A balança maldita

2601 Words
Eu não queria ir para a escola mais, queria faltar à semana toda, o mês todo, ou melhor, o ano todo, não queria ver a cara de ninguém a não ser do meu próprio reflexo, talvez do Luiz. Mesmo depois daquele dia, eu não sei se conseguiria encara-lo, será que iniciamos um caso? Ele nem ao menos disse um eu te amo de volta, o que significa um aceno apenas? Tentava me manter otimista, talvez ele se expresse assim, sabe, meio seco, porém, quem eu quero enganar, estava com muito medo, depois do que fizemos e se ele contar a todos e se... Sentia-me m*l, impotente, inseguro... No entanto, minha mãe é uma daquelas pessoas determinadas, que não dá para se barganhar. Ela me forçou a ir para a escola, tentei chorar, espernear, irrita-la, usar todos os meus truques possíveis para faltar, mas ela já é uma mestra nas minhas técnicas e então, não vendo solução tive que ir. No momento que atravessei o portão, não queria olhar para o rosto de ninguém, fui até a sala com a cabeça baixa, driblando todas as pessoas possíveis, fixando o meu olhar no chão. Chegando a minha carteira, o qual é a primeira da janela, sentei e acobertei meu rosto com os meus braços, de modo que a minha visão consiga enxergar apenas a escuridão. Ouvi conversas próximas, mas não tive coragem de olhar para ver quem era, todavia, uma frase chamou minha atenção: "será que ele vai lá balançar mesmo?". Aquilo me intrigou, balançar me remete ao brinquedo a balança e a única balança próxima a escola é a balança maldita, só recapitulando... (atrás da escola há um rio e logo depois uma mata, que possui árvores com as copas muito altas, meu irmão disse que nessa mata, tem uma balança em formato de pneu que quem sentar nela está sujeito à morte, já que logo à frente há um barranco que dá direto ao rio, pois a mata tem um formato íngreme)... Quem seria o louco de estar se sujeitando a um enorme perigo desse, sem contar que segundo o meu irmão, duas pessoas já morreram naquele brinquedo, uma delas, inclusive, foi uma aluna de sua sala. Só de dizer a palavra morte, já me arrepio todo. Continuei ouvindo atentamente a conversa dos indivíduos que aparentemente estavam um pouco atrás de mim, queria escutar um nome, e o meu pedido foi atendido, eles não disseram apenas um nome, mas sim um grupo que iriam para lá na hora da saída, abarcando a turma dos populares. Aparentemente eles iriam completar um desafio. Estremeci-me de temor em saber que se a turma dos populares vai, então o Luiz está metido no meio. Por mais que a minha consciência diga que o Luiz não é problema meu, o meu instinto pede para agir diferente, naquele momento ignorei todo o meu ressentimento ainda por ele, só queria encontra-lo e mudar essa ideia i****a. A aula havia começado, o observei dialogar com a turma do barulho, queria me aproximar dele e tentar conversar, mas o meu corpo travou, era como se o meu orgulho estivesse me segurando e não conseguia lutar contra o mesmo, então coloquei na minha mente, que vou conversar com ele no momento certo, mais precisamente, quando estiver sozinho. Todavia, o Luiz é popular, ele nunca está sozinho. Enchi-me de medo e receio, só conseguia pensar no pior. Não parava de olhar o relógio, temia que desse 18:20, e o sinal batesse e ele... balanço a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos impresumíveis. No intervalo, não o encontrei e na quarta aula, trocamos olhares, queria dar um sinal para ele vir até mim, mas eu não consegui, a soberba não deixava, porém, fitar aqueles olhos castanhos só me lembra de ontem, de beija-lo, acaricia-lo, telo colado a mim, será que iriamos fazer isso de novo? Como ele disse, ele me faz experimentar coisa novas, queria conhecer mais, porém depois da forma que nos despedimos, não sei o que vai acontecer daqui para frente, tudo está incerto. E ficou por isso mesmo, até bater o sinal, me senti fraco por não conseguir fazer nada, meu coração disparou e minha barriga agonizava de alarme. Enquanto arrumava o meu material pronto para ir embora, foquei o meu olhar para as pessoas que estavam saindo da sala, e não encontrei o Luiz em lugar nenhum. Estremeci, d***a! Como ele consegue ter o dom de sumir, parece até o mestre dos magos, veio pensamentos hediondos a minha mente - esqueça-o, a vida é dele, ele faz o que quiser - fiquei abatido por pensar aquilo. Com um ar de determinação, não raciocinei mais nada, somente segui o meu coração e o meu instinto, corri em direção até a balança com intuito de impedir o inesperado, não sabia exatamente onde ela ficava, porém se eu conseguir alcança-los... Quando sai da escola, avistei um grupo de pessoas muito a frente, não consegui distinguir ninguém, presumi que seja o grupo dos populares, os segui, eles foram em direção à praça que fica atrás da escola, aquela mesma