Permaneço na cama tirando um tempo para meu cérebro despertar junto com o meu corpo, é um domingo, um domingo especial. Por isso eu m*l consegui dormir normalmente, queria ficar acordada até o amanhecer mas não funcionou, a euforia me deu um descanso e eu acabei adormecendo durante a madrugada – mas claro que não demorei em despertar também.
Hoje é o meu aniversário. Não é importante por ser o de dezoito anos, mas sim porque é a minha data mais esperada do ano.
Nós não fazemos muitas festas por aqui, meus tios Joe e Julia são idosos, cansados, mas se esforçam em cuidar de mim e dar o seu melhor para isso – eu realmente os amo muito. Além disso, eu não tenho liberdade de me afastar do campo, nem mesmo dos limites da casa que vivemos. Desde que eu era uma criança, eu não entendo o porque, mas meus tios disseram que é perigoso sair, que tem pessoas más me procurando.
Por mais que eu pedisse explicações, eles nunca me deram. Tudo que eu sei é que meus pais morreram quando eu era pequena e meus tios ficaram com minha guarda, algo me diz que essas pessoas más fizeram isso com eles e por isso eu estou escondida nessa casinha no campo – para ninguém me achar. A maioria das minhas lembranças, eu tive aqui nessa casa com meus tios.
Há alguns flashes vem em minha memória as vezes, uma mulher vestida de freira, uma igreja, crianças correndo e dormindo juntas. Mas logo depois eu vejo o tio Joe e é apenas dele e da tia Julia que eu me lembro, foram eles que sempre cuidaram de mim desde que me lembro e eu confio neles com a minha vida – afinal, eles sempre me protegeram aqui e graças a eles nada me aconteceu.
Eu sei que não preciso ter medo das pessoas más, não enquanto meus tios estiverem comigo.
— Allura, querida, está acordada? — Tia Julia questiona após batidas na porta.
Claro que eu me pergunto o que será de mim se eu os perder um dia, afinal, os dois tem quase setenta anos. A idade chegou bem rápido para eles e apesar de tudo, cuidam de mim, foram eles que me ensinaram a ler e escrever e tudo que eu deveria ter aprendido em uma escola, porque não me lembro de sair desse lugar. Eles são meus amigos, minha família, meus provisores, meus professores e meus seguranças.
— Claro, tia Julia, eu m*l consegui dormir essa noite. — Com a minha resposta, ela entra no aconchegante quarto que cederam para mim.
Tia Julia é na verdade esposa do meu tio, ele sim é o irmão de sangue do meu pai. Mesmo assim, ela sempre cuidou de mim como se tivéssemos um laço sanguíneo. Agora ela caminha até a minha cama com uma bandeja nas mãos enrugadas enquanto eu ergo meu corpo até sentar a sua espera, que senta ao meu lado e coloca o tabuleiro de alumínio em cima das minhas coxas.
— Feliz aniversário, minha menina linda. Que você continue cada vez mais bela, e que tenha apenas coisas boas na sua vida. Nós esperamos muito seus dezoito anos, você é uma mulher agora, uma que temos muito orgulho. — Coloca uma mão em meu ombro, tentando dar mais veemência em suas palavras.
— É só mais um ano, tia, como todos os outros aniversários. — Explico.
A idade realmente não faz diferença para mim, eu apenas gosto de aniversários para poder ter uma desculpa a festejar de alguma maneira. Ela apenas abaixa os olhos dos meus e sorri fraco, mas não continuamos a conversa porque noto meu tio Joe na porta nos assistindo.
— Vocês iam começar sem mim? Eu não acredito. — Finge estar ofendido, caminhando até nós e sentando ao lado da sua esposa.
É um ritual de todo aniversário meu, eles vem até mim me trazendo o café da manhã e um bolinho com uma vela em cima para começar logo o dia. Algo que amo é iogurte com granola e eles nunca esquecem, também tenho um omelete, frutas frescas e o bolinho – fora um pequeno lírio que sempre está lá todos os anos. Sorrio com todo o cuidado deles, que apesar da idade nunca deixam faltar absolutamente nada para nós e em especial para mim.
