvou, usando o senhor. O senhor foi meu anjo da guarda. Não sei o que eu falei de tão errado e até me preocupo de ter dito algo que não possa ser dito em público – afinal eu não tenho contato com pessoas no geral. Mas quando o Sr. Dimitri começa a rir de minhas palavras eu não tenho mais certeza de que eu fiz certo em dize-las, franzindo o cenho e com certeza vermelha como os tomates que minha tia colhe na nossa horta. — Primeiro, você não precisa ficar agradecendo, o seu sorriso e saber que está bem são pagamentos o suficiente para mim. Segundo, pare de me chamar de senhor, eu nem tenho trinta anos e sou um amigo, ou não? — Sim. — Mais animada pela sua resposta de que já teve seu pagamento e aliviada por não ter dito nada de tão errado, eu concordo. — Nós não usamos “senhor” para um amigo, então já pode parar de usar. — Afirma, me fazendo concordar com a cabeça. Qual amigo melhor eu poderia ter que esse, o homem com rosto de anjo e que me salvou da ruína? É claro que eu o considero assim, e estou animada, por ter o meu primeiro amigo e este ser justamente o Dimitri. — Entendi, que seja assim então. — Mas eu aceito um desses como pagamento também. — Me aponta a cesta que está com um cheiro maravilhoso. Novamente eu o encaro surpresa. — Eu não sabia que você comia essas coisas, por isso não ofereci antes. — Me explico, tirando o pano branco que cobre o pedido do meu tio. São cupcakes lindos e cheirosos. — Mas é claro que pode pegar um. — Eu como muitas coisas, Allura. — Não entendo o que ele esconde em seu olhar quando diz isso com um sorrisinho nos lábios, já escolhendo o seu. — Mas porque achou que eu não comeria? — A sua roupa. — Você gostou mesmo da minha roupa... — Eu apenas sorrio timidamente e assisto ele levar o bolinho aos lábios. Deus! O que há comigo? Acompanho o movimento de seus lábios ao redor do bolinho e depois quando ele passa a língua para tirar o excesso de chantilly que ficou para fora. Isso causa algo estranho em meu coração e em especial no meu ventre, que parece ter um redemoinho causando um furacão dentro de mim. Seguro a cesta com uma mão e disfarçadamente – creio eu – levo a outra ao final da minha barriga e respiro fundo. — Uma delícia. — Ele sorri para mim terminando de limpar os lábios com a língua. Meu Deus! Me contrário, tendo um espasmo quando sinto algo escorrer de mim. É estranho, nunca aconteceu, mas algo molhou minha calcinha e eu preciso conter meus olhos arregalados. — Estou feliz que tenha gostado. É melhor eu ir agora, Dimitri, meu tio pode ficar preocupado se eu demorar muito. — Não é o que eu queria, eu passaria o resto do dia olhando para ele, mas não quero enfurecer o meu tio e nem desagrada-lo. — Sim, também não quero causar nenhum problema para você. — Aceita. Como mesmo se despede direito de uma pessoa? Acho que esse era um bom momento para isso, então relembro mentalmente como fazer isso, mas acho que não há muito a fazer além de dizer as palavras. O problema é que eu realmente não queria ir embora. — Então... tchau. — Digo timidamente as palavras e ele parece que está assistindo a um filme de comédia porque ri de mim a todo momento – Não que eu tenha assistido mas imagino que seja assim. — Até logo, Allura. — Sorri. Aceno para ele e começo a me afastar. Mas quando isso acontece, Dimitri segura a minha mão livre e me puxa de volta me surpreendendo com um beijo em minha bochecha me fazendo quase derrubar todos os cupcakes do chão. Com isso, eu estou realmente em apuros, pois não consigo esconder um sorriso apaixonado em meus lábios. — Não vejo a hora da próxima coincidência. ••• No caminho o homem que Dimitri surrou não estava mais no mesmo lugar e essa era minha única preocupação, encontra-lo novamente, mas não aconteceu. Ele deve ter acordado e ido embora com medo de encontrar de novo o anjo que me libertou. Mas durante todo o tempo, eu não conseguia pensar em outra coisa que não os olhos azuis daquele homem lindo, nos dedos dele acariciando meu rosto, seus lábios no bolinho e depois na minha face. Todas as vezes que eu penso nele dizendo que está ansioso para me ver novamente e seu beijo em minha bochecha, eu sinto que vou flutuar. Sim, meu anjo chegou e me mostrou como voar mesmo aqui. — Eu já estava com o coração na mão, menina! — Minha tia vem em minha direção assim que me vê chegando em casa, passando pelo portão de madeira. — Eu caminhei devagar, sabe que é um longo caminho. Mas eu não saí dos limites do terreno. — Não menti, só omiti o que me aconteceu mesmo querendo muito dividir com alguém. Mas eles dois são as únicas pessoas da minha vida. Minha tia segura a cesta de cupcakes e nós entramos em casa juntas, indo em direção a cozinha e eu começo a ajudar a organizar as coisas. Eles acabaram me esperando para almoçar e então sentamos juntos a mesa, isso me permite perceber uma certa tensão entre os dois mas resolvo não me meter. — Como foi o caminho, querida? Aconteceu algo de diferente? — Meu tio começa o assunto, e acho que essa é a primeira vez na minha vida que eu preciso mentir. Não quero ter que contar o que quase me aconteceu, e também não posso arriscar que ele não me deixe mais sair para tentar encontrar Dimitri. Coloco mais uma garfada na boca para ganhar tempo e enquanto mastigo tento fazer meu coração parar de bater tão rápido para tentar conseguir ser convincente. — Cansativo, mas tudo bem. — É o que consigo soltar, minha tia e ele trocam olhares, mas ele parece aceitar essa resposta. Novamente ajudo minha tia no que posso no resto da tarde, ela está fazendo alguns salgados para completar a comemoração a noite e eu acho que esse é o melhor dia da minha vida. Comecei o dia com a nossa celebração, conheci um anjo e o tenho como amigo, ainda irei festejar a noite com a minha amada família – é pequena, pode não ser comum, mas é a que Deus escolheu para mim e eu os amo como são. Depois disso eu vou ao meu quarto e descanso um pouco, antes de começar a me arrumar para a pequena festinha em família que teremos. Imagino como seria maravilhoso se eu pudesse ter convidado Dimitri para nos acompanhar, mas quem sabe um dia essas pessoas más desistam de tentar nos encontrar e meus tios aceitem outras pessoas em nossa casa como qualquer outra pessoa. No chuveiro do banheiro do meu quarto, eu fico encolhida com os olhos fechados, um sorriso nos lábios e deixando a água escorrer. Esse dia poderia estar terminando com uma tragédia, mas graças ao meu anjo da guarda eu termino com um sorriso nos lábios e ansiando a próxima vez que vou vê-lo. Mas até lá, eu posso ficar me lembrando dos seus olhos, da sensação da sua boca contra minha face e como meu coração acelerou. Li muitos romances na minha vida e via falando sobre os heróis românticos, eu tenho certeza que eles se pareceriam com Dimitri se existissem. Tamanha beleza só pode ser tirada dos livros, além da gentileza, respeito e cuidado. Neles eu aprendi sobre amor a primeira vista, eu nunca acreditei que algo assim pudesse acontecer comigo. Mas eu fui atingida pelo mesmo que acontecia aquelas mocinhas, por uma paixão a primeira vista.
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