Lívia Monteiro
Quando cheguei em casa, fui direto para o escritório de Henrique onde ele me esperava. Ele estava de pé na varanda, mas se virou assim que entrei como um furacão.
- Você sabe que eu não fiz isso, né? – joguei o celular no sofá, onde a tela ainda mostrava o vídeo editado da Lady do Caos. – aquele onde eu supostamente era culpada por Ana Clara ter se machucado.
Henrique virou-se devagar. Nos olhos dele, eu li tudo: cálculo, cansaço, aquela obsessão por controle que sempre nos separou.
- Já falei com nossos advogados. Temos duas opções.
- Deixa adivinhar. – cruzei os braços. – A primeira é processar essa tal Lady do Caos até ela virar pó, mesmo sem nem saber que ela é.
- E a segunda é você assumir publicamente um relacionamento com Gustavo. – ele foi direto.
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que eu ouvi o tique-taque do relógio da parede.
- Tá brincando comigo.
- Ele é a única testemunha do "acidente", Lívia. Se ele disser que foi um m*l-entendido… Você se livra desse processo.
- Ele mentiu na delegacia! – gritei, avançando para ele. – Gustavo sabe que eu sou inocente! Ele só quer me encurralar!
Henrique apertou os olhos.
- E você acha que eu não sei disso?
A resposta me pegou de surpresa.
- Então por que...?
- Porque às vezes jogamos o jogo deles pra ganhar. – ele diminuiu a distância entre nós, a voz baixa e áspera. – Você assina um contrato de seis meses com ele. Fazem uns jantares, uns posts juntos. Depois do processo, vocês "terminam". Eu te ajudo a se livrar dele depois.
Sacudi a cabeça, engasgando com a raiva.
- Você está me pedindo para me vender.
- Estou te pedindo para ser esperta. – a mão dele fechou no meu pulso. – Ou você prefere que aquele vídeo circule nos estúdios de moda antes mesmo da sua primeira sessão de fotos?
Aquilo doeu. Porque ele sabia onde cutucar. A Agence Noir, o contrato, a minha chance de ser alguém além de "a irmã do Henrique Monteiro". Tudo podia desaparecer com um clique. E como ele sabia que a agência entrou em contato?
Soltei o meu braço com um puxão.
- Nunca. Gustavo é um manipulador, e você está cego por causa dessa sua mania de controlar tudo. Você só não quer perder alguns milhões na empresa, caramba Henrique eu sou sua irmã, você deveria me proteger. – quase gritei essa última parte com ele.
- E você é ingênua! – ele rugiu, batendo a mão na mesa. – O mundo não é um conto de fadas, Lívia! Às vezes a gente faz concessões para sobreviver! E eu estou fazendo de tudo para te proteger.
Fiquei parada, tremendo. Foi quando percebi: não era só sobre mim. Era sobre ele. Sobre o medo dele de perder o controle, de falhar como "o homem da família" ou “homem de negócios”.
- Eu não vou ser a moeda de troca de ninguém. – sussurrei. – Nem sua, nem dele.
Virei as costas antes que ele pudesse responder.
{...}
Alguns Dias Depois:
O vestido preto colava no meu corpo como uma segunda pele, e o espelho do meu quarto refletia uma Lívia que eu m*l reconhecia. Formada. A palavra ecoava na minha cabeça, mas o gosto era amargo. Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida, e no entanto, eu só conseguia pensar em uma coisa:
Henrique convidou Gustavo para o jantar.
Traição. Pura e simples.
A maquiagem estava impecável – destaquei os olhos e a boca. Fiz um coque despojado que deixava os meus cabelos caírem em mechas rebeldes, como se o meu cabelo se recusasse a se conformar.
Escutei batidas na porta.
- Pode entrar.
Henrique apareceu no vão, trajando um terno azul-marinho que fazia os seus ombros parecerem ainda mais largos. Ele me estudou por um segundo, com os olhos escuros suavizando.
- Você está linda.
Eu suspirei, pois estava cansada de ficar nesse clima com meu irmão, no momento ele é a única família que tenho aqui. E antes que eu pudesse pensar direito as palavras saíram:
- Queria que a mamãe estivesse aqui.
Ele parou, a expressão endurecendo por um instante antes, mas seus olhos suavizaram.
- Eu sei. Mas onde ela está, ela está bem. Tenho certeza que ela estaria orgulhosa de você hoje.
O meu peito apertou. A nossa mãe estava em uma clínica, depois da morte do nosso pai as coisas ficaram difíceis para ela.
- Sinto tanta falta dela. – sussurrei, surpresa com a vulnerabilidade na minha própria voz.
Henrique se aproximou encurtando a distância entre nós em dois passos, envolvendo-me em um abraço que cheirava a seu perfume caro e a algo que eu m*l lembrava: proteção.
- Eu sei, Lívia. Mas eu estou aqui. E vou fazer de tudo para cuidar de você.
Eu me afastei, os olhos ardendo.
- Até me jogar nos braços do Gustavo, né?
Ele suspirou, a máscara do magnata impenetrável voltando ao lugar.
- Lívia, você não entende o quanto esse processo pode…
- Vamos indo. – interrompi, pegando a minha bolsa. – Não quero chegar atrasada na minha formatura.
Ele hesitou, mas acabou concordando com a cabeça.
No carro, ele soltou a bomba:
- Chamei alguns acionistas para o jantar. E o Diego.
O meu coração deu um salto, eu sabia que não seria apenas um jantar de comemoração, Henrique não perderia a chance de chamar os acionistas da empresa e alguns sócios de negócios. Mas Diego, eu não esperava.