— Seria possível sem você? É claro que não, tio. Estávamos justamente te esperando aqui. — Sorrio, estendendo a mão para ele, que aperta a minha dentro dos dedos um pouco tortos devido a artrite.
— Nossa menina finalmente cresceu, não é, Julia?
— Era disso que estávamos conversando antes de sua chegada, marido, talvez devêssemos enviar Allura para algum lugar distante. — Sugere, ganhando um olhar de reprovação do meu tio.
Há algo errado com minha tia esses dias, ela está cabisbaixa, anda pelos cantos e tenta o tempo inteiro fingir que está bem. Eu não entendo, mas não me meto, afinal todos temos dias ruins. Tenho pesadelos as vezes, fico sem dormir, tenho medo de muita coisa nessa vida e isso acaba me deixando como que sempre muito preocupada. É normal uma pessoa ficar m*l as vezes, em especial quando a vida parece só dar golpes fortes.
Não conheço sobre tudo do meu passado, na verdade, conheço quase nada. Apesar disso eu sei que tem algo por trás de mim, da minha história. Por que eu teria que viver escondida e protegida assim se não tivesse? Joe e Julia são as únicas pessoas que eu lembro de ver e conversar na minha vida – além da freira que eu tenho uma pequena lembrança as vezes.
É tudo muito vago, e tudo sobre mim é uma incógnita.
Espero um dia conhecer a verdade sobre mim, mesmo que eu realmente tenha medo dela. Tenho medo de que para realmente conhecer quem eu sou, eu tenha que ficar frente a frente com as pessoas más que mataram meus pais. Só eles e meus tios sabem o que aconteceu e como eles me protegem tanto a ponto de evitar me contar, talvez seja o meu inimigo a me apresentar o meu passado.
— Não se meta nisso, Julia. Allura nunca saiu dessa casa, quer enviar ela sozinha para longe para ser morta? — Repreende a esposa, que abaixa sua cabeça e parece sempre estar evitando olhar para mim, o que me deixa entristecida por ela. — Você sabe que o melhor lugar para você é conosco, não é, filha?
— Sim, tio. — Concordo, mas com os olhos presos em minha tia. — Estar aqui com vocês é o suficiente para mim, tia, eu não preciso de mais nada. Vocês dois são o presente que a vida me deu, para me proteger de quem quer que queira me encontrar e cuidarem de mim. Eu nunca poderei agradecer tudo que fizeram e fazem por mim.
— Não diga isso, Allura. — Minha tia então ergue sua cabeça e me encara, com lágrimas nos olhos que me deixam pensativa. — Perdoe-me, eu ... estou emocionada com o seu aniversário e sua maior idade. É difícil aceitar que você finalmente cresceu, você era tão pequena quando veio para nós cuidarmos de você...
— Cuidado, Julia. — Meu tio a adverte, sempre desconfortável quando fala sobre como eu cheguei aqui. Afinal, eu virei um fardo para eles desde que meus pais morreram e eles precisaram cuidar de mim. Eu ainda me pergunto também porque eu não lembro do rosto deles, eu tinha cerca de seis anos quando vim para cá, mas não lembro do rosto dos meus pais. Por que? São tantas perguntas... — Não vamos aborrece-la em seu aniversário, hoje é dia de falar em coisas boas e não coisas ruins.
— Tem razão. — Tia Julia coloca um sorriso no rosto e enxuga suas lágrimas, tirando as minha preocupações. — Vamos cantar os parabéns então.
Nós cantamos juntos os parabéns e eu apago a pequena velinha no topo do bolinho, antes de começar o meu café da manhã com o iogurte com granola, é claro. Nós conversamos coisas aleatórias como qualquer família, pois mesmo que nós não sejamos como todas as famílias, eu imagino que somos um tipo especial.
