Capítulo 2- O início de tudo

1074 Words
Três dias. Setenta e duas horas de silêncio que eu tentei preencher com justificativas que não existiam. Eu precisava de uma resposta. Não por amor, mas por dignidade. Eu precisava que ele olhasse nos meus olhos e dissesse que o que aconteceu naquela noite foi um erro, não a sua verdadeira natureza. E se ele me dissesse algo do gênero, eu com certeza daria uma oportunidade para termos a nossa noite. Estava entusiasmada. Fui até a casa dele sem avisar. O meu coração batia contra as costelas como um pássaro enjaulado. Quando cheguei à porta, a música baixa que vinha lá de dentro era a mesma que tocava naquela noite. Aquele ritmo que antes me entorpecia, agora me dava náuseas. Bati. Uma, duas vezes. A porta abriu-se, mas não foi ele. Uma rapariga, com o cabelo levemente bagunçado e vestindo uma t-shirt que eu reconheci imediatamente como sendo dele, olhou-me de cima a baixo. Ela tinha aquele ar sonolento e satisfeito de quem acabou de acordar de um sonho bom, mas para mim, aquilo tinha virado pesadelo. — Sim? Procuras alguém? — perguntou ela, com uma voz doce que me fez sentir um nó na garganta. — O... o Marcos, dono da casa, está? — a minha voz saiu mais fraca do que eu planeava. Ele apareceu logo atrás dela, terminando de abotoar as calças. Quando os seus olhos encontraram os meus, não houve choque. Não houve culpa. Houve apenas um tédio profundo. — Ah, és tu, — disse ele, encostando-se ao batente da porta e passando o braço pela cintura da rapariga, puxando-a para perto. — Esqueceste alguma coisa aqui? A rapariga olhou para ele, depois para mim, e soltou um risinho cínico, percebendo exatamente quem eu era: a miúda complicada de quem ele provavelmente já se tinha queixado. — Eu só queria conversar, — eu disse, sentindo-me minúscula diante daquela cena doméstica e c***l. Ele pediu que a outra menina nos deixasse a sós. — Sobre o que a virgem ofendida quer conversar? — perguntou ele. Me senti tão ofendida com as palavras dele. Ele estava totalmente diferente. — Eu confiei em ti — foi tudo o que consegui articular, a voz ainda pequena. — Confiaste? Ótimo. Agora confia no meu conselho: cresce. Ninguém tem paciência para miúdas que brincam de ser mulher mas travam na hora H. Se não aguentas o fogo…não cause o incêndio. — Eu quero ter um relacionamento sério com você — eu disse, segurando a mão dele. — Nunca pensei em ti desse jeito. Não sou que nem um prego fixado no mesmo lugar, sou que nem uma ave…preciso sempre emigrar — respondeu ele de forma cínica. Essa foi a melhor comparação que um ficante poderia ter me dado. Mas de algum jeito ela ficou bem gravada na minha mente. Marcos fechou a porta na minha cara. O som da fechadura a correr foi o ponto final mais alto que já ouvi na vida. Fiquei ali parada no corredor, olhando para a madeira escura da porta. A humilhação era como um ácido que me corroía por dentro, mas, estranhamente, o choro não veio. O que veio foi uma clareza de que eu precisa ter mais cuidado com quem eu me relacionava. Eu tinha ido ali procurar humanidade num homem que só queria o meu corpo. Eu tinha ido ali ser ovelha numa casa de lobo. Desci as escadas devagar. A cada degrau, a "eu" que acreditava em segundas chances ia ficando para trás. “Bem feito pra mim” disse eu para mim mesma. Parece que eu nunca aprendia com os erros, achando que acontecimentos do passado, nunca voltariam no presente. Achando que adolescentes e adultos são diferentes. Eles não são diferentes não! Tudo se resume em ter os mesmos pensamento, atitudes e ações, ou seja, somos todos seres humanos. Passaram-se dois anos, e eu finalmente tinha um emprego. Emprego do qual eu praticamente só conseguia pagar o apartamento que eu morava, e a comida pro meu estômago. Pra muitos isso já era o suficiente, mas pra mim que tinha uma ambição e o sonho da minha empresa de Design de interiores, o salário era pouquíssimo. Eu podia até fazer poupanças, mas nunca dava para nada. Mas eu digo que trabalhar na fábrica de cabelos me ensinou a lidar com diferentes tipos de clientes e a superar grandes dificuldades. Aprendi com a psicologia do poder: as pessoas não compram apenas produtos; elas compram a sensação de poder. No futuro, teria que aplicar isso ao Design: vender apenas os sofás? Não! Seria a venda de status que aquele sofá representa ao dono. Talvez se pergunte “que diferença isso tem”? Vender um sofá é falar sobre o tecido, a espuma, o tamanho e se é confortável para ver televisão. É uma transação utilitária. Qualquer loja comum faz isso. Vender Status: É vender a sensação que o dono tem quando um rival ou um parceiro de negócios entra na sala e pensa: “Este homem tem muito dinheiro e bom gosto”. Eu teria que vender a autoestima do cliente. As pessoas pagam fortunas não pela matéria-prima, mas pelo que essa matéria-prima diz sobre elas ao mundo. Foram grandes lições que são úteis até hoje em minha vida. Voltando outra vez no passado. A minha rotina de trabalho era sempre a mesma, o que tornava aborrecido. Nem o próprio salário me animava. O cheiro da loja era sempre o mesmo: uma mistura de plástico das extensões, sprays fixadores e o perfume barato que a dona nos obrigava a usar. Eu passava o dia a desembaraçar fios que nunca seriam meus, a vender coroas de rainha para mulheres que tinham o dinheiro que eu não tinha. Enquanto as minhas colegas falavam de festas e de rapazes, eu mantinha um caderno de esboços escondido debaixo do balcão. Entre uma remessa e outra, eu desenhava. Não desenhava penteados. Desenhava plantas. Imaginava como aquele armazém cinzento ficaria se eu derrubasse as paredes, colocasse janelas do chão ao teto e revestisse as colunas com mármore escuro. Eu não queria apenas decorar casas. Eu queria construir os palcos onde o poder se sentava. Um dia, enquanto trabalhava, o meu telemóvel vibrou em cima da bancada, por baixo de uma mecha de cabelo liso de sessenta centímetros. Era o James. Lembram do rapaz com quem eu dei o primeiro beijo de língua? Exactamente! Era ele, voltou não de forma presencial, mas sim online.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD