A manhã seguinte trouxe um silêncio cortante. Helena não esperou por Daniel, ela mesma levou Ethan até o carro, sentindo o peso de cada passo no cascalho da entrada. Alexander não apareceu para se despedir, mas ela sentia os olhos dele nela, filtrados pelas janelas de vidro fumê do escritório.
No caminho para a escola, o silêncio no carro era diferente. Daniel dirigia com uma calma robótica.
— Onde está o trajeto de ontem? — Helena perguntou, notando que voltaram ao caminho original.
— O teste acabou, senhorita. — Respondeu Daniel, sem desviar os olhos da estrada. — Agora é a rotina. É nela que os erros aparecem.
Ao deixar Ethan no portão, Helena sentiu uma vontade súbita de segurá-lo mais forte, de não soltar a sua mão. O menino, porém, acenou com um sorriso inocente e correu para os colegas. Para ele, o mundo ainda era simples. Para ela, as cores pareciam estar sumindo, restando apenas o cinza da vigilância.
De volta à mansão, ela não foi para o escritório. Foi para a biblioteca.
Precisava de algo que Alexander não pudesse controlar: o passado. Ela começou a observar as estantes, não buscando títulos, mas marcas. Poeira removida, lombadas gastas, qualquer sinal de que alguém, antes dela, tivesse buscado as mesmas respostas.
Foi atrás de uma coleção de enciclopédias antigas que ela encontrou.
Atrás da foto, uma frase escrita com a letra apressada de sua mãe: "O preço da lealdade é o esquecimento. Não deixe que ele esqueça."
Um ruído na porta a fez esconder a foto no bolso instantaneamente. Alexander estava parado ali, a moldura da porta parecendo pequena para sua presença.
— A biblioteca é um lugar perigoso para quem tem muita curiosidade. — Disse ele, a voz baixa.
— Eu só estava procurando algo para ler. — Mentiu Helena, sentindo o papel da foto queimar em seu bolso.
Alexander caminhou até ela, parando a uma distância que fazia o ar parecer escasso. Ele olhou para a prateleira onde ela estava mexendo.
— Você tem o mesmo hábito dela. — Comentou, com um traço de algo que parecia, por um segundo, tristeza. — Procurar respostas em silêncio.
— Talvez porque as pessoas ao meu redor não falem a verdade.
Alexander deu um passo à frente, forçando-a a encostar na estante.
— A verdade não é um presente, Helena. É um fardo. Sua mãe tentou carregar o meu e o dela ao mesmo tempo.
— E o que aconteceu? — Ela desafiou, o coração disparado.
Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela. O perfume dele, uma mistura de madeira e algo metálico, a envolveu.
— O peso a esmagou.
Antes que ela pudesse responder, o telefone de Alexander vibrou. Ele se afastou bruscamente, a máscara de frieza retornando em um segundo. Ele atendeu, ouviu por um instante e sua expressão endureceu.
— Entendido. Tragam-no para os fundos. Agora.
Ele olhou para Helena, um olhar que não era mais de aviso, mas de decisão.
— Vá para o seu quarto. Tranque a porta. E não saia por nada, mesmo que ouça barulhos.
— O que está acontecendo?
— O aviso que recebemos ontem à noite. — Ele disse, já caminhando para a saída. — Eles decidiram que não querem mais esperar.
Helena ficou sozinha na biblioteca, o silêncio da casa agora quebrado pelo som de carros freando bruscamente no pátio dos fundos. Ela tocou a foto no bolso.
Ao chegar à copa, ela se encolheu atrás de uma cortina pesada. Lá fora, o cenário era de guerra silenciosa.
Dois carros pretos estavam atravessados, bloqueando a saída. Daniel e outro segurança seguravam um homem pelos braços. Ele estava sujo, com as roupas rasgadas, e parecia aterrorizado. Alexander estava parado diante dele, as mãos nos bolsos do sobretudo, a postura tão imóvel que parecia uma estátua de gelo.
— Quem te enviou? — A voz de Alexander ecoou, mesmo através do vidro. Era baixa, mas carregava uma promessa terrível.
O homem balbuciou algo que Helena não conseguiu ouvir. Alexander apenas assentiu levemente para Daniel. O que se seguiu não foi violência física, mas algo mais psicológico. Daniel aproximou-se do ouvido do homem e sussurrou algo que o fez desabar de joelhos instantaneamente.
Helena sentiu o estômago revirar. Ela percebeu que a proteção de Alexander não era um escudo passivo, era uma força que esmagava qualquer um que ousasse tocar em seu círculo.
— Ela não sabe de nada! — O homem gritou, a voz subitamente audível. — A garota Carter não tem a chave! Vocês estão perdendo tempo!
Alexander se inclinou sobre ele.
— O tempo é meu e eu decido como perdê-lo. Se ela tem a chave ou se é a chave, isso não é problema seu.
A chave.
Helena apertou a foto no bolso. Sua mente trabalhava em alta velocidade. O que sua mãe teria escondido que exigia tanta vigilância anos depois? Ela recuou da janela quando viu Alexander se virar. Por um segundo, teve a impressão de que ele olhou diretamente para onde ela estava escondida.
Ela correu de volta para o escritório principal, o único lugar onde sentia que poderia encontrar uma conexão com o mundo exterior. Precisava de um computador que não estivesse sob o monitoramento total de Alexander, se é que tal coisa existia.
Foi então que ela viu a pasta "C" novamente. Alexander a deixara sobre a mesa, aberta.
Desta vez, ela não hesitou. O teste da moralidade tinha acabado no momento em que ele mencionou o sacrifício de sua mãe.
Dentro da pasta, não havia listas de nomes ou contas bancárias. Havia mapas. Mapas de uma propriedade rural no interior, registrada em um nome que Helena reconheceu imediatamente: o nome de solteira de sua avó.
No meio dos mapas, um pequeno post-it amarelo com apenas seis dígitos. Uma senha? Uma coordenada?
Antes que pudesse processar, a porta do escritório se abriu. Helena não teve tempo de fechar a pasta. Alexander entrou, mas não parecia surpreso ao vê-la ali. Ele parecia exausto.
— Eu mandei você subir. — Disse ele, sem raiva, apenas com uma decepção profunda.
— Você disse que ela morreu porque abriu o que não devia. — Helena rebateu, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Mas você esqueceu de dizer que ela morreu tentando te proteger.
Alexander parou no meio do caminho. O silêncio voltou a ser sufocante.
— Aquela foto na biblioteca... — Ela continuou, tirando a polaroid do bolso e colocando-a sobre a mesa. — Você a amava. E agora está me usando como isca para pegar quem a matou.
Alexander olhou para a foto, depois para Helena. A frieza em seus olhos oscilou por um breve instante, revelando uma ferida que nunca cicatrizou.
— Você não é a isca, Helena. — Ele disse, aproximando-se lentamente. — Você é o único motivo pelo qual eu ainda não queimei este mundo inteiro.
Ele parou diante dela e, pela primeira vez, tocou seu rosto com a ponta dos dedos. O toque era frio, mas havia uma intensidade ali que a fez perder o fôlego.
— Eles estão vindo. — Ele sussurrou. — E desta vez, não vai ser apenas um sensor apagado no jardim.