O grupo dos populares

1521 Words
[...] reparo melhor no programa que estava passando, era um programa bíblico sobre um pastor, e uma de suas palavras proferidas me atingiu como um tiro em uma ave. Eu não entendia o porquê... não! Na verdade, bem no fundo eu sabia exatamente o porquê me atingiu, suas palavras foram as seguintes: "Nenhum homem, jamais se deitaras com o outro, pois estará cometendo um pecado, sodomia! E sabemos para onde os pecadores vão?" Aquela pergunta, respondi mentalmente, "para o inferno"... Aquelas palavras ficaram ecoando na minha mente, sabe, quando eu era criança, ia diariamente à igreja e ouvia o padre falar sobre o inferno, o descrevendo, pois minha família é católica, é até irônico se pensar que justo o programa que estava sendo exibido na TV, era evangélico. Enfim, voltando ao ponto, ele disse que o inferno é um lugar escaldante, mergulhado em chamas de sofrimento eterno, onde existe um mar de lava e seres que ficam te espetando enquanto você agoniza de dor. Aquilo me fez morrer de medo, de modo que na época eu procurara sempre fazer o bem. Fui para a escola, pensativo. A primeira aula era do professor de geografia, o Júlio, a sala ficou esperando um bom tempo ele entrar para dar aula, mas em vez dele quem entrou foi uma das moças da secretaria, avisando que o professor não pôde vir e que seria aula vaga. Todos encaminharam para o pátio, eu fiquei sentado em um banco de pedra próximo a quadra, não tinha com quem conversar, o Luiz junto com os seus amigos se aproximaram de repente, o Théo, o Helton e o William. Começaram a puxar papo comigo, tão repentinamente. Reparei melhor quando eles se aproximaram e o Daniel também os acompanhara, só que ele conversara com o Leo um pouco distante, fiquei com inveja, pois o Daniel conseguiu em tão pouco tempo ganhar a afinidade do grupo, coisa que estou tentado há dias. Conseguimos criar um clima de conversa agradável, alguns assuntos paralelos, pois às vezes o Leo se excluía para conversar com o Daniel. Foi um momento muito divertido, pois eu lembrei o quanto à amizade faz bem, estar rodeado de gente, rir e brincar, mas o fato de o Luiz ter mais afinidade com o Leo me fez ficar um pouco desconfortável. No intervalo, fiquei com eles, observei o aspecto e o cargo de cada um na turma, o Théo era o mais inteligente do grupo, o William só sabia falar de vídeo game, o Helton era o mais burrinho e lento, o Leo era o responsável pelos apelidos e o Luiz o brincalhão, mas o que percebi, era algo mais, o Luiz mantinha o grupo unido mesmo de forma involuntária, como se ele fosse o líder. Já na minha antiga turma do barulho, o Geovanni era o brincalhão, José Tiago o inteligente, Pedro o responsável pelos apelidos e eu era, era o que mesmo? Eu não sei, nunca senti que tinha mesmo um cargo, mas quem matinha o grupo unido mesmo era o José Tiago, deixo sair um sorriso involuntário ao lembrar. Na aula de artes, sentei ao lado do Théo, pois ele pediu, e comecei a fazer o desenho que a professora havia pedido, uma cesta de frutas. O desenho estava quase finalizado, Theo deu uma olhada rápida e fez uma cara de espanto, e logo chamou os outros: - Meu deus Wally! Você desenha muito bem – coloco minha mão na cabeça, envergonhado e sibilo um agradecimento – galera, venham ver isso! - exclamou ele. Logo eles rodearam a mesa para olhar, e todos praticamente fazem a mesma expressão, quase que em sintonia, a muvuca chamou a atenção da professora, que logo venho ver e também ficou impressionada com o desenho, pegou o meu caderno e mostrou para todos da classe que elogiaram, menos, é claro, o Igor que disse: - Nem tanto, copiar é fácil, difícil é criar mesmo. Dou de ombros, nunca senti que desenhava bem, o Geovanni falava que eu desenhava bem e o José Tiago até teve um pouco de inveja na época, mas pensava que isso era uma questão de perspectiva. Ainda não acho que os meus desenhos são grande coisa, mas se as pessoas gostam, quem sou eu pra discordar. O Léo me mostrara alguns desenhos dele, e ele realmente desenha bem, mas ele disse que tem dificuldade com o corpo. Havia uma menina na sala, seu nome é Ketlin, por algum motivo o Luiz e Helton adoravam zoar ela para ouvir seus gritos, talvez, eles adorassem irrita-la, pelo fato de ela se estressar tão fácil, eu quis