Quando terminamos, como todos os anos, meu tio tira uma foto minha com a tia e depois, uma minha sozinha com um celular. Eu não tenho celular, visto que todas as pessoas que conheço estão aqui e não preciso ter contato com mais ninguém. Como eu não tenho experiência com pessoas, o mundo, ou internet, meu tio acha melhor não arriscar que eu me meta em encrenca com o que chamam de redes sociais.
Depois disso eu começo finalmente o meu dia, tomo um banho e visto roupas leves. Escolho um vestido longo soltinho e estampado de verde e branco, é bem justo na cintura assim como todas as roupas que minha tia traz para mim – as vezes parece que diminuíram de largura nessa região com o passar dos anos. As saias são sempre compridas e esconde muito do meu corpo.
Meus cabelos são sempre bem cortados por minha tia também, eu não tenho intenção de deixá-los crescer muito de qualquer forma. Gosto deles assim na altura dos ombros e com uma franjinha na minha testa que uso desde que me entendo por gente, eu sou acostumada assim e gosto de manter minha identidade. Prendo a lateral dos meus cabelos com duas presilhas e deixo solto no cumprimento, a franja decora o meu rosto.
Calço sapatilhas bem simples e saio do quarto para ajudar minha tia com os afazeres da casa. Eu colho temperos e verduras para ela dentro dos limites da casa, mas hoje, só preciso descascar os legumes para facilitar para ela. Apesar de bem mais velha, ela insiste que eu não devo ficar fazendo trabalho doméstico como ela e só me permite ajudar em bem poucas coisas porque eu insisti muito.
Até mesmo o meu tio fica bravo se me pegar fazendo qualquer coisa que ele julgue pesado demais para mim. Isso também é outra das coisas que me deixam confusa mas que eu parei de tentar descobrir com o tempo.
— Allura, querida, você pode fazer algo para mim? — Meu tio entra na cozinha e eu me animo em ser útil, largando a faca dentro do vaso onde estão as batatas e tirando o avental que cobria meu vestido.
— Claro, o que? — Me coloco a disposição.
— Na saída vem uma mulher me deixar uma encomenda, quero que pegue para mim. É uma cesta com alguns doces para comemorarmos a noite o seu aniversário, mas... — Sorrio mais empolgada ainda quando ouço que o motivo é mais uma comemoração a noite. A noite nós só celebramos as vezes, e hoje pelo jeito é uma dessas noites.
— Estou indo. — Aceno para ele sem precisar que complete, eu entendo que com a distância aqui até os limites das nossas terras que é um grande terreno seria demais para ele percorrer.
Então, começo a minha caminhada pelas estradas de terra. Todo o lugar que olho só se vê isso, terra, areia, e muito verde. Como é dia, o sol está queimando e eu me protejo embaixo das folhas das árvores, que levam até o meu destino. Aqui eu consigo chegar na entrada com a proteção das sombras, também não preciso ir correndo.
Caminho tranquila entre as árvores e os barranco dos dois lados, até com um sorriso nos lábios imaginando nossa comemoração em família mais tarde. Apenas alguns barulhos me deixam inquieta, posso jurar que eu escuto passos fora aquela sensação de que estou sendo observada, que alguém está me seguindo.
Paro, rodeada apenas por árvore, areia e sombras. Olho ao meu redor com cuidado, sentindo um arrepio em minha espinha, é uma espécie de aviso e o ouvindo, começo a correr. Quando faço isso, um homem sai entre as sombras de trás das árvores e começa a correr atrás de mim.
Tento enxergar olhando para trás enquanto corro e o encontro, mas eu não sei quem é, nunca vi ninguém além dos meus tios. Meu coração acelera tanto que meus nervos se descontrolam a ponto de eu não conseguir respirar direito e na tentativa de ver onde o homem está, eu tropeço em um graveto no chão que se engancha em meu vestido.
Caio, e é o suficiente para o homem me alcançar segurando a barra da minha roupa. Eu não vou desistir, então continuo tentando escapar engatinhando para longe e acertando um chute contra o rosto dele. Ele grita e eu aproveito para ficar de pé novamente, mas ele agarra meu tornozelo e me puxa de volta para o chão.
