Uma tragédia como nunca ocorrera antes na longa história de tradições acometeu a família Black. O imperdoável aconteceu, uma traição, da pior espécie. Tocar o filho do Don é suicídio, e alguém o fez, algum desgraçado que condenou o país a um genocídio por sua audácia, assassinou a facadas o sangue Black de um garoto de dois anos. Não satisfeito, deixou o herdeiro da cabeça da máfia em um estado deplorável.
Dimitri Black, o garoto que Don Carlo colocou em treinamento desde os oito anos está arrasado. O pequeno que também foi ferido e ficou ao lado do corpo do irmão, segurando as duas facas que foram usadas para o crime, foi cuidado fisicamente. Mas ele não fala por dias, em choque, visualizando a cada momento o corpo pequeno do irmãozinho de dois anos.
A casa Black está realmente escura, tudo é preto, luto e escuridão.
O futuro da linhagem de Carlo e da direção da sua enorme organização, estão em perigo. Ele tem um filho que acabara de enterrar, e outro em um estado de choque extremo que não come, não fala e nem dorme por dias. O menino forte, bem treinado e que todos tinham esperanças, estava em farrapos. Sim, Dimitri emagreceu, seus olhos m*l piscavam e estavam fundos dentro de olheiras roxas.
— Meus pêsames, Sr. Black. — Essa era a frase que Don Carlo não aguentava mais ouvir, porém, era o que cada alma parecia disposta a dizer cada vez que olhava para ele.
Carlo estava profundamente triste, ele realmente estava, mas esse era justamente o problema. Para lidar com sua tristeza, ele a transformava em raiva e sua raiva, podia literalmente colocar fogo no mundo – ou apenas no pais.
Ela apenas acena com a cabeça sem dar nenhuma resposta audível para um dos seus empregados que acaba de prestas suas condolências. Carlo está na sede da Black, sua instituição, onde ele reúne seus soldados para mais uma chacina. Foi sobre o caixão do seu filho que ele jurou que todos teriam o que merecem.
Não foi encontrado o culpado, seu consigliere que devia ser o primeiro a descobrir tramas contra a casa Black e procurar formas de vinga-la, não foi capaz de cumprir nenhum dos seus deveres. Se ele segurou a faca, Don Carlo não sabe, mas sabe que ele precisa pagar por tamanha inadimplência e incompetência. Não há um nome, mas há uma lista de pessoas que com certeza o fariam e o chefe desconfia, e até dizimar cada uma dessas pessoas e suas famílias, Carlo não irá descansar.
Foram muitas e muitas mortes, dezenas de famílias com seu sobrenome extinto pela Black e seus soldados. É claro que o Don presenciava cada uma dessas cenas, como um representante da alma de seu filho que ele acredita que só irá descansar quando isso acabar. Não é possível dizer se a Itália é um mar vermelho de sangue, amarela como as chamas do inferno, ou escura como um purgatório.
Mas a última casa a ser destruída, foi a de seu consigliere. Pode ser até que pareça que Carlo faz isso por prazer, e por um lado é realmente prazeroso, o seu sorriso sádico enquanto ele e seus homens se aproveitavam da jovem esposa de Benjamin em sua frente deixava isso claro. Enquanto Costello era desmembrado frente a sua amada mulher que sangrava até a morte, suas feições arrogantes passavam muito bem por prazer. Porém, não era exatamente isso que Don Carlo sentia.
Benjamin Costello ficou ao seu lado por anos, o apoiou e acompanhou em muitos casos. Foi o seu braço direito. Na máfia, eles eram realmente uma única família e de todos, seu consigliere era o que ele mais considerava assim. Mas apesar disso, isso não foi o suficiente para ele não menosprezar a sua família, então também não seria suficiente para Carlo poupar a dele agora.
Depois de terminar com o casal e todos da casa Costello, Carlo saiu com seus homens do escritório de Benjamin deixando os dois corpos dentro. Do lado de fora, uma trilha com muito mais corpos, sangue, e partes humanas. Tudo que era vivo nessa casa, agora está morto. Porém, há alguém que Don Carlo não conseguiu encontrar, e essa é ordem dele.
A casa é gigantesca, então demora horas para os homens de Carlo conseguir percorrer cada cômodo, vasculhar cada canto, em busca da menina nascida do fogo. Mas para seu desespero, não havia mais ninguém respirando e nenhum corpo de uma recém nascida no lugar. De alguma forma, alguém havia tirado Allura da casa. O quarto de bebê que foi tão bem decorado com tanto amor e cuidado, estava revirado, todos em busca da dona do nome bordado e estampado em várias partes da decoração.
— A menina não está aqui, Don Carlo. De alguma forma a tiraram daqui. — O que seu soldado comenta é algo que o chefe já havia notado, então ele novamente não responde.
— Vamos embora daqui. — Chama os seus homens e quando todos estão do lado de fora, a casa é completamente incendiada. Se alguém tinha sobrevivido antes, agora não há mais chance.
Don Carlo assiste a casa queimar, antes de voltar a sede com uma sensação de fracasso. Ainda há em algum lugar nesse país uma Costello respirando, a filha de Benjamin ainda tem a dádiva que é estar viva enquanto seu filho não tem o mesmo privilégio – e isso é algo que ele não pode suportar.
Em casa, nem mesmo a b****a receptiva de sua esposa é capaz de distrai-lo, o Don está inquieto. Durante a madrugada, ele vai até o quarto do seu herdeiro, encontrando Dimitri acordado com a luz de um abajur sendo a única claridade do quarto. Silenciosamente, o pai se aproxima do menino e senta ao seu lado na cama.
— Ainda assim, p***a? — Já fazem dias, Carlo está perdendo a paciência de esperar que Dimitri reaja.
Todos estão sofrendo aqui, por que só Dimitri deveria ter o luxo de viver seu luto por tanto tempo?
Apesar da grosseria do pai tentando fazer o filho reagir, Dimitri nem se move. É como se sua alma tivesse morrido. Sim, Carlo sente que perdeu dois filhos naquele dia. O menino apenas respira, sobrevivendo, mas parece estar morto.
— Você é o futuro dessa família, Dimitri! Não ouse esquecer disso. — Agarra firme os ombros do filho. — Você precisa voltar para nós, é seu destino ser o dono de todo o meu império.
•••
Três anos sem falar, comendo o necessário para estar vivo e trancado em seu quarto com um caderninho rabiscado como companheiro. Foi isso que Dimitri Black precisou antes de aos poucos ir voltando a vida. Claro que Carlo não perdeu tempo, recomeçando a treinar o seu herdeiro.
Foi preciso também anos de terapia, para que o menino voltasse a falar e depois, também. Tentaram descobrir se Dimitri viu algo na manhã do assassinato, mas é como se o choque tivesse apagado da sua visão o que aconteceu. “Ninja, ninja”, é só o que ele repetia mas ninguém entendia o significado disso.
Dimitri foi treinado para aguentar o pior, todo o tipo de dor, tortura, como empunhar armas e escolher o melhor tipo para cada ocasião, treinamento de combate corpo a corpo, mira. O herdeiro de Carlo foi submetido pelo pai a todo o tipo de perversidades, para estar pronto para o pior. Nunca existira alguém tão forte, duro, e preparado como ele.
Claro que o cérebro não foi esquecido também, o menino aprendeu história, idiomas, jogos de estimulação a mente, cálculos e tudo que um gênio sonha em ter acesso. Carlo o admirava, e Dimitri, estava empolgado por poder dar orgulho ao pai mesmo que isso o trouxesse algumas cicatrizes.
Isso durou até a morte de Carlo, cerca de dois anos depois, consumido por um câncer de pulmão que o matou de dentro para fora. Se foram os charutos, as drogas, ou a amargura depois de nunca ter encontrado Allura que piorou o seu estado... É impossível dizer. Mas no leito de morte do pai, Dimitri jurou que encontraria a menina de Costello e terminaria o que ele começou, vingando o irmão.
A forma de trabalho de Dimitri é um pouco diferente, mas o cérebro do garoto que aos quinze anos recebeu o título de Don da máfia Black – o mais jovem da história – era inquestionável. Ele conquistou o respeito e o temor de todos a sua volta, as pessoas comentavam, faziam suposições e contavam lendas sobre ele.
