Capítulo 7

1223 Words
O trajeto até a escola pareceu interminável. Helena estava no banco traseiro ao lado de Alexander, as mãos frias demais para o próprio corpo. O carro avançava pelas ruas de Manhattan com precisão controlada, enquanto outro veículo os seguia de perto. Daniel estava ao volante, concentrado como se cada semáforo fosse uma ameaça em potencial. — O que exatamente tentaram fazer? — Helena perguntou, forçando a voz a não tremer. Alexander mantinha o olhar fixo à frente. — Usaram um nome da lista de responsáveis autorizados para retirada de alunos. O estômago dela afundou. — Mas essa lista é restrita. — Era. — Ele digitava algo no celular enquanto falava. — Alguém conseguiu acesso parcial ao sistema da escola esta manhã. Tentaram incluir um novo contato vinculado ao sobrenome Carter. Helena sentiu o sangue gelar. — Usaram o meu nome. — Sim. — Então não é só sobre a propriedade. Alexander finalmente se virou para encará-la. — Nunca foi só sobre a propriedade. O carro virou na rua da escola. Dois homens já estavam posicionados do lado de fora, discretos demais para parecerem seguranças, atentos demais para serem apenas pais. Helena reconheceu o padrão de controle silencioso. Quando o carro parou, Alexander foi o primeiro a sair. Helena o seguiu sem pensar. O coração batia alto demais. Dentro da escola, a diretora os aguardava na sala administrativa, visivelmente nervosa. — Senhor Wolfe, lamento profundamente — começou ela. — O sistema acusou uma tentativa de modificação na ficha do Ethan. Bloqueamos a tempo. — Como conseguiram os dados? — Alexander perguntou, frio. — Ainda estamos investigando. Pode ter sido uma falha de segurança externa. Helena percebeu o olhar de Alexander mudar levemente. Ele não acreditava em falhas. — Quero cópia de todos os acessos das últimas setenta e duas horas — disse ele. — E troca imediata de senhas e protocolos. A diretora assentiu, quase ofegante. — Ethan está na aula? — Helena perguntou. — Sim. Não mencionamos nada para não alarmá-lo. Alexander fez um gesto discreto e um dos homens do corredor entrou para buscar o menino. Quando Ethan apareceu, sorrindo ao vê-los, Helena sentiu os joelhos quase cederem. — O que vocês estão fazendo aqui? — ele perguntou, animado. — Surpresa! — Helena respondeu, forçando leveza. — Vamos passar a tarde juntos. Alexander se agachou diante do filho. — Mudança de planos, campeão. Ethan pareceu confuso por um segundo, mas segurou a mão do pai sem questionar. Helena observou aquela cena com o peito apertado. A ameaça não era mais abstrata. Tinha nome. Tinha intenção. De volta ao carro, Alexander não falou até que estivessem longe o suficiente. — Eles testaram o perímetro da casa. Testaram você no parque. Agora testaram a escola. — A voz dele era matemática. — Estão mapeando reações. — Então precisamos reagir diferente — Helena disse. Ele olhou para ela. — Diferente como? — Parar de agir apenas na defesa. Alexander arqueou levemente a sobrancelha. — Continue. — Se eles querem a chave, vão nos seguir até ela. — Helena respirou fundo. — Então vamos dar a eles o que querem ver. — Você está sugerindo… — Que vamos à propriedade como planejado. Mas não como fuga. Como isca controlada. O silêncio dentro do carro se tornou denso. — Você entende o risco? — Alexander perguntou. — Eu sou o risco — ela respondeu. Os olhos dele escureceram. — Não diga isso. — É verdade. Enquanto acreditarem que eu tenho algo, vão continuar se aproximando. Alexander desviou o olhar, tensionado. — E se estiverem certos? Helena sentiu o peso da pergunta. — Então precisamos descobrir antes deles. Na mansão, o clima era diferente. Segurança reforçada. Portões checados. Rotas revistas. Ethan foi levado para o quarto por Helena. Ela sentou-se ao lado dele na cama enquanto ele mexia em um carrinho. — Vamos viajar? — ele perguntou. Ela sorriu. — Talvez. — Meu pai fica estranho quando viajamos. Helena franziu a testa. — Estranho como? — Mais quieto. Ele fica olhando as coisas como se estivesse esperando alguém aparecer. O comentário simples trouxe um arrepio silencioso. — Ele só quer manter você seguro. Ethan olhou para ela por alguns segundos. — Você também fica diferente quando ele está perto. Helena engoliu seco. — Diferente como? — Como se estivesse pensando rápido demais. Ela riu baixo. — Talvez eu esteja. Quando Ethan finalmente adormeceu, Helena saiu do quarto e encontrou Alexander no corredor. — Ele percebe tudo — ela disse. — Sempre percebeu. — Isso vai marcar ele. Alexander sustentou o olhar dela. — A ausência marca mais. Ela entendeu o que ele queria dizer. Ele preferia ser o pai superprotetor do que o pai ausente. — Partimos em três horas — ele disse. — Tão rápido? — Quanto mais previsível, mais vulnerável. *** No escritório, Helena observou enquanto Alexander organizava documentos e dispositivos em uma pequena maleta. — O que você realmente espera encontrar lá? — ela perguntou. — Prova. — De quê? — De que a morte da sua mãe não foi um acidente isolado. Ela sentiu o impacto da palavra “morte” dita sem suavização. — Você nunca me contou como foi. Alexander fechou a maleta. — Porque não importa como foi. Importa quem ordenou. — E você sabe? Ele hesitou. — Tenho suspeitas. — Nomes? — Nomes grandes demais para serem acusados sem algo concreto. Helena caminhou até ele. — Então vamos buscar esse algo concreto. Alexander segurou o queixo dela levemente, obrigando-a a erguer o olhar. — Você não precisa carregar isso. — Já carrego desde o dia em que ela morreu. A intensidade entre eles cresceu. Não era apenas atração era algo mais profundo, mais perigoso: alinhamento. O celular de Alexander vibrou novamente. Ele atendeu. — Sim. Silênciodo outro lado. O rosto dele endureceu. — Onde? Outra pausa. — Não percam. Ele desligou devagar. — O que foi? — Helena perguntou. — Encontraram o mesmo homem do parque. — E? — Ele não estava sozinho desta vez. O ar pareceu rarear. — O que isso significa? Alexander se aproximou dela, os olhos fixos. — Significa que a propriedade rural deixou de ser um segredo. Helena sentiu o coração acelerar. — Então estão esperando por nós. — Sim. — E mesmo assim vamos? Alexander passou a mão pelo rosto, exalando tensão contida. — Agora não é mais uma questão de escolha. Helena deu um passo mais perto. — Eu não vou fugir. Ele a observou como se estivesse avaliando algo muito além do momento. — Você é mais parecida com ela do que imagina. — Minha mãe? Ele assentiu. — E isso me assusta mais do que qualquer ameaça externa. O silêncio entre eles foi interrompido por um estrondo seco vindo do lado de fora da casa. Ambos se viraram ao mesmo tempo. Um dos seguranças surgiu correndo pelo corredor. — Senhor Wolfe, temos movimento no portão principal. Alexander já estava em ação. — Leve Ethan para o quarto seguro — ordenou a Helena. — Não — ela respondeu firme. — Eu fico com você. Ele a encarou por um segundo que pareceu durar uma eternidade. Outro estrondo ecoou, desta vez mais próximo. As luzes externas piscaram. Alexander segurou a mão dela com força. — O jogo mudou. E, pela primeira vez, Helena percebeu que não estavam apenas sendo observados. Estavam sendo cercados.
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