O molhado

1743 Words
Depois do beijo que ocorreu, por mais que tenha sido magnifico, eu e o Luiz, nas últimas semanas, andamos nos evitando mesmo na hora de ir embora, o motivo nem eu mesmo sabia, quando nos encontrávamos por acaso, nos encarávamos, eu não conseguia dizer nada, quando sentia que ia sair algum fonema que se encontrava na ponta da minha língua, pronto para ser falado, alguma coisa a travava e então terminávamos com um oi e um tchau e seguíamos os nossos caminhos. Eu simplesmente não sabia mais como reagir ao seu lado, nem como conversar ou me expressar, é como se agora tudo fosse... diferente. A hora da saída, quando o avistava, só pensava em me esconder e ir embora sozinho, o mesmo ele parecia fazer. Acho que os últimos resquícios de amizade que tínhamos, foi embora junto com aquele beijo que embora tenha sido bom, me custou um grande amigo... Por mais que eu tenha alguns amigos na sala, todavia todos ainda me tratavam como um doente mórbido com uma doença transmissível. Olhares de desdém, cochichos nos cantos, risadas e piadas sobre mim rondavam aquela sala. Os principais causadores, é claro a maioria das vezes, as najas, o Leo e o Igor. Eles não saiam do meu pé e eu nem sabia o que fizera para eles. O Theo, William e o Marcos, muitas vezes me tratavam da mesma forma, às vezes parecia que eu era um entretenimento para eles ou que eu só prestava nas aulas de artes para desenhar. Eu não sabia como reagir nessas situações, estava acostumado aos xingamentos, as brincadeiras de mau gosto, os risos, piadinhas e entre outros. De certa forma, estava habituado a tudo isso, esse farto de sair na rua e ter olhares voltados a mim ou muitas vezes comentários que sempre se repetiam várias e várias vezes, tais como: "nossa como ele é magro!", "será que na casa dele tem comida", "acho que ele é doente". Só baixavam o meu astral e o meu distanciamento do Luiz, só contribuía para que eu ficasse excluído de todos, cada vez mais, voltei a ser o garoto solitário da parede.. Era como se existisse uma hierarquia naquela sala, onde as víboras, o Leo, o Daniel e o Luiz fossem à classe mais alta, seguida pelos demais e logo na camada mais baixa se encontrava eu. O pior é que eu não conseguia me defender sozinho, tentava utilizar as palavras certas, mas nada vinha a minha boca, como se a minha língua precisasse ser afiada. Então eu aceitava tudo de cabeça baixa, tentando não me destruir por fora, pois por dentro, tudo já havia sido devastado e cada vez mais se desintegrava. Sentia falta do Geovanni, que agora m*l o via, pois ele só andava com as garotas que me odiavam de sua sala, o José Tiago... sem comentário, este se tornou como os demais, me tratando da mesma forma. O Rogério e o Pedro, nunca mais os vi, por estudarem em outra escola ou período diferente. Sentia-me cada vez mais sozinho, como se estivesse me afogando num mar de solidão e o meu antidoto, minha salvação, minha vacina, o Luiz, eu o distanciei... sentia que tudo aquilo que estava acontecendo era por conta de algum problema em mim e a Tânia que pensei que seria minha amiga, apenas estava seguindo uma aposta... comecei a acreditar que estava amaldiçoado por alguma coisa que fizera na minha vida passada. A minha animação de ir para escola, se esvaíra, as aulas ficaram mais longas e o ânimo para a mesma só ruindo, como se estivesse caindo em um poço sem fundo... A única forma de passatempo que conseguia na sala de aula, quando não estava desenhando, era observar os reflexos das pessoas na janela, pois quando o pôr do sol já quase se fora, os reflexos ao escurecer ficavam mais nítidos. Me habituei a observar principalmente o reflexo de uma individua em específico, o Luiz. Ele ficava tão bonito concentrado no caderno, ora seus olhos se fixavam na lousa copiando, ora seus olhos retornavam para o caderno, às vezes ele sibilava para o Leo que sentava ao lado e ria de suas próprias palavras, mostrando suas lindas covinhas... e eu lembrava e relembrava o momento que nos beijara, fazendo surgir um sorriso na minha face. Talvez nesse mundo não haja espaço para que eu e o Luiz ficássemos juntos, talvez o pastor esteja certo, o meu amor pelo Luiz é como se fosse à maçã que Eva comera, pois, a maçã era doce, atrativa e suculenta, porem a levara para a desgraça, todavia se não era para Eva comer, por que então Deus deixou o fruto entrar no paraíso? Mesmo ele sendo onipotente, onipresente e onisciente. Eu não entendo muito a bíblia, pois pouco a lê, mas de uma coisa eu sei, se o nosso amor é um pecado, então porque Deus permitira que nos apaixonasse, assim como permitira que Eva comera maçã. Talvez Deus não mande nem para o inferno, nem para o céu, talvez Deus mostre aqui mesmo no mundo, o nosso próprio céu e inferno, assim como nessa sala o meu céu é o Luiz e o meu inferno é os demais que me tratam diferente... Essa deve ser a maneira que ele nos mostra para que assim possamos aprender e evoluir, tanto fisicamente quanto espiritualmente... Encontrava-me deitado no banco do jardim da leitura, pois estava na aula vaga, observava o céu e as nuvens com formatos semelhantes a animais, aparentemente, choveria, pois, as nuvens cada vez mais se acinzentavam e se acumulavam em um clima nublado. De repente um vulto se projetou em minha visão, era o Leo, eu arqueio uma de minhas sobrancelhas, ele me pede para levantar e me puxa do banco rapidamente. - Preciso te mostrar uma coisa! – Diz lepidamente, eufórico e me puxa rápido com a mão. Eu não resisti, sua animação era contagiante, atiçando minha curiosidade. Chegamos ao pátio, próximo à quadra, havia uma mangueira de água que geralmente as funcionarias usam para limpar o chão do mesmo, observo tudo confuso tentando compreender por que ele me arrastara para lá, o Daniel a segurava e próximo a ele jazia a Flavia, Beatriz, Jessica, Cláudia e algumas pessoas que não prestei atenção direito, o Leo astutamente me empurrou para próximo do Daniel, olho entre os ombros para ele tentando entender a situação e foi que então o Daniel começou a esguichar água em mim, movo os meus braços tentando me proteger da mesma, mas um jato voou em meu rosto, fazendo com o que eu não conseguisse enxergar nada, só ouso alguns xingamentos e as risadas que se formavam, inclusive consigo distinguir a voz de alguém, Igor, ele dizia: - Toma esguichada sua lambisgoia! – Todos riam após sua frase, só que de uma forma mais intensa. Várias gargalhadas se formam cada vez mais, consigo distinguir algumas, William, Diogo, Marcos, todavia a do Theo não consegui escutar, isso me faz pensar que ele não estava lá, até me conforta que pelo menos ele não se presa a isso. Só queria que alguém me tirasse daquela situação, seja o Luiz ou alguém da diretoria, o Daniel desliga a torneira. Enxugo o meu rosto todo molhado com as costas de minhas mãos para conseguir ter uma visão mais nítida, quando os vestígios de água saem da minha visão, reparo na multidão que se formou ao meu redor. Todos rindo, alguns apontavam o dedo para mim e caçoavam, outros colocavam a mão na barriga de tanto rir, aquele som ficou fazendo ruídos na minha cabeça e coloco as mãos em meus ouvidos tentando aliviar a dor, volto o meu olhar mortífero a todos, fuzilando inclusive as víboras e ao Léo. Todavia, o que prendeu mesmo a minha visão foi quando reparo que o Luiz se encontrava no meio da situação, nos encaramos por alguns segundos e faço uma expressão injúria, ele nem se presou em tentar me ajudar, só continuo observando novamente...  Lagrimas se formam em meus olhos e ele abaixa a cabeça com receio, mostrando talvez sinal de arrependimento, mas penso, tarde demais! Giro a minha visão novamente a todos, encarando cada um e saio correndo ensopado, abrindo espaço pela multidão, enquanto corria alguém coloca um pé na frente e caio, volto o meu olhar para o indivíduo, era o Igor, ele solta um sorriso maléfico e ranjo os dentes de raiva, queria fazer algo, mas sou um magrelo, fraco que não sabe brigar, retomo meu olhar novamente para o Luiz, que vira as costas e vai embora, sem ao menos presar em me ajudar a levantar, enquanto todos ainda riam, me levanto com esforço e vou para o meu lugar de conforto, a cabine do banheiro, onde fico chorando entre o silêncio e o barulho de algumas pessoas que entravam para fazer suas necessidades no mictório. Naquele momento, percebi o que a Ester sentiu, estava magoado, humilhado, com o coração machucado e em pedaços. O pior é que pressentia que eu e o Luiz já acabara o que nem ao menos começara. Ou seja, o meu céu, a minha luz, minha salvação ou esperança, acabara se esvaindo por completo, restando apenas o meu inferno pessoal. Lembrei-me das palavras do pastor, e agora relacionei com a minha situação, percebi que estou vivendo o meu pecado e o pagando, sofrendo no inferno que é a minha vida... Não entendia por que nenhum funcionário parecera para interromper a cena, onde estava a diretora Miriam que se diz tão justa como tanto se bajulara? Eu não queria ficar mais naquela escola, o sinal tocara, mas não entrei na sala. - Já decidi o que vou fazer! Dos rumores que o meu irmão me contava, eu lembrei de um, um muito útil naquela situação, ele disse que próximo ao estacionamento, há um muro muito baixo, fácil de pular, ainda mais para mim que sou alto. Aparentemente na área não tinha câmera, talvez pelo baixo orçamento. Nunca fizera isso antes, estava um pouco apreensivo de ser pego, mas não me detive, o que mais queria fazer naquele momento era sumir, me embrenhando nas paredes, passei disfarçadamente pelas funcionárias que jazia ali e cheguei ao tal muro, onde facilmente consegui escala-lo, então o pulei, saindo daquele inferno, um alivio. Lembrei até que esqueci minha mochila, todavia, f**a-se, não iria retornar de jeito nenhum para aquela escola. Então encaminhei sem direção abatido, aflito, humilhado e pior ainda, de coração partido...
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