praça onde teve o episódio com os drogados. Agora, rumo ao rio, eles atravessaram uma ponte para a mata que se estendia a frente, continuei os acompanhando. Foram trilha adentro, o sol quase se porá, dando um clima de final de tarde, com o céu desenhando em vários tons alaranjados. Segui a trilha, que cada vez se dificultava, o caminho foi tornando-se mais estreito, íngreme e escorregadio por conta do barro, me segurava nas arvores para conseguir continuar, me aproximei do grupo, escondi-me debaixo de uma moita, os observando, eles já se encontravam próximos à balança em formato de pneu, olhei detalhadamente para as pessoas que jaziam lá, o Leo, Daniel, Flavia, Cláudia e Jéssica. Não avistei nenhum sinal da Beatriz e muito menos do Luiz, aquilo me surpreendeu e ao mesmo tempo me confortou, continuei os espiando. O Leo se posicionou para sentar na balança em formato de pneu e com as duas mãos segurando a corda. Ele grita: - Daniel empurra! O Daniel atendeu seu pedido e então empurrou a balança, que foi para lá e para cá devagar e não muito alto, conforme ele ia impulsionando com as mãos, a balança começa a ganhar velocidade e ir cada vez mais alto, sentia o perigo na língua, pois logo abaixo dele, se encontrava o rio e as chances de ele cair no mesmo eram muito altas. O Leo se agitava gritando de adrenalina, porém, notei seu nervosismo, ele começou a se apavorar e gritar, dessa vez aterrorizado. - Já chega! Já deu, alguém me ajuda! As víboras e o Daniel só sabiam rir e caçoar. - Que bebezão - diz a Flávia. De repente, eles saem do local rindo e caçoando, deixando o Leo agonizando no brinquedo sozinho. Não me detetive e rapidamente senti meu corpo se locomover estendendo a minha mão para tentar segura-lo, não sabia por que havia feito aquilo, lembrei-me de todos os momentos que ele me fez m*l, desde o dia da mangueira, do empurrão na lama, todos os ponta pés, xingamentos e risadas e no desespero do momento, os esqueci e os deixei para trás, porque agora eu não via mais o Leo malvado, eu via um ser humano pedindo socorro, uma pessoa como outra qualquer em perigo. Estendi minha mão para tentar agarrar a dele e ele fez o mesmo, cada vez que a balança voltava, nossas mãos se tocavam, mas ele não conseguia agarrar. - Wally o que faz aqui? - Ele grita ainda apavorado. - Tentando salvar sua vida - gesticulo tentado achar uma forma de parar aquilo. Não me importei com mais nada, então sobre a determinação do momento, fui um pouco adiante, ignorando as chances de eu cair no rio, com muita dificuldade, alcancei sua mão, eu era muito fraco e não conseguia conter seu peso, com a minha outra mão agarrei uma arvore próxima, de forma que faça diminuir a velocidade do brinquedo, exigindo muito da minha força. O que parecia impossível para um fracote como eu, se tornou possível, consegui o feito e em uma estocada só o brinquedo parou enquanto eu agarrava a balança e a arvoe como apoio, o Leo aproveita a oportunidade e sai do brinquedo tonto, zonzo e desesperado, solto o pneu que continua a balançar, no entanto, aquela situação estava longe de ter um final feliz, em um pisar falso, ele escorrega no barranco e cai morro abaixo, felizmente ele consegue agarrar em uma pedra, impedindo sua queda iminente no rio, ele estava muito longe para eu conseguir alcança-lo e se eu descesse para me aproximar, escorregaria provavelmente e cairia no rio junto. Eu grito aflito: - Leo você está bem? Teve alguma fratura? - Pergunto, mesmo sabendo a resposta óbvia. - Não muito - ele afirma com uma voz fraca e dolente - acho que quebrei meu braço. - Não se preocupe, vou chamar ajuda! - Não! - Ele diz inseguro - não me deixe sozinho - sua voz hesita. - Vai ficar tudo bem, sabe, uma pessoa, uma vez me disse que, quando uma situação parece piorar cada vez mais, parece que não haverá solução e você se encontra em pânico, apenas respire fundo e pense em cinco coisa ao seu redor que envolve os seus cinco sentidos. - Como assim? - Ele profere franzindo a testa confuso. - Pensa em cinco coisas que você vê com os olhos primeiro. - Como isso vai me ajudar! - Ele retruca estressado. - Só faça, por favor, confia em mim - digo o acalmando com uma voz gentil - respira fundo e comece. Ele cerra os olhos, talvez ainda mostrando sinais de dúvida, todavia respira fundo derrotado e segue me descrevendo o que consegue ver com os olhos. Aproveito que o Leo está distraído e rapidamente chamo, apavorado, algumas pessoas que estavam próximas e uma multidão de gente me acompanha até o acidente, conseguem retirar o Leo do barranco com uma corda e logo chamam uma ambulância... O Acompanho até o hospital, não sabia por que estava fazendo tudo aquilo, mas queria conferir se ele estava realmente bem. No momento sua família está dentro da sala conversando com ele e eu aguardo sentando no