Alguns dias depois...
**Lavínia narrando**
Termino de vestir minha roupa de educação física e vejo o exagero das meninas usando shorts praticamente na testa.
Andamos para a quadra e o professor já apita, nos deixando surdos:
— Hoje faremos escalada na parede. Dividam-se em dois times, um contra o outro — ele diz, e a tal Espencer começa a escolher pessoas com um menino.
— Lavínia, vem amiga — ela me chama, e ando até ela, vendo o Matteo ir para o time rival.
— Vamos lá, começando com Sthefany e Rubens — vejo-os andarem até a parede, e Sthefany faz drama.
— Professor, minha mão está escorregando. Vou me machucar.
— Anda logo, menina. Seu time já está perdendo.
Reviro os olhos, me segurando para não falar nada.
**[***]**
Chega minha vez. Passo o pó de magnésio na mão e me preparo para subir, vendo Matteo ao meu lado. Nos amarramos na corda de segurança.
O professor apita, e disparo na frente escalando. Matteo puxa meu pé, e o time dele comemora.
— Vale isso, professor? — Sthefany pergunta, mas ele dá de ombros.
Matteo me puxa de novo, e tento ignorar para não perder a cabeça com coisa tola.
— Derruba ela — mandam, e quando ele puxa meu sapato, perco a paciência. Chuto sua mão, fazendo-o perder o equilíbrio por segundos.
Sigo escalando, e ele tenta me derrubar com seu corpo. Quando estou quase no fim, já sem paciência, empurro-o com uma mão, fazendo-o cair pela parede, mesmo com a corda o prendendo.
Ele fica igual a uma aranha presa. Toco o sino do final, me solto segurando na escola e caio em pé no colchão de segurança.
Matteo tenta se soltar, furioso. Bebo água tranquilamente, vendo-o ser segurado por todos. Se ele vier para cima, que venha.
Ele se solta e coloca a garrafa no banco, cruzando os braços e me encarando.
— O que foi?
— Você me derrubou. Está maluca? Quer me matar?
— Olha só, você começou com brincadeiras idiotas que poderiam ter me machucado. Sabe que não gosto de brincadeirinhas. Nem entendo você. Diz para fingir que não existe e depois fica me enchendo o saco.
— Eu te enchendo o saco? Foi uma tentativa de socialização, cazzo. Queria ver se podíamos tentar ser amigos, e você me derruba? Não consegue ser normal nem aqui?
— Normal? Você é um i****a, pelo amor di Dio. Se decida primeiro.
— Me decidir? Falou a menina que não conseguiu escolher uma pessoa só, queria duas e ainda me envergonhou para o resto da vida. Você é ridícula.
Bato em seu rosto por impulso. Com o barulho, todos se assustam. Aproximo-me, colocando o dedo em seu rosto.
— Nunca mais fale algo de mim. Nunca mais — viro-me, mas ele puxa meu braço e bato em sua mão. — Agora eu que não quero contato algum. Sabe do que sou capaz. Se encostar ou olhar para mim, eu te mato.
— Você perdeu a noção do perigo, garota? Esse é o mundo normal, e aqui você não tem poder.
— LAVÍNIA — Brad grita da porta e corre até nós. — Oi, professor. Com licença, eu e meu amorzinho temos que falar.
— Estou bem aqui.
— Não está — ele me puxa pelas pernas e me joga no ombro.
— Brad, que cena ridícula. Me coloca no chão — ordeno, e ele n**a, correndo para fora. Ele me coloca no chão perto do vestiário, olhando ao redor preocupado.
— Você está doida? Brigando e falando coisas pessoais na frente de todos?
— Ele me provocou, e acabei o empurrando. Mas ele que surtou e...
— E nada. Você é a Cordopatri da Camorra. Tem que se controlar e não avançar, não aqui pelo menos. E se falasse mais coisas? Soube porque o boato de briga chegou na minha sala. A essa altura, o diretor já sabe, e sua mãe também.
— p**a merda — passo a mão no rosto, preocupada.
— Senhorita Lavínia Spellman, me acompanhe até minha sala agora — o diretor diz, chegando. Assinto, abraçando o Brad antes de ir.
— Você avisou minhas mães?
— Sim, elas já estão chegando. Sente-se aqui — ele diz, e vejo Matteo no banco em frente.
**[***]**
Minhas mães chegam, e engulo em seco ao ver o olhar da dona Cecília em minha direção, duro e com raiva.
Vejo meu tio logo atrás, correndo com uma cara furiosa, mas não sinto medo dele. Ele pode ter fama de ótimo mafioso, mas sei que a falta de prática o deixa mais fraco. Mas minha mãe...
O diretor nos pede para entrar, e me sento ao lado delas.
— Bem, o professor disse que houve provocação no exercício da parte dele, e a senhorita Spellman acabou o empurrando e derrubando da parede de escalada.
— Quebrou algo? — meu tio pergunta para Matteo, que n**a. — Então por que estou aqui? Ele não chorou nem realmente se machucou.
— Ele começou uma discussão contra ela, que obteve resposta. Ele devolveu com p************s, e a mocinha acabou dando um tapa nele — minha mãe me olha, e não digo nada. — Por isso, acho adequado alguns dias de suspensão para acalmarem os ânimos e voltarem mais calmos.
— Resolveremos em casa, muito obrigada — minha mãe Alice diz educada, e saímos na frente.
Ando na frente delas, com medo do que vão falar, e sinto o primeiro tapa da minha mãe Cecília.
— Aonde você estava com a cabeça? O diretor me mostrou nas filmagens o que você disse, sua i*****l. Precisará de torturas para aprender a calar a boca, menina? — levo mais um tapa, e ela aperta meu braço, me puxando para fora.
Olho para trás, vendo meu tio e Matteo me olharem preocupados. Eles nem imaginam o que já fiz. Se for apenas mais uma surra, estará tudo bem.
**[***]**
Algumas horas depois...
Abrem a porta do porão escuro e gelado, e minha mãe Alice entra com o olhar triste. Ela traz uma bandeja de remédios e gazes com água.
— Ela não... — ela começa com o mesmo discurso de sempre.
— Ela sabe o que faz, mãe, e ela ter sofrido na infância não justifica fazer o mesmo agora — pego o comprimido e engulo a seco.
Ela se ajoelha ao meu lado, limpando os cortes em meus braços, e chora ao ver os roxos neles e em minha perna. Ela olha para meu rosto e, mesmo com a escuridão, consegue ver os pequenos cortes dos anéis.
— Está com fome? — ela pergunta, limpando o sangue seco.
— Sem comida e nem água ainda. O que faz aqui, Alice? Saia — minha mãe chega com seu terninho branco e salto alto. Minha outra mãe beija minha cabeça e sai de cabeça baixa.
Ela pode ser dona da máfia também, mas nada está acima da poderosa Cecília.
Minha mãe se aproxima e segura firme em meu maxilar.
— Você sabe que isso é para o seu bem. Não conseguiu fechar a boca na merda da sua escola. Imagine se tivesse falado algo pior — abaixo o olhar, e ela aperta mais. — Não desvie o olhar de mim.
— Desculpa.
— Você ficará aqui todos os dias da sua suspensão e até que eu ache que aprendeu. Se abriu a boca em uma escola, imagine se te sequestrassem e torturassem.
Ela se ergue, indo embora e batendo a porta, me deixando no escuro. Deito-me, sem ter algo melhor para fazer. Pelo menos o gelo ajuda na dor.