Capítulo 1
Lívia Monteiro
O salão do Copacabana Palace estava tão abarrotado de gente importante que eu m*l conseguia respirar. O vestido de seda vermelha – escolhido a dedo pela secretária de Henrique a pedido dele, era para "valorizar a minha imagem" – colava na pele como uma segunda pele, e o salto agulha ameaçava me derrubar a qualquer momento. Eu não queria estar ali.
Gustavo, meu ex, havia me encurralado perto dos canapés com aquele sorriso de cobra que já conhecia bem.
- Você está evitando as minhas mensagens, Lívia. – ele murmurou, fingindo ajustar a gravata enquanto o seu dedo traçava o meu braço. – Acha mesmo que vai conseguir se livrar de mim?
Engoli seco. O cheiro do seu perfume, o mesmo de quando namorávamos, me enchia de nojo.
- Gustavo, isso já acabou. Não insista.
Ele riu, baixinho, e eu senti o ar gelar.
- Nada acabou. Seu irmão já até combinou o nosso jantar de reconciliação.
Mentira. Henrique jamais faria isso sem me avisar. A menos que… a menos que ele realmente achasse que Gustavo era a melhor opção para "consertar a minha reputação".
Precisava sair daqui, agora!
- Preciso ir ao banheiro. – menti, esquivando-me antes que ele pudesse responder.
Corri em direção ao corredor privativo, onde apenas os hóspedes do hotel tinham acesso. Lá, pelo menos, ele não me seguiria. Mas na pressa, nem olhei para onde estava indo direito.
E então, o meu corpo colidiu com algo duro – algo não, alguém – e o champanhe da taça que eu nem lembrava de estar segurando respingou no peito impecável dele, manchando o terno azul-marinho.
- Merda!
Olhei para cima e ele me encarou com uma fúria que fez o meu estômago embrulhar.
O homem era lindo de um jeito quase ofensivo. Cabelos negros desalinhados, queixo forte com uma barba por fazer, e olhos cor de âmbar que pareciam ler cada pensamento i*****l da minha cabeça. Mas o que mais me pegou foi a expressão dele: puro desdém.
- Acha que esbarrar em mim é uma estratégia eficaz? – a sua voz era fria, cortante, como um vinho caro que queima na descida.
- O quê?
- O seu método é… criativo. Derramar drink, fingir desequilíbrio. Já vi muitas tentativas, mas essa foi patética.
O meu rosto ardeu. Quem diabos ele pensa que é?
- Patético é seu ego, senhor. – gritei, limpando as mãos no vestido. – Eu não faço ideia de quem você é, e honestamente, não quero saber.
Ele sorriu, lento, como um predador diante da presa.
- Claro que não. Deve ser coincidência estar no corredor exclusivo do hotel, justo quando eu saio do meu quarto. O que ficou esperando o momento certo? – ele perguntou sarcástico.
Püta que pariu, o que ele tinha de lindo tinha de babaca.
- Eu estava fugindo do meu ex! – explodi, apontando para o salão. – Ele está lá, sendo um babaca insistente, e eu…
Parei. Por que raios estava me explicando para um estranho?
Ele estudou o meu rosto, os olhos escaneando cada microexpressão. Eu me senti nua.
- Então você é a irmã do Henrique. – concluiu, como se tivesse decifrado um enigma.
- Como você…?
- Monteiro. O nariz arrebitado, a garota que se acha o centro do mundo. É óbvio.
Meu sangue ferveu. Nariz arrebitado? Me achar o centro do mundo?
- E você deve ser mais um filhinho de papai, que acha que todas as garotas vão cair aos seus pés.
Ele riu, genuinamente divertido, e isso me irritou mais ainda. Então ele estendeu a mão para mim.
- Diego Vasconcellos. Mas pode me chamar de playboy, se preferir.
Não, não, não. Tenho certeza que o meu rosto mostrou o assombro.
Meu corpo congelou. Diego Vasconcellos. O herdeiro recluso. O amigo que Henrique mencionava com um misto de respeito e cautela, eles estudaram juntos. O mesmo cujo nome surgia em colunas sociais ao lado de modelos e atrizes – sempre com a ressalva: "não procura compromisso".
- Ah. – foi tudo o que consegui dizer. Ele recolheu a mão, pois não a toquei.
Ele inclinou a cabeça, os olhos brilhando de malícia.
- Finalmente me reconheceu. Quer um autógrafo?
- Quero que você saia da minha frente.
Tentei passar por ele, mas ele bloqueou o meu caminho com o braço. O seu corpo era quente, mesmo através do tecido do terno, e o cheiro dele – madeira, whisky e algo intrinsecamente masculino – invadiu os meus sentidos.
- Você derramou a sua bebida em mim. – sussurrou, o rosto a centímetros do meu. – Acha que vai embora sem pagar?
- Que tal eu derramar o próximo na sua cabeça?
Ele soltou uma risada rouca, e o meu coração acelerou contra a minha vontade.
Foi quando Henrique apareceu no corredor, os olhos arregalados.
- Lívia? Diego? O que vocês…?
Diego recuou, mas o sorriso provocante não saiu do rosto.
- Sua irmã acabou... esbarrando em mim.
Henrique olhou para nós, desconfiado.
- Lívia, esse é Diego Vasconcellos. Meu sócio e o amigo de quem te falei. Diego, minha irmã, Lívia.
- Já nos apresentamos. – murmurei, sentindo o peso do olhar de Diego em mim.
- E foi um prazer. – ele completou, e pude ver a malícia nos seus olhos.
Henrique franziu a testa, mas antes que pudesse perguntar, Gustavo surgiu atrás dele, o rosto vermelho de raiva.
- Lívia! Você me deixou sozinho lá atrás!
Merda.
Diego observou a cena, os olhos piscando de entendimento.
- Ah. Então esse é o ex.
Gustavo parou, confuso, mas logo reconheceu Diego. O seu rosto empalideceu.
- S-Senhor Vasconcellos. Não sabia que vocês…
- Estávamos conversando. – Diego interrompeu, o tom gelado.
Gustavo engoliu seco e recuou. Como um cachorro com o r**o entre as pernas, voltando pelo mesmo caminho que veio.
Eu devia ter sentido alívio. Mas só conseguia pensar em uma coisa:
Quem diabos esse homem pensa que é?
Diego virou-se para mim, os lábios curvados em um sorriso que não chegava aos olhos.
- Até a próxima, Monteiro.
E então ele foi embora, deixando para trás o cheiro do seu perfume, o caos na minha cabeça e um Henrique me encarando de maneira desconfiada.
Ódio. Era o que eu devia sentir.
Então por que eu sentia outra coisa!