banco próximo a recepção, esperando notícias boas, sua irmã aparece de repente e diz: - Com licença, você que é o Wally, certo? - Assinto que sim - Prazer sou Cintia e estou muito grata que você ajudou o meu irmão cabeça dura - ela articula simpática, levantando uma das mãos para me cumprimentar. - Está tudo bem - devolvo a referência - prazer! - Preciso que me siga, o Leo quer dar umas palavrinhas com você. - Oh sim - assinto sem jeito. Eu a acompanho até a sala que o Leo está hospitalizado, ela abre a porta, o mesmo se encontra na cama com o braço direito engessado e com curativos no rosto, ele me fuzila com hesitação, sua família se encontra ao lado da cama, seus pais estavam chorando com os olhos pousados no filho, ele dispara um olhar para eles e os mesmos se retiram deixando-nos a sós. Ele segura minha mão e diz: - Eu estou me sentindo culpado - abaixa o olhar com receio. - Do que? - Digo me fazendo de desentendido. - Você sabe muito bem Wally, tudo o que eu fiz com você - estendo a mão, fazendo um sinal para ele parar. - Leo relaxa, o importante é sua saúde, tenho certeza que faria o mesmo por mim - digo tentando passar o meu otimismo. Ele me encara com um tom irônico, mostrando sua resposta e prossegue se ajeitando na cama. - Não! - Ele diz determinado - depois de tudo que eu fiz com você, mesmo assim me ajudou - lagrimas saem de seus olhos - Porque Wally? - Ele se questiona melancólico. - Eu-eu - escolha as palavras certas - Não sei... só temia que o pior acontecesse. - Wally, eu estou me sentindo muito m*l mesmo, depois de tudo que eu fiz com você, e mesmo assim - ele pausa um pouco a sua fala repetida - me ajudou... - Leo esquece isso, eu já entendi. - Não, você não entende! - Ele me olha fixamente, um olhar sério e voraz, apenas fico em silêncio o ouvindo - tudo o que fiz com você, eu tive um motivo... - Ele pausa, refletindo, arqueio uma de minhas sobrancelhas confuso - Wally, quero que saiba, desde o momento em que te conheci, eu tive medo. - Como? - Digo não conseguindo digerir aquelas palavras abstrusas. - Tinha medo de você me... - ele faz um pequeno intervalo, talvez procurando uma palavra com cautela, Leo volta me olhar apreensivo, respira fundo e prossegue - Wally, eu tinha muito medo de você me substituir no grupo. - O... - Quando tento questionar ele me interrompe aflito. - Eu sei que parece idiotice, mas tinha muito medo, queria fazer todos te odiar por isso fiz tudo aquilo, inclusive aquela aposta com a Tânia, pensei que assim você ia largar do nosso pé, sei lá ir para outra escola. - Mas como iria substitui-lo! - Fico inquieto e engulo em seco. - Porque você... - oscila em continuar - você e o Luiz não se desgrudavam nos últimos dias, tinha medo de perder meu melhor amigo, além do mais - ele desvia seu olhar no chão com temor de terminar, porém prossegue - eu tenho que admitir, você é uma pessoa muito legal. -... - fico sem palavras. - Wally, então espero que um dia você me perdoe por tudo - seus olhos não param de derramar lagrimas e seu corpo inteiro esbanjava arrependimento - sei que é meio recente ainda para você entender tudo, mas vou dar o seu tempo e prometo nunca mais fazer aquelas coisas. - Não precisa pedir desculpas, eu já aceitei da primeira vez que você pediu - digo sorridente. Ele me observa com um olhar inesperado, e logo dá um sorriso de canto. - Eu não entendo você Wally, se fosse eu, eu... - ele abaixa o olhar sorrindo, com apreensão ainda em si. - Eu não sou você Leo - digo estendendo a mão - por isso eu te perdoo, desde que mais nada do tipo se repita - brinco piscando um dos olhos. - Está certo - ele agarra minha mão e retribuindo o aperto - de agora em diante vou agir mais como um amigo. Essas foram suas últimas palavras antes das enfermeiras entrarem e me retirar da sala. Fico pensativo com tudo que o Leo disse, eu, substitui-lo? Eu, uma pessoa legal? Aquilo me animou, retirando um sorriso em meu rosto. Talvez as pessoas não sejam tão ruins assim, só agem de formas diferentes ou egoístas quando estão de frente com algo que sua mente interpreta como uma ameaça, mas as coisas não são bem assim, por isso devemos sempre tomar cuidado com as conclusões precipitadas. Isso me fez lembrar, será que eu estou me impondo muito para o Luiz, acho que tenho que dar um tempo para ele conseguir refletir tudo, nosso beijo, nossa proximidade, foi tudo muito rápido, por conta disso ele está agindo diferente diante a mim. Vou espera-lo digerir tudo e quando estiver pronto, veremos se temos uma chance de ficarmos juntos. Trazer o pensamento de estar próximo dele, sentir sua mão próximo a minha coxa, seu perfume, seu corpo, seu sorriso e seu olhar instigador, me faz morder o meu lábio inferior com desejos voraz de beija-lo novamente...
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