Beijos na Piscina

1183 Words
Alguns momentos depois... **Lavínia narrando** Jogo o celular na cômoda e saio do quarto para falar com meu tio. Paro no corredor ao ouvir a discussão entre ele e minha mãe, que estão gritando: — VOCÊ É IGUAL A ELE! — NÃO ME ACUSE DE SER IGUAL AQUELE MONSTRO! — Cecília, você está fazendo o mesmo que ele fazia: torturas, machucados, exigências e violência. Quer que ela cresça igual a nós? — ele começa a falar em tom normal. — Por que não? Sou uma ótima líder da Camorra hoje. — Fora disso, você não é nem um pouco sequelada, né? — Ando até as escadas, e eles me olham. — Está tudo bem? — pergunto, e ele anda até mim, me abraçando. — Tudo, querida. Só vim falar com sua mãe, mas já estou indo. O que acha de treinarmos amanhã na Camorra? — Te encontro lá. Pronto para perder novamente? — Que perder, pirralha! Eu só estava enferrujado aquele dia. Me respeita, menina. — Amanhã você prova se é tudo isso mesmo. — Ele balança minha cabeça e me dá um beijo na testa antes de ir. — Está tudo bem, mãe? — pergunto, e ela limpa a única lágrima que tinha saído. — Estou bem. Vá para seu quarto, você tem aula amanhã — ela diz, se virando de costas. Ando até ela, a abraçando, e dou um beijo em suas costas antes de sair para meu quarto. **[...]** Entro no carro, morrendo de sono, e minha mãe Cecília me entrega uma caixinha. Estranho e abro. — É um presente de desculpa. Talvez eu tenha exagerado no seu castigo. Vejo que é uma pulseira de prata e sorrio, colocando-a no meu punho. — Ficou linda — ela diz, puxando minha cabeça para um beijo. — Agora vamos para a escola. **[...]** Caio no chão, suando, e dou risada do meu tio estar exausto em cinco minutos de luta. Me ergo já chutando, mas ele segura minhas pernas, fazendo cócegas. — Isso é covardia... para, tio — digo entre gargalhadas, e ele me solta, fazendo gracinha. — Cada um usa as armas que tem. Vamos lá, ainda estou bem — ele diz, pulando. — Valendo tudo? — pergunto, e ele assente. Sorrio, correndo até ele, escalando e sentando em seus ombros, impulsionando meu corpo para frente e o derrubando com tudo. — Morri, SAI DE CIMA DE MIM! — Rolo para o lado, rindo, e ele respira alto. — Está vivo? — me levanto, ajudando-o a se sentar, e ele respira cansado. — Estou ficando velho, mas se contar isso à sua tia, eu mato você. A Mia adora me provocar. — Mas está velho mesmo, olha os cabelos brancos — digo, fingindo ver, e ele se levanta correndo atrás de mim. — Você vai ver o cabelo branco. VOLTA AQUI! — ele puxa um fio de cabelo. — Você sabe que se puxar um branco, nascem dois no lugar, né? — Para de jogar mandinga em mim. — Me sento no tatame, bebendo água, e logo ele vem atrás. — Pulseira bonita — ele elogia, e olho para ela. — Minha mãe me deu hoje. Acho que a consciência pesou. — Ela pega pesado, né? — Às vezes, mas diz que ajuda a gente a se formar. — E a ter traumas. Ela está ficando igual ao nosso pai. A máfia faz isso — ele diz, triste, e quando não respondo, ele suspira, sorrindo. — Mas você gosta da Camorra, né? — Sim, tem pessoas muito boas por trás de tudo isso. Eu cresci ali e gosto deles de verdade. Nem parece que são mafiosos, na verdade. — Alguns são bons mesmo, mas nunca liguei para isso. Na época do meu pai, eu tinha muitos problemas e nem focava na máfia direito. — Meu avô era muito r**m? Só sei de algumas histórias. Dizem que ele matou um homem, mas antes arrancou toda a pele dele enquanto ele gritava, jogando-o no ácido ainda vivo. — Eu lembro disso. Foi porque um homem assobiou para sua avó Amélia na rua. Mas ele era muito r**m para toda a família Cordopatri. Escutamos batidas na porta, e Matteo abre, enfiando a cabeça para dentro. Estamos na casa do meu tio, na sua academia particular. Ele evita ao máximo ir para a Camorra. — Desculpa atrapalhar. Lavínia, podemos conversar? — Olho para meu tio, que faz sinal para eu levantar. — Tudo bem, já terminamos. Vou tomar banho, e o Matteo te indica um banheiro depois. Me levanto e o sigo pelo corredor até a piscina, onde nos sentamos na borda. — Pode falar — começo, e olho para ele, que desvia com vergonha. — Eu queria só ter certeza que me desculpou, porque por mensagem, né... — Tá tudo bem. Estamos sem problemas, ok? — Seguro em seu braço enquanto falo, e ele sorri. — Isso é muito bom. Sabe, eu passei a noite pesquisando e... — Arregalo os olhos, e ele se desconcerta. — Não... a noite toda não, só algum tempinho, sabe? Uns minutos, ou... Enfim, eu pesquisei uns filmes para assistirmos, e eu queria sua opinião. Assinto enquanto ele pega o celular no bolso. Olho por alguns segundos para sua boca. Larga de ser trouxa, Lavínia. Até esses dias vocês estavam discutindo e ele te xingando. — Aqui — ele mostra alguns filmes, e eu assinto, vendo os trailers. Sinto sua respiração em meu pescoço e olho para o lado, vendo que ele está mais próximo, me olhando. — O quê? — ia perguntar, mas ele segura meu pescoço e acaba com nossa distância, me beijando. Correspondo, meio assustada, mas em um momento apenas entro no embalo, esquecendo de tudo. Nos afastamos sem ar, e quando ia falar algo, meu celular toca. — É... — Pode atender — ele diz, sorrindo sem graça e coçando a nuca. Me levanto para atender um pouco longe, nunca sei o que minha mãe vai falar. Ligação on: — Filha, mandei o motorista te buscar na casa do seu tio. Precisamos de você aqui, então vá para a frente da casa — minha mãe Cecília diz. — Tudo bem, mãe. Aconteceu algo? — Nada de vida ou morte, mas ainda importante. Se despeça e venha. — Mas eu ia tomar banho pós-treino. — Em casa temos água e um chuveiro. Tchau — ela desliga rapidamente. Ligação off. Matteo já está de pé, e ando sem graça para perto dele. Damos ênfase de fala juntos e acabamos rindo disso. — Você tem que ir, né? — Sim, mas domingo a gente se vê no cinema, tá bom? — pergunto, e ele assente. — Tchau, Matteo. Me aproximo para beijar sua bochecha, mas ele vira o rosto, transformando em um selinho. Ignoro o fato, dando as costas e saindo, mas na porta ainda me viro, acenando. Dou gritinhos bobos de adolescente, que podem parecer ridículos e realmente são na verdade. Mas a Lavínia pequena, até ter uns onze anos mais ou menos, sonhava com esse momento, e mesmo sendo vergonhoso, o pós-beijo foi incrível o restante.
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