Capítulo 4

1160 Words
Lívia Monteiro Desde aquela noite no hotel, ele não saía da minha cabeça. Os seus olhos âmbar, a voz rouca, o jeito que ele me olhava como se eu fosse um enigma que ele queria desvendar – e, ao mesmo tempo, como se eu fosse a coisa mais irritante que ele já viu. Eu devia estar louca. - Tudo bem. – menti, olhando pela janela. Quando chegamos ao local, fui encontrar o pessoal, e Henrique foi se sentar com os convidados que era a família dos estudantes. Vesti a beca, cumprimentei colegas cujos nomes m*l lembrava, e sorri quando me chamaram para receber o canudo. O momento em que peguei o símbolo da minha formatura deveria ter sido mágico. Era o meu futuro, a prova de que eu era mais do que apenas a irmã mimada de Henrique Monteiro. Mas quando olhei para a plateia e vi Gustavo sentado ao lado do meu irmão, sorrindo como um tubarão, tudo desmoronou. Eu mereço mais do que isso. Eduarda apareceu ao meu lado depois, tão impecável quanto sempre, com seu vestido verde-esmeralda e um sorriso que não chegava aos olhos. - A sua família não veio? – perguntei, tentando ignorar o nó no meu estômago. - Eles... estão ocupados. Algo na voz dela me fez olhar mais de perto, mas ela já estava virando o rosto. Henrique nos encontrou depois, e seguimos para a casa onde o jantar seria realizado. O carro parecia minúsculo com a tensão pairando entre nós. - Por favor, Lívia. – ele disse antes de sairmos. – Não faça cenas hoje. Eu apenas balancei a cabeça. Era para ser meu dia importante, mas Henrique transformou isso em negócios. Convidados circulavam com taças de champanhe, e garçons serviam petiscos que custavam mais do que o salário mensal da maioria das pessoas. Henrique foi direto para um grupo de homens de terno – e então eu o vi. Diego. Ele estava de pé perto da lareira, com um copo de whisky na mão, conversando com um dos acionistas. Como se sentisse o meu olhar, ele levantou a cabeça. Os nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo que pareceu durar uma eternidade. Ele levantou o copo na minha direção, um sorriso sardônico tocando os seus lábios. Eu balancei a cabeça, desviando o olhar. - Não olha agora. – Eduarda sussurrou, cutucando o meu braço. – Mas o Gustavo está vindo pra cá. Merda. Antes que eu pudesse fugir, ele estava lá, com o seu sorriso de quem sabia que tinha vantagem. - Oi, Lívia. - Oi. Eduarda, percebendo meu desconforto, interveio: - Como vai, Gustavo? Ele desviou o olhar para ela, e eu aproveitei para murmurar: - Amiga, vou ao banheiro. Já volto. Saí antes que ele pudesse responder, caminhando rápido o suficiente para parecer determinada, mas não tanto a ponto de chamar atenção. O banheiro foi um refúgio por exatos cinco minutos. Cinco minutos em que eu respirei fundo, encarando o meu próprio reflexo no espelho. Você consegue passar por isso. Quando saí, o corredor estava vazio. Respirei aliviada, mas em vez de voltar para a sala, desviei para a varanda. O ar noturno estava fresco contra a minha pele, e as estrelas brilhavam como diamantes espalhados sobre o veludo. Por um momento, eu quase consegui esquecer todos os meus problemas... Então escutei passos atrás de mim. - Fugindo da festa, princesa? Era Gustavo! Eu me virei, encontrando o seu sorriso de predador. Ele estava mais perto do que deveria, o cheiro do seu perfume – aquele mesmo que eu costumava amar – agora me dando náuseas. - Gustavo, por favor. Não agora. - Quando, então? – ele avançou, me encurralando contra a parede. – Você acha que pode me ignorar pra sempre? O seu hálito cheirava a uísque, e os seus olhos estavam vidrados. Eu tenho certeza que ele tinha usado algo. - Se afasta de mim. Agora! – ordenei. Ele riu, como se o que tivesse falado fosse apenas uma piada. - Ou o quê? Vai me empurrar como fez com a Ana Clara? Como ele ousa. - Eu nunca toquei nela! E você sabe disso. – gritei, as minhas mãos tremendo com uma raiva que m*l conseguia controlar. - Eu sei. – ele inclinou-se ainda mais perto, a sua mão agarrando o meu pulso. – Mas todo mundo acredita que você é culpada. E sabe de uma coisa? Se você não voltar para mim, eu vou garantir que essa história nunca morra. Nojo e medo subiram pela minha garganta. Eu tentei puxar o meu braço, mas sua mão estava firme em mim. - Me solta seu babaca. - Faz eu soltar. Foi então que algo dentro de mim estalou. O meu punho fechou e, com toda a força que tinha, eu o acertei bem no queixo. Gustavo soltou um grunhido, recuando com a mão no rosto. Os seus olhos escureceram de fúria. - Sua filha da püta. Ele avançou, mas antes que pudesse me tocar, uma figura alta surgiu da escuridão, agarrando Gustavo pelo colarinho e puxando-o para trás como se ele não pesasse mais que um saco de batatas. Diego. - Acho que a moça disse não. – a sua voz era calma, quase gentil, mas havia algo nela que fez até os meus ossos tremerem. Gustavo engoliu seco, reconhecendo-o imediatamente. - Vasconcellos. Isso não é da sua conta. - É da minha conta quando vejo um homem assediando uma mulher. – Diego puxou-o mais para trás, a sua voz caindo para um sussurro mortal. – E se você sequer olhar para ela de novo, eu vou fazer você desaparecer de uma forma que nem sua mãe vai chorar o seu sumiço. Entendeu? Gustavo empalideceu. Ele abriu a boca para responder, mas Diego já estava empurrando-o em direção à porta. - Sai logo daqui. Antes que eu mude de ideia e acabe com você aqui mesmo. Gustavo não precisou ser avisado duas vezes. Quando ele se foi, o silêncio que ficou foi quase pior. Eu tremia, o meu pulso doía, e então o desespero começou a tomar conta de mim. - Você está bem? – Diego perguntou, sua voz mais suave agora. Eu balancei a cabeça, mas as palavras não saíram. Tudo o que eu conseguia pensar era: Isso vai piorar tudo. Isso vai virar contra mim que nem Henrique, nem os seus advogados conseguiram reverter. - Lívia. – Diego tocou o meu queixo gentilmente, forçando-me a olhar para ele. os seus olhos eram sérios, mas não irados. – Respira. Eu soltei um suspiro trêmulo. - Ele vai usar isso contra mim. Todo mundo já acha que eu empurrei aquela garota contra o carro, e isso… – eu m*l conseguia completar as palavras. - Não vai. – Diego disse com tanta certeza. - Como você pode ter tanta certeza? Ele sorriu, um gesto pequeno e perigoso. - Porque eu não vou deixar. E pela primeira vez desde que tudo começou, eu acreditei em alguém.
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