Capítulo 6

1239 Words
Helena não se afastou quando ele a tocou. Talvez devesse. Talvez fosse o último instante seguro antes da queda. Mas havia algo na forma como Alexander disse eles estão vindo que apagou qualquer impulso de recuo. — Quem são “eles”? — ela perguntou, quase em um sussurro. Alexander retirou a mão devagar, como se tivesse acabado de atravessar uma linha invisível. — Homens que perderam muito dinheiro. — A voz dele voltou a ganhar firmeza. — E que acreditam que sua mãe deixou algo para trás. — A chave. Ele assentiu. O silêncio entre os dois agora não era apenas tensão emocional. Era estratégia. Lá fora, Helena ouviu o som de um carro sendo levado embora. O homem capturado já não estava mais no jardim. A casa voltava à aparência de normalidade, a fachada impecável escondendo rachaduras profundas. — O que exatamente minha mãe sabia? — ela insistiu. Alexander caminhou até a janela do escritório, olhando para a cidade como fazia sempre que precisava organizar pensamentos perigosos. — Sua mãe trabalhava para mim quando eu ainda acreditava que podia jogar limpo. — Ele não a encarava. — Ela descobriu uma rede de lavagem de dinheiro envolvendo nomes grandes demais para serem derrubados sem consequências. Helena sentiu o ar ficar pesado. — E você? — Eu estava no meio. — Ele finalmente se virou. — Não como criminoso. Como peça. — E ela tentou tirar você disso? — Ela tentou proteger você. — A resposta veio seca. — Eu já estava comprometido demais. A revelação a atingiu com força inesperada. — Então minha mãe morreu por causa do seu mundo. Alexander não negou. — Ela morreu porque escolheu enfrentar pessoas que não toleram exposição. Helena fechou os olhos por um segundo. A dor antiga, m*l resolvida, misturava-se com uma nova forma de medo. Não era só sobre vingança ou ameaça. Era sobre herança. — E agora eles acham que eu tenho algo que ela deixou. — Eles têm certeza de que ela deixou algo. — Ele se aproximou novamente. — A dúvida é onde. Helena pensou na foto. Na frase escrita atrás. "Não deixe que ele esqueça." — A propriedade rural — ela disse, apontando para a pasta aberta. — Era da minha avó. — Oficialmente, sim. — E extraoficialmente? Alexander sustentou o olhar dela. — Era o único lugar fora do meu alcance digital. Sem câmeras. Sem registros recentes. Sua mãe pediu que eu nunca vendesse. — Por quê? — Porque ali está a última peça. Helena sentiu o coração disparar. — Você sabe o que é? — Não. — Ele respondeu sem hesitar. — E isso me incomoda mais do que qualquer ameaça. No andar de cima, um barulho seco ecoou. Helena e Alexander se entreolharam. — Ethan — ela murmurou. Os dois saíram do escritório ao mesmo tempo. No corredor, a governanta vinha apressada do outro lado. — Senhor Wolfe, ele acordou assustado. Helena entrou primeiro no quarto de Ethan. O menino estava sentado na cama, os olhos arregalados. — Eles estavam aqui — disse, a voz trêmula. — No meu sonho. Ela sentou ao lado dele, segurando suas mãos. — Foi só um pesadelo, amor. Alexander permaneceu à porta, imóvel, mas Helena percebeu o quanto a mandíbula dele estava rígida. — Pai? — Ethan chamou. Alexander se aproximou e se ajoelhou diante da cama. — Eu estou aqui. Era simples. Mas para alguém como ele, era muito. Helena observou a cena com uma estranha mistura de ternura e temor. O homem que comandava seguranças e ameaças com frieza absoluta parecia completamente vulnerável diante do filho. Quando Ethan voltou a dormir, Helena saiu do quarto, mas Alexander segurou seu braço levemente no corredor. — Não vamos esperar que ataquem aqui — ele disse. — Então? — Vamos até a propriedade. Helena arregalou os olhos. — Você enlouqueceu? É exatamente o que eles querem. — Não. — Ele se aproximou, a voz firme. — Eles querem que eu me mova sem você. Querem separação. Vulnerabilidade. — E você quer me levar para o meio disso? — Quero manter você onde eu possa proteger. Ela sustentou o olhar dele. — Ou onde você possa controlar? Alexander não respondeu de imediato. — Eu não controlo você, Helena. — Bloquear meu telefone não é controle? — É proteção. — Forçar decisões não é controle? O silêncio se alongou. — Você acha que eu não percebo? — ela continuou. — Cada teste. Cada provocação. Cada limite que você coloca para ver até onde eu vou. Alexander deu um passo mais próximo. — E você passa em todos. O ar entre eles parecia eletrizado. — Isso não é um jogo — ela disse. — Nunca foi. Helena respirou fundo. — Quando iremos? — Amanhã à noite. — Ele respondeu. — Sem aviso prévio. Só nós três. — Ethan também? — Especialmente ele. Ela percebeu então: não era apenas sobre a chave. Era sobre encerrar o que havia começado anos atrás. *** Naquela madrugada, Helena não conseguiu dormir. A casa estava silenciosa novamente, mas agora o silêncio tinha um significado diferente. Era preparação. Ela tirou a foto do bolso e a colocou sobre a cama. Na imagem, sua mãe sorria ao lado de Alexander. Não havia frieza ali. Havia confiança. “Não deixe que ele esqueça.” Esquecer o quê? Helena virou a foto várias vezes até perceber algo que não tinha notado antes. Um detalhe ao fundo da imagem. Uma cerca branca. Uma árvore torta. Ela correu até a pasta de mapas e começou a comparar. Ali. No canto nordeste da propriedade rural, havia uma única árvore marcada em um levantamento antigo. Retirada em mapas mais recentes. — Você escondeu sob a árvore… — ela murmurou. A porta do escritório estava entreaberta. Alexander estava lá dentro, trabalhando. Helena entrou sem bater. — Eu sei onde está. Ele levantou os olhos devagar. — O quê? Ela colocou a foto e o mapa lado a lado sobre a mesa. — A árvore não está mais no mapa novo. Mas aparece no antigo. Minha mãe não escreveria aquela frase por acaso. Alexander observou os papéis com atenção crescente. — Se você estiver certa… — Não temos muito tempo para discutir. Ele se levantou lentamente. — Você acabou de se colocar no centro disso tudo. Helena sentiu o peso da decisão. — Eu já estava no centro. Só não sabia. Alexander ficou a poucos centímetros dela. — Se algo acontecer naquela propriedade… — Você prometeu protegê-la — ela disse, interrompendo. Ele sustentou o olhar dela. — Eu prometi protegê-las. Helena percebeu o plural. Antes que pudesse responder, o celular de Alexander vibrou novamente. Ele atendeu, ouvindo por alguns segundos. O rosto perdeu qualquer traço de controle. — Como assim, invasão? — a voz dele ficou gelada. — Onde? Helena sentiu o sangue gelar. Alexander desligou devagar. — A escola de Ethan. O mundo pareceu parar. — Ele já saiu? — ela perguntou, a voz falhando. — Não. — Ele pegou o casaco com movimentos rápidos. — Mas alguém tentou acessar o sistema interno com um nome falso. Helena sentiu o chão desaparecer sob seus pés. — Eles estão encurtando o jogo. Alexander segurou o rosto dela com as duas mãos desta vez. — Olhe para mim. Ela obedeceu. — Nada vai acontecer com ele. A convicção na voz dele era absoluta. Mas, pela primeira vez, Helena percebeu algo que nunca tinha visto antes. Medo.
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