Desesperada, eu respiro ofegando e começo a chorar descontrolada. Vou engatinhando para trás enquanto ele vem até mim como se fosse um animal selvagem, eu já li coisas sobre ogros que até tinham imagens ilustrativas e ele se assemelha a um, forte, grande, careca e furioso.
— Venha aqui, sua p*****a do c*****o! Não torne tudo mais difícil. — Ele segura meus dois tornozelos e me puxa para si, subindo em cima de mim.
— Saia, me solte! — Me debato, tentando acerta-lo com minhas mãos mas eu tremo tanto de nervoso que é fácil me segurar e ele o faz, segurando minhas mãos com apenas uma e levantando acima da minha cabeça.
Nunca ouvi um vocabulário desse, eu não entendo bem o que significa as palavras que ele disse mas eu sei que quer dizer algo r**m. Eu sei que é depreciativa a forma que ele fala tentando me humilhar, para piorar, recebo um tapa forte contra meu rosto para tentar me fazer colaborar. Isso arde, faz meu rosto latejar.
— Vai ser bem rápido, gatinha. — Ele quer se aproveitar de mim, e não se importa com as lágrimas descontroladas que eu derramo.
O homem tem umas dez vezes o meu tamanho, seus braços parecem feitos de aço e ele usa uma de suas mãos para começar a levantar o meu vestido. Sinto que preciso lutar ao mesmo tempo que acho em vão, mesmo assim eu não consigo parar de me debater. Logo meu vestido está em minha cintura e ele expõe meu corpo, deixando apenas a calcinha grande e bege de fora.
— Por favor, não faça isso, não me toque pelo amor de Deus. Eu te imploro, me deixe ir... — Enquanto eu apelo e soluço ele apenas começa a distribuir beijos contra meu pescoço, meu decote, em tudo que ele consegue tocar e aumenta o meu desespero. — Não, não...
Enquanto eu gritava e apelava, tudo aconteceu tão rápido que eu com meus olhos fechados só consigo ver depois que o homem já foi afastado para longe de mim. Me encolho, abaixando novamente meu vestido e abraçando meus joelhos, mas meus olhos não conseguem desviar do anjo que me salvou e surra o ogro em minha frente.
Sim, com certeza é um anjo.
O homem é tão forte quanto o outro, porém seus cabelos e barba são loiros claro e ele está muito bem vestido em um terno. Posso não conhecer muito sobre as coisas ou pessoas, mas eu sei que esse terno deve ser mais caro que a minha vida, mesmo assim, ele não se importa em machuca-lo por mim.
— Não ouviu a garota dizer “não”, seu pedaço de merda! — A voz dele causa um rebuliço em meu estômago e apesar de tudo que quase me aconteceu, eu sorrio apenas com os lábios e com meus olhos brilhando.
— Eu sinto muito, eu não... — Não consegue terminar a frase, pois é atingido com um golpe em seu pescoço que o faz desmaiar.
É quando o anjo para os olhos azuis em mim e nos olhamos diretamente pela primeira vez. Meu coração fica longe de se controlar, é bem o contrário, se perde em milhões de direções e eu engulo seco. Ele vem caminhando até mim e eu me encolho mais, abaixando a cabeça e trêmula.
— Não tenha medo. — Pede, ajoelhando em minha frente e sem pedir licença tocando o meu queixo, fazendo nossos olhares se cruzarem. — Eu não vou machucar você. Qual o seu nome?
— Allura, Allura Bianchi. — Com uma voz baixa eu respondo apenas para não ser m*l educada, mas eu m*l consigo olhar para ele.
Fico paralisada demais sem conseguir olhar diretamente para ele que parece brilhar de tamanha beleza, o rosto tão desenhado que eu me pergunto se há tantas pessoas assim fora dessa casa no campo – mas com certeza não. Os olhos dele dão uma sensação de que você está voando, mergulhando no céu. A boca dentro da barba atrai a minha atenção até que ele dá um sorriso expondo dois furinhos em suas bochechas.
— Dimitri Black, é um prazer, Allura.