Capítulo 3

938 Words
Lívia Monteiro Quando cheguei em casa, fui direto para o escritório de Henrique onde ele me esperava. Ele estava de pé na varanda, mas se virou assim que entrei como um furacão. - Você sabe que eu não fiz isso, né? – joguei o celular no sofá, onde a tela ainda mostrava o vídeo editado da Lady do Caos. – aquele onde eu supostamente era culpada por Ana Clara ter se machucado. Henrique virou-se devagar. Nos olhos dele, eu li tudo: cálculo, cansaço, aquela obsessão por controle que sempre nos separou. - Já falei com nossos advogados. Temos duas opções. - Deixa adivinhar. – cruzei os braços. – A primeira é processar essa tal Lady do Caos até ela virar pó, mesmo sem nem saber que ela é. - E a segunda é você assumir publicamente um relacionamento com Gustavo. – ele foi direto. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que eu ouvi o tique-taque do relógio da parede. - Tá brincando comigo. - Ele é a única testemunha do "acidente", Lívia. Se ele disser que foi um m*l-entendido… Você se livra desse processo. - Ele mentiu na delegacia! – gritei, avançando para ele. – Gustavo sabe que eu sou inocente! Ele só quer me encurralar! Henrique apertou os olhos. - E você acha que eu não sei disso? A resposta me pegou de surpresa. - Então por que...? - Porque às vezes jogamos o jogo deles pra ganhar. – ele diminuiu a distância entre nós, a voz baixa e áspera. – Você assina um contrato de seis meses com ele. Fazem uns jantares, uns posts juntos. Depois do processo, vocês "terminam". Eu te ajudo a se livrar dele depois. Sacudi a cabeça, engasgando com a raiva. - Você está me pedindo para me vender. - Estou te pedindo para ser esperta. – a mão dele fechou no meu pulso. – Ou você prefere que aquele vídeo circule nos estúdios de moda antes mesmo da sua primeira sessão de fotos? Aquilo doeu. Porque ele sabia onde cutucar. A Agence Noir, o contrato, a minha chance de ser alguém além de "a irmã do Henrique Monteiro". Tudo podia desaparecer com um clique. E como ele sabia que a agência entrou em contato? Soltei o meu braço com um puxão. - Nunca. Gustavo é um manipulador, e você está cego por causa dessa sua mania de controlar tudo. Você só não quer perder alguns milhões na empresa, caramba Henrique eu sou sua irmã, você deveria me proteger. – quase gritei essa última parte com ele. - E você é ingênua! – ele rugiu, batendo a mão na mesa. – O mundo não é um conto de fadas, Lívia! Às vezes a gente faz concessões para sobreviver! E eu estou fazendo de tudo para te proteger. Fiquei parada, tremendo. Foi quando percebi: não era só sobre mim. Era sobre ele. Sobre o medo dele de perder o controle, de falhar como "o homem da família" ou “homem de negócios”. - Eu não vou ser a moeda de troca de ninguém. – sussurrei. – Nem sua, nem dele. Virei as costas antes que ele pudesse responder. {...} Alguns Dias Depois: O vestido preto colava no meu corpo como uma segunda pele, e o espelho do meu quarto refletia uma Lívia que eu m*l reconhecia. Formada. A palavra ecoava na minha cabeça, mas o gosto era amargo. Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida, e no entanto, eu só conseguia pensar em uma coisa: Henrique convidou Gustavo para o jantar. Traição. Pura e simples. A maquiagem estava impecável – destaquei os olhos e a boca. Fiz um coque despojado que deixava os meus cabelos caírem em mechas rebeldes, como se o meu cabelo se recusasse a se conformar. Escutei batidas na porta. - Pode entrar. Henrique apareceu no vão, trajando um terno azul-marinho que fazia os seus ombros parecerem ainda mais largos. Ele me estudou por um segundo, com os olhos escuros suavizando. - Você está linda. Eu suspirei, pois estava cansada de ficar nesse clima com meu irmão, no momento ele é a única família que tenho aqui. E antes que eu pudesse pensar direito as palavras saíram: - Queria que a mamãe estivesse aqui. Ele parou, a expressão endurecendo por um instante antes, mas seus olhos suavizaram. - Eu sei. Mas onde ela está, ela está bem. Tenho certeza que ela estaria orgulhosa de você hoje. O meu peito apertou. A nossa mãe estava em uma clínica, depois da morte do nosso pai as coisas ficaram difíceis para ela. - Sinto tanta falta dela. – sussurrei, surpresa com a vulnerabilidade na minha própria voz. Henrique se aproximou encurtando a distância entre nós em dois passos, envolvendo-me em um abraço que cheirava a seu perfume caro e a algo que eu m*l lembrava: proteção. - Eu sei, Lívia. Mas eu estou aqui. E vou fazer de tudo para cuidar de você. Eu me afastei, os olhos ardendo. - Até me jogar nos braços do Gustavo, né? Ele suspirou, a máscara do magnata impenetrável voltando ao lugar. - Lívia, você não entende o quanto esse processo pode… - Vamos indo. – interrompi, pegando a minha bolsa. – Não quero chegar atrasada na minha formatura. Ele hesitou, mas acabou concordando com a cabeça. No carro, ele soltou a bomba: - Chamei alguns acionistas para o jantar. E o Diego. O meu coração deu um salto, eu sabia que não seria apenas um jantar de comemoração, Henrique não perderia a chance de chamar os acionistas da empresa e alguns sócios de negócios. Mas Diego, eu não esperava.
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