entrar na onda para parecer legal aos outros. Ela é uma das alunas mais inteligente da sala, tanto que disputa com o Théo para ver quem é o melhor. Tive até que fazer um trabalho em dupla com essa Ketlin, me senti meio burro, pois toda hora que tentava responder uma questão, ela já respondia primeiro. Enfim, quando tentei faze-la ficar irritada, ela disse uma coisa que me magoo um pouco. - Olha quem está tentando se encaixar no grupo – ela da um sorriso irônico e continua – vou ser realista, você nunca vai fazer parte do grupo, pois você é esquisito e estranho, apenas falam com você por pena. Abaixei o meu olhar com receio, lagrimas vieram com uma cachoeira, mas eu as segurei, e virei o olhar, Ketlin não mostrou nenhum sinal de arrependimento. Mas entendi a parte dela, como aquele ditado: "Quem fala o quer, ouve o que não quer". Dias foram se passando, semanas, aquilo foi me martirizando, será que eles eram meus amigos apenas por pena? Será que o Luiz fez um favor ao Rafael, um dos amigos do meu irmão, apenas para não me deixar sozinho?  Apesar dos devaneios da minha mente, estava tudo indo bem na escola, até a chegada de uma menina, gravem esse nome, essa menina foi o inicio da minha destruição, seu nome era Beatriz. Logo quando ela entrou na escola, o Helton saiu, porque ele precisou voltar para sua terra em alagoas. Logo, aparentemente, a turma do barulho ficou desfalcada. Essa Beatriz chegou causando, conseguiu conquistar a amizade de mais três meninas da sala, a Jessica, Claudia e a Flavia. As quatro formaram o quarteto popular da nossa sala,  o que eu apelidei de "As Najas", logo juntou ao Leo, Daniel e o Luiz, assim se formou a turminha dos populares. De modo que no intervalo o Leo passava mais tempo com elas do que com a gente, já o Luiz intercalava, às vezes ficava com elas, às vezes com a gente. Eles eram famosos entre os primeiros. Embora a Beatriz tenha criado o grupo, não foi ela quem realmente odiava, mas sim a Flavia, ela adorava difamar os outros, principalmente a mim. Flávia é o clássico estilo de Loira odonto, patricinha, roupas de marca, bolsas caras, nariz rebitado. Elas mudaram o Leo, ele ficou mais chato e começou a me tratar m*l. Mas mesmo assim, eu sentia inveja deles, queria ser um deles, ser reconhecido e admirado por todos, porquanto que eles eram vistos como deuses da sala, até mesmo pelos professores, mas sei que nunca conseguiria. A Beatriz não era tão r**m assim, ela não me tratava m*l e nada disso, na verdade nem falava direito comigo, as vezes fico pensando se ela realmente sabe que eu existo. Porém, o motivo de eu não gostar muito dela é porque foi ela quem trouxe essa caixa de pandora. Foi como se a criação desse grupo tivesse trago como consequência a mudança de comportamento de todos que começaram a me tratar de uma forma diferente, o Luiz e os outros ficavam me zoando de bicha, vareta, lambisgoia e entre outros apelidos. Eu não estava gostando nada daquilo e para me defender, retribuía com xingamentos, mas não adiantava. Isso me fazia lembrar mais da palavra do pastor, e cada vez mais, eu me reprimia. Como o Helton tinha ido embora, nas horas de voltar para casa, sempre ia sozinho com o Luiz, que por algum motivo me tratava o oposto na escola. Ele certa vez já me disse: - Seu olho é bonito, sabia Wally? Aquele elogio me estremeceu, corei e agradeci. Ele era mais doce, gentil quando estávamos sozinhos, mas perto do Leo e das meninas, ele mudava completamente. Já não bastava o Igor, agora tinha outro problema, ótimo, obrigado mundo. Essa sensação estranha que tinha em relação ao Luiz, eu finalmente tinha entendido, talvez o que eu sentia por ele era uma admiração de amigo... na verdade, quem eu quero enganar? Estar perto dele, estar próximo dele, suas covinhas, seus olhos, seu cabelo moicano, tudo nele me encantava, eu só desejava mais. Eu não entendia, de fato, não queria entender, tentava suprir o máximo esse sentimento, comecei a frequentar a igreja novamente com o intuito de me purificar de tais desejos. E a reprender esse tipo de ato, tanto que se passasse algo na TV falando sobre homossexualidade, eu criticava. Na minha cabeça, fazendo isso, esse desejo sobre o Luiz ia se atrofiar... ou ao menos, amenizar.
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