Sim, alguns acreditavam que Dimitri tinha sido assassinado em 2004, junto com o irmão, e o d***o o ressuscitou – por isso a demora para voltar a falar e ressurgir, foi o tempo da alma retornar a ele. Outros acreditavam que ele não foi assassinado, mas que tinha recebido a proteção do próprio inimigo pois tinha planos para ele – usá-lo como instrumento. De qualquer forma, não importa a história que contavam, Dimitri sempre estava ligado ao d***o.
Por isso, na crença de que algo r**m vive dentro do menino, todos se curvam a ele.
É claro que nada disso é real, Dimitri é apenas um menino que presenciou o assassinato do irmão e teve seu cérebro apagado por alguns anos. Um borrão o impede de ver o rosto do assassino, mas ele claramente não desistiu de lembrar, e um dia, ele com certeza o fará – é o seu maior desejo pelo menos. Mas claro que ele não n**a os boatos, pelo contrário, o medo é bom.
Dimitri gosta de ser temido, quando se é tão jovem e precisa cuidar de uma organização como a Black, manter todos na linha, o medo é seu maior aliado. Se ele precisa ser alguém que morreu, alguém protegido ou possuído pelo d***o para isso, que seja!
Durante cerca de um ano depois da morte do seu pai, Dimitri conseguiu impor sua maneira de trabalhar para os soltados – e estava mesmo funcionando. Ele deu continuidade a tudo que Carlo havia começado e terminou com êxito. Cada pagamento foi recebido, as cargas andavam de vento em polpa, as alianças foram seladas e o principal, Allura foi encontrada.
— Pode entrar. — O jovem de dezesseis anos que dirige a máfia italiana mais temida do mundo dá a permissão.
Pela porta da sala, um senhor de quase sessenta anos passa pela porta. Dentro da sala está apenas os dois e mais o consigliere que Carlo escolheu como substituto de Benjamin – Meyer.
— Bom dia, Don. Black. — O senhor faz uma reverência que tira um riso silencioso dos lábios de Dimitri.
— Você pegou a garota? — Esse é o único trato que Dimitri tem com o velho.
Joe não é ninguém, ele serviu a Black por muito tempo mas seus piores anos chegaram e claro que ele não tem mais serventia. Mas Dimitri foi capaz de encontrar um serviço para o ex-soldado.
— Sim, ela já está com Julia na casa que o senhor nos deu. Obrigado novamente, pela oportunidade e...
— Mantenha o foco, Joe. — Dimitri a interrompe. — Ela está saudável?
— O que importa, se o fim dela será o mesmo que o dos pais? — É Meyer mesmo que responde, animado com a conquista do Don. — Quando pretende traze-la para cá, senhor? Acho que já deve ter decidido que tipo de morte vai dar a ela.
— Quem disse que eu vou mata-la? Achei que já tinham percebido que eu não sou meu pai, e que apesar de eu continuar de onde ele parou, meus métodos são um pouco diferentes. — Dimitri está pensativo, ele já sabe o que fazer, mas agora é como se ele pudesse sentir o verdadeiro sabor da vingança.
— O que quer dizer? Senhor, por favor, pense bem. É muito fácil resolver essa situação, não precisa estender mais que o necessário. — Não.
As coisas para Dimitri nunca são fáceis, ele e sua mente c***l e diabólica são bem mais complexas. Ele pretende matar Allura, mas de outras formas. A criança nem mesmo irá entender atualmente o que estão fazendo com ela, não, ele quer mais que a dor dela, ele quer o seu sofrimento.
— Meyer, eu estou cansado de você e de ter que me explicar. Em primeiro lugar, isso não é assunto seu, eu sou a p***a do chefe e eu decido o que eu vou fazer. Em segundo lugar, está demitido.
— O que? Você não...
— Sim, eu posso. — O interrompe. — Você continua trabalhando para nós, é claro, mas não tem o que é preciso para ser o meu consigliere. Por enquanto, me deixe a sós com o Joe, nós temos assuntos importantes a tratar. — Após a ordem e a breve explicação do Don, tudo que Meyer pode fazer é seguir suas palavras. — Repetindo, a garota é saudável?
— Sim, está um pouco magra demais mas cuidaremos disso. — A resposta de Joe agrada muito ao Don.
Dimitri sente que Allura pertence a ele, de alguma forma ela é o seu destino e sua propriedade. Então é claro que como qualquer outra mercadoria, ele precisa ter certeza do estado antes de tomar posse.
— Ótimo. Mantenham-na assim, até quando chegar a hora.