A garota da faca

1859 Words
[...] me embrenhando nas paredes, passei disfarçadamente pelas funcionárias que jaziam ali e cheguei ao tal muro, onde facilmente consegui escala-lo, então o pulei, saindo daquele inferno, um alivio. Lembrei até que esqueci minha mochila, todavia, f**a-se, não iria retornar de jeito nenhum para aquela escola. Então encaminhei sem direção abatido, aflito, humilhado e pior ainda, de coração partido... Estava sobre a calçada da escola, andava sem direção, não fazia ideia do que fazer ou onde ir, ainda estava nublado e cada vez mais as nuvens se acinzentavam dando indicio que logo, logo, choveria muito forte. Aparentemente é três da tarde, chego a uma pequena praça que se encontra atrás da escola, um lugar frequentado por drogados, ninguém nunca me procuraria aqui, se é que realmente eu faria falta... Não sabia o que faria até dar o horário de ir embora, então me sento na pequena praça, o lugar por estar bem escondido da cidade, próximo a mata que jazia um rio e a lenda da balança maldita (recapitulação S02), é muito malcuidado, os bancos e as mesas feitos de pedra estavam todos rachados e alguns destruídos, o mato cobria todo o caminho, pichação infestava as paredes do ambiente. Um pouco distante da mesa que estava sentado, havia um grupo de maconheiros, a contar, diria uns cinco, todos usando blusa longa, com capuz, alguns com boné para trás, eles zoavam, baforavam, fumavam e riam ao ar, enquanto escutavam em uma pequena caixa de som, rap. O cheiro do fumo impregnava o lugar, até tossia de tão forte que era. Mas mesmo assim, os reparando, eles pareciam estar se divertindo, se davam bem, brincavam, pelo menos eles em grupo são aceitos, mesmo fazendo algo ilegal, aparentam ser realmente amigos de verdade, já eu... nem isso tenho. De repente, um deles começou a me fitar, desvio o olhar para baixo, apreensivo, espero que eles não venham até aqui, não quero confusão. As horas não pereciam passar, e o céu ganhara tons de um cinza bem mais escuro, como minha mãe gosta de falar: "vai cair um toró". Já me entregara totalmente ao tédio, com a mão apoiando meu rosto, com expressão cansada, eu fitava o canto mais distante que os meus olhos conseguiam enxergar, pelo menos isso era um bom passatempo. De súpeto, com a minha visão periférica, vejo o grupo de maconheiros saírem da mesa que estavam sentados, eles ficaram um tempo em pé, cochichando enquanto me encaravam entre os ombros, aquilo já me estremeceu de medo, por alguma razão eu sabia que aquilo representava perigo. Então, já aflito, eu me acanho e levanto sutilmente, tentando sair dali o mais rápido possível, porém, um deles me intervém rapidamente e quando percebo, já estou rodeado pelos demais. Engulo em seco, o medo me dominara, uma menina com um boné para trás se aproxima de mim e me aborda colocando a mão em meu ombro, como se fossemos próximos, franzo ainda confuso, ela pergunta: - E ai guri! - Eu assinto perplexo, não entendia o que eles queriam comigo, ela prossegue - Tu tem cigarro? Assinto que não, era até irônico ela perguntar isso para mim, era só olhar para as vestes que usava, claramente parecia um virgem, inocente e nerd, afinal de contas, nunca coloquei isso na boca, mas essa resposta parece que não os convenceu. Ela olha para os dois ao seu lado e pede algo para eles, um dos mais forte retira uma faca do bolso e entrega a ela. Ao ver a lamina refletindo minha face, eu estremeci totalmente, ela prossegue, alisando a lamina como sinal de intimidação. - Acho que você não me entendeu miolo mole - com a mão direita, ela sinalizava para eu passar algo. Arregalo as sobrancelhas, não entendia ainda qual é a deles: - Olha, eu não tenho nada de valor, por favor me deixem ir - murmuro apavorado. - Vamos ver se morto você vai ter - afirma, apontando a lâmina para a minha barriga e esbanjando um sorriso amedrontador. Aquela frase parece que ganhou um teor de sátira, uma piada interna, pois todo o seu grupinho não parava de rir junto a ela, mas para mim, aquilo foi muito sério, eu realmente não vi graça naquilo. Enquanto eles riam, eufóricos, eu aproveito a chance para correr, não sei o que seria de mim naquele momento, porém, o meu instinto dizia, "corra pela sua vida!" E foi o que eu fiz, corri o mais rápido que eu consegui, entre os ombros, eu os via distante, ainda me perseguindo e o único caminho que poderia percorrer era um beco estreito a frente, ele se encontrava ao lado do rio, engulo em seco e penso - seja como Deus quiser. O Beco era sujo, repleto de resíduos de lixo, com o fedor que o rio exalava, deixava aquele lugar desagradável. A está altura, estávamos já a quilômetros da escola, havia entrado nos subúrbios da cidade, um lugar bem f**o, repleto de construções abandonadas e ocupações, as ruas não eram asfaltadas, em vez disso, havia muito mato e terra. O mais bizarro era que não se encontrava ninguém ao redor para me ajudar. Já demostrara sinal de cansaço, porém, os baderneiros nem pareciam estar desgastados, será que é um dos efeitos da e**a? Não, isso só provava que eles usavam uma d***a pior. Eles pareciam sobre-humanos, nem soar se quer soavam, enquanto isso, eu estava ofegante, todo soado, minhas pernas doíam, meu peito parecia estar sendo esmagado por alguma pressão. Era questão de tempo até eu não conseguir manter o ritmo e ser pego, não sabia o que me aguardava, eles não pareciam estar na razão, provavelmente consumidos por algum tipo de efeito alucinógeno. Quando me dou conta, no desespero do momento, viro uma esquina sem querer e acabo em um terreno sem saída, era o meu fim, eles se aproximam rapidamente e me encurralam. Com o nó na garganta, me embrenho e me acanho no muro, já prevendo o que quer que ia acontecer comigo. A menina com a faca se aproxima e diz: - Vai se arrepender de ter corrido pivete, vai, passa tudo! - Ela gesticulava com a mão esquerda, enquanto com a mão direita afiava a faca na própria mão, mostrando o quanto ela realmente estava insana. - Eu-eu não... - não conseguia dizer nada, tudo aquilo era apavorante de mais, jamais imaginