Capítulo 1- O Banquete dos Ossos
"Eu nasci assim."
Mentira. Ninguém nasce assim.
A gente é moldada pelo que sobra depois que o incêndio apaga. Eu costumava carregar o coração nas mãos, oferecendo-o como um banquete para quem estivesse com fome. Mas fui devorada, pedaço por pedaço, até sobrarem apenas os ossos.
"Lamento... eu não posso aceitar os teus sentimentos. Não gosto de ti desta forma."
Era a típica frase e o carimbo no passaporte da minha rejeição. Vinha de quase todos que flertavam comigo, no momento em que eu confessava que queria algo sério. Eu tinha um coração bobo, desses que acreditam quando alguém diz “confia em mim”. E eu confiava. Confiava com a facilidade de quem nunca tinha sido traída e com a coragem de quem ainda não sabia que promessas podem ser armas.
Dizem que me tornei “vagabunda”. m*l sabem que foram eles que me lapidaram assim.
A primeira vez que me chamaram de vagabunda foi num sussurro, por entre dentes. A segunda foi no meio de uma discussão feia. A terceira já foi sem medo — na frente de todo mundo, para quem quisesse ouvir.
Engraçado... porque a primeira pessoa que me rotulou assim foi a mesma que um dia jurou que me amava.
Na primeira vez, eu chorei até desidratar. Na segunda vez, eu só senti uma raiva que queimava a garganta. Na terceira... na terceira eu sorri. Sabem! Quando tu és sempre tratada por algo que você não é, acaba se tornando. Aprendi a sorrir com os olhos frios e entendi:
“Se o mundo exige que eu seja a vilã para não ser a vítima, vou lhes dar a melhor atuação de suas vidas”
Mas como chegamos aqui?
Aos 14 anos, dei o meu primeiro beijo no pátio da escola. O primeiro namoro é sempre aquele roteiro romântico de filme, até eu descobrir que eu era a "namorada da escola", enquanto existia a "do bairro" e a "de sei lá mais onde". Primeiro amor, primeiro término, primeira traição e primeira lição não aprendida.
Aos 15, fui pedida em namoro outra vez. Durou menos de um mês. Terminou do mesmo jeito que começou…como um sopro.
Aos 17, veio o beijo. O melhor deles. De língua, intenso, daqueles que nos filmes parecem nojentos, mas na prática deixam as pernas bambas, como se o paraíso estivesse próximo. Foi inesperado, e logo com meu amigo de infância. O tipo de beijo que arrepiava todas as noites só de lembrar. Foi marcante, foi real... até ele viajar para outro país e levar o que restava da minha fé no "para sempre".
Aos 18, eu decidi que gostar de alguém dava trabalho demais. Fechei a vitrine. Mas a vida gosta de pregar peças. Aos 19, eu estava sentada num banco de rua, olhando as estrelas, quando um jovem apareceu do nada bem na minha frente.
Eu ainda não sabia, mas ele seria a última peça que faltava para eu destruir a mulher que eu era e deixar a "vagabunda" assumir o controle.
Ele não disse uma palavra de imediato; apenas me cravou um daqueles olhares que de algum jeito ele parecia brilhar mais do que as estrelas. Um olhar que dizia: “Eu olho pra ti, e sei exatamente o que você precisa.”
Tentei ignorar, claro. Era o meu mecanismo de defesa padrão. Mas ele não aceitou o vácuo. Sentou-se ao meu lado sem pedir licença, sem dar explicações, como se aquele banco — e talvez eu também — fôssemos parte do território dele.
Ele começou a falar de coisas leves. Como em sã consciência, uma pessoa conversa com alguém sem saber o nome?. Ele era bem confiante . Mas cada palavra que saía da boca dele era como um pequeno choque elétrico. Eu sentia meu coração acelerar, uma atração física que eu não conseguia controlar. Estava prestes a me entregar ao momento, sem nem perceber que estava baixando a guarda.
E então, ele sorriu.
Riu de uma daquelas minhas piadas sem graça que eu usava para afastar as pessoas. E aquele sorriso , aquele seu jeito foi o que me fez ter uma pequena recaída . Eu não estava acostumada a ser olhada daquela forma — sem julgamentos, sem a tentativa de me moldar ou de me "possuir" como um troféu.
Ele se inclinou. O toque das mãos foi a gota d’água, Naquele instante, senti algo se movendo dentro de mim e todas as palavras cruéis que já ouvi foram esquecidas. Foi uma esperança perigosa.
Eu não sabia o nome dele. Não sabia de onde vinha. Mas sabia que aquela noite, e aquele estranho eram o início de uma nova história.
Daí trocamos os contactos e finalmente nos apresentamos.
Sem me aperceber eu já estava saindo com ele depois de duas semanas de conversa, já conhecia a sua casa, os seus pais. No fundo eu já estava apegada e tendo aquela sensação perigosa de que, finalmente, eu tinha encontrado "o tal". Ele me tratava como se eu fosse de cristal, mas me olhava como se eu fosse fogo.
Certa vez estávamos sozinhos. Ele me levou para a casa dele. O ambiente estava meigo, minutos antes, eu chamaria de romântico. O som baixo de uma música me deixava ansiosa.
Ele se aproximou. O toque começou suave, quase hesitante, subindo pelos meus braços até alcançar o meu pescoço. O calor da pele dele contra a minha pele, era um convite que eu, na minha ingenuidade de dezenove anos, aceitei de olhos fechados. Senti os dedos dele traçarem o contorno da minha clavícula, uma carícia que parecia dizer que eu era preciosa.
Mas o ritmo mudou. A suavidade deu lugar a uma urgência que eu ainda não sabia identificar como predatória.
Com uma agilidade que me deixou sem ar, ele puxou a minha blusa para cima. O ar frio do quarto bateu contra a minha pele exposta, criando um contraste violento com as mãos dele, que agora estavam em todo lugar. Eu queria acompanhar aquele ritmo, eu queria que fosse especial, mas havia um peso novo no ar.
Ele me pressionou contra o colchão. O peso do corpo dele já não parecia um abraço, parecia uma grade. Senti os lábios dele no meu pescoço, parecia um animal feroz pronto pra uma caça.
Quando a mão dele desceu com pressa, deslizando para debaixo da minha saia, um alarme disparou no meu peito. O toque era invasivo, bruto, ignorando qualquer sinal de que eu precisava de um segundo para respirar.
— "Espera..." — eu sussurrei, a voz embargada. — "Vamos com calma."
Ele não parou. Pelo contrário, a mão dele subiu com mais força, forçando caminho.
— "Relaxa," — ele murmurou contra a minha pele, mas não soou como um conforto. Soou como uma ordem.
Naquele instante, eu gelei. Minhas mãos, que antes acariciavam o cabelo dele, agora empurravam os seus ombros com uma força que eu nem sabia que tinha. Eu o bloqueei, segurando o pulso dele antes que ele fosse mais longe. O olhar que ele me lançou não foi de compreensão; foi de irritação, de quem teve algo importante interrompido.
— "Eu disse para esperares!" — minha voz saiu mais firme.
Aproveitei o segundo de surpresa dele e libertei. Recuperei minha blusa no chão com as mãos trêmulas, vestindo-a de qualquer jeito, sentindo o tecido áspero contra o suor frio que cobria meu corpo. Fui embora sem nem olhar pra trás.
Depois daquele dia, ele me ensinou que confiar podia ser irresistível... mas foi a forma como ele destruiu essa confiança que me deu a última peça para o título que carrego hoje.