Diego Vasconcellos
Voltei para o Brasil com um único objetivo: tomar o que era meu por direito.
Meu progenitor, já não tinha condições de comandar p***a nenhuma. Quando a minha tia ligou, dizendo que eu precisava assumir os negócios da família, quase ri na cara dela.
Como se eu precisasse de algo daquele homem.
A única coisa boa que ele fez por mim foi me manter longe. Longe dos seus negócios sujos, das suas mentiras, da forma como ele destruía tudo o que tocava – incluindo a minha mãe. Mas agora, com a doença corroendo cada pedaço dele, o velho resolveu brincar de Deus uma última vez.
Colocou uma cláusula no testamento: só herdaria tudo se me casasse e tivesse um filho.
Um herdeiro.
Como se eu fosse repetir o ciclo de merda que ele criou.
Quando voltei ao Brasil, escolhi um hotel para ficar. A mansão da família Vasconcellos, com suas paredes silenciosas e lembranças sufocantes, era o último lugar onde eu queria estar. Pelo menos por enquanto. Aquela casa ainda tinha o cheiro de sangue seco das feridas que meu pai abriu em todos nós. Em mim.
No dia da minha chegada, encontrei Henrique no bar do hotel. Ele bebia uísque como se estivesse apagando incêndios internos.
- Monteiro. – cumprimentei, sentando-me ao seu lado.
Ele ergueu a taça, os olhos escuros cansados.
- Vasconcellos. Ainda bem que você veio. Precisamos falar sobre a fusão.
Foi assim que começou. Negócios, como sempre. Henrique e eu nos entendíamos nisso. Nos conhecemos desde Oxford, onde ambos éramos os únicos brasileiros dispostos a enfrentar a elite britânica com o mesmo cinismo. Descobrimos depois que éramos praticamente vizinhos no Rio – ironia do destino.
Mas naquela noite, algo mudou. Eu recebi uma ligação importante e fui atender em dos corredores do hotel, e quando estava guardando o celular, alguém esbarrou em mim, ela esbarrou.
Lívia Monteiro. Irmã de Henrique. Uma tempestade em forma de mulher que esbarrou em mim como um furacão, derramando champanhe no meu terno e me olhando como se eu fosse o lixo da sola do sapato dela.
Aquela garota não abaixava a cabeça para ninguém. Tinha olhos castanhos que cintilavam com fogo quando estava brava, uma boca que desafiava qualquer homem a tentar calá-la, e uma teimosia que me fez querer prová-la de todas as formas possíveis.
Lívia Monteiro
Hoje acordei com uma sensação boa, apesar de tudo estar desmoronando.
Tomei um banho relaxante, deixando a água morna lavar a memória da noite passada – Gustavo me encurralando, aquele esbarrão ridículo com Diego Vasconcellos, a expressão de Henrique quando nos encontrou no corredor. Enquanto me secava, olhei no espelho: olheiras fundas, mas um brilho teimoso no olhar. Eu não estava derrotada, eu estava bem apesar de tudo.
Vesti um vestido leve de algodão branco, decotado nas costas – fresco para o calor de 40 graus do Rio – e amarrei o cabelo num r**o de cavalo desleixado. Normal. Como se a minha vida não estivesse prestes a virar um filme de terror.
Foi quando o celular tocou.
Quase o joguei pela janela.
- Alô?
- Lívia Monteiro? Falamos da Agence Noir. Você passou no teste para a campanha de lingerie. Queremos você.
O ar saiu dos meus pulmões. Eu passei. Aquela entrevista que fiz semanas atrás, depois de implorar para Henrique me deixar tentar algo sozinha, sem o sobrenome Monteiro abrindo portas. E agora…
- Quando? – a minha voz soou rouca.
- Hoje. Assinamos o contrato e começamos os preparativos.
Desliguei e deixei escapar um riso abafado e comecei a dançar, era assim que eu me expressava quando algo dava certo e eu estava feliz. E finalmente algo estava dando certo.
{...}
O café cheirava a grãos torrados e tinha um cheiro doce.
Eu me encolhi na cadeira de madeira do local simples no Centro do Rio, tentando ignorar o suor escorrendo pelas minhas costas. O vestido de alcinha branco – um dos poucos que ainda me fazia sentir normal – já estava grudado na pele. Até o ar-condicionado parecia conspirar contra mim hoje.
- Então? – ela cutucou, os dedos batendo na mesa. – Você vai me contar o porque está sorrindo pra tela do celular desde que chegou ou vou ter que adivinhar?
Engoli o gole amargo antes de responder, tentando disfarçar o sorriso.
- A Agence Noir me chamou. Passei no teste para uma campanha de lingerie.
O garfo de Eduarda tilintou contra o prato.
- O quê? Quando?
- Hoje de manhã. Vou assinar o contrato ainda esta tarde.
Ela ficou parada por um segundo, os olhos escuros dilatando. Depois, forçou um sorriso que não chegou perto dos olhos.
- Nossa, que... inesperado. Você nem treina modelagem direito.
O tom dela era leve, mas a faca estava lá. Eu preferi fingir que não senti o corte.
- Foi sorte, eu acho. O diretor gostou do “meu perfil”. – fiz aspas no ar, rindo.
- Claro. O seu perfil. – Eduarda enrolou a palavra na língua, bebendo um gole do suco. – Mas lingerie? Você está confortável com isso? Seu irmão vai...
- Meu irmão não decide mais nada da minha vida.
Ela ergueu as sobrancelhas, mas não discutiu. Em vez disso, os dedos dela começaram a tamborilar no celular — rápido, nervoso.
- Quanto irão te pagar?
- Eduarda… – fiquei desconfortável com a pergunta dela.
- O quê? É só curiosidade! – ela riu, alto demais. – A gente sempre sonhou em trabalhar juntas em algo glamouroso, lembra?
Nós nunca sonhamos com isso. Ela sim. Eu só queria sobreviver à faculdade sem Henrique interferindo. Mas eu acenei, fingindo lembrar.
- É um valor bom. Dá para eu me sustentar sozinha, se precisar.
- Quanto, Lívia?
O jeito que ela disse o meu nome fez o meu pescoço arrepiar. Foi quando eu percebi: ela estava verde de inveja. Os nós dos dedos dela brancos de tanto apertar a xícara, a mandíbula tensionada.
Mas eu escolhi ignorar.
- Não sei ainda. Vamos fechar o contrato hoje.
Ela soltou um "ah" vazio e mudou de assunto abruptamente:
- Então me conta tudo sobre o tal Diego Vasconcellos.
Eu revirei os olhos.
- Não tem o que contar. Ele é só mais um i****a rico que acha que o mundo gira em volta dele.
Ela riu, limpando o batom vermelho da borda do copo.
- Você tá falando como se ele tivesse cuspido no seu nome.
- Quase isso. murmurei, lembrando da voz gelada dele: "Acha que esbarrar em mim é uma estratégia eficaz?"
- Mas ele é gostoso, né? – ela me cutucou, os olhos brilhando.
Parei com o garfo no meio do bolo de chocolate. Por que diabos ela perguntou isso?
- Não importa como ele é. Odeio gente que se acha.
- Claro, claro… Mas você vai ter que conviver com ele. Henrique disse que são sócios agora, não é? – é Henrique tinha falado isso ontem, e acabei comentando com ela.
- Ótimo. Mais um homem pra me tratar como um troféu.
Eduarda ficou quieta por um segundo, os dedos traçando a borda do copo.
- E… você vai voltar com o Gustavo?
O meu estômago revirou.
- Nunca!
- Mas ele pode ajudar com… você sabe. O processo.
Ah, sim. O "processo".
A tal Ana Clara ela e os pais estavam me processando por algo que não fiz. E tinha as fotos… Deus, as fotos. Eu a puxei pelo braço durante a discussão, sim, mas foi para impedir que ela batesse em mim, e quando ela se desequilibrou eu tentei ajudar. Só que o ângulo mostrou algo diferente: eu, de boca aberta, braço esticado, e ela caindo na direção da rua.
Eu não preciso do Gustavo para provar que sou inocente.
- Mas ele é testemunha, Lívia. Ele viu tudo.
- Ele mentiu! Disse que não lembrava direito quando a polícia perguntou.
Eduarda baixou os olhos.
- Ele te ajudou com o seu emprego, né? – perguntei, mudando de assunto.
Ela ficou rígida.
- Foi só uma indicação. Nada demais.
Estranho. Eduarda nunca ficava desconfortável com nenhum assunto.
- Olha, só tome cuidado com ele. – murmurei. – Ele não é uma pessoa confiável.
Ela não respondeu, mas seus dedos apertaram o copo com força
Foi quando o meu celular vibrou. Uma notificação do i********::
@ladydocaos acabou de postar.
A foto era minha, tirada na festa ontem. Sorrindo para Gustavo. Com a seguinte legenda:
"Lívia Monteiro: inocente ou manipuladora? Será que ela é mesmo culpada, a pobre Ana Clara sua vítima?
Merda.
Eduarda olhou para a tela e os seus olhos se arregalaram.
- Lívia…
- É mentira! Isso tudo é mentira! – a minha voz saiu mais alta do que eu queria. Alguns clientes viraram para olhar.
- Eu sei, eu sei. – ela disse, baixinho. – Mas… você precisa de ajuda.
- Não do tipo de ajuda que Gustavo quer me dar.
Eduarda olhou para o relógio.
- Preciso ir. O meu turno começa em vinte minutos.
Assenti, ainda com os dedos trêmulos. Quando ela saiu, fiquei ali, olhando para a foto. Quem seria essa @ladydocaos? Alguém pago pelo Gustavo? Uma inimiga aleatória?
O meu celular tocou de novo. Era Henrique.
- Lívia. Onde você está?
- No centro. Por quê?
- Volte para casa. Agora. Acabaram de vazar um vídeo seu na página da Lady do Caos.
- Que vídeo?!
- Aquele dia na boate. Com Ana Clara.
O sangue gelou nas minhas veias. Não existia vídeo. A menos que… a menos que alguém tivesse filmado tudo.
- Henrique, eu juro que não fiz nada!
- Eu sei. Mas o mundo não. Volte. Agora!
Desliguei, com o coração batendo tão forte que achei que iria explodir. Paguei a conta correndo e saí para a rua, o calor do asfalto queimando os meus pés sobre as sandálias.
Foi quando ele me atravessou os pensamentos.
Diego.
Aquele olhar de âmbar, o jeito que ele me encarava como se eu fosse um desafio. A voz rouca quando disse "Até a próxima, Monteiro".
Por que diabos eu estava pensando nele agora?
Eu nem o conhecia. Era só um esnobe que achava que eu era mais uma interesseira.
Mas então… por que o meu corpo parecia lembrar do calor dele no corredor?
- i****a. – gritei baixo, entrando no táxi.
Mas não sabia se estava falando de Diego… ou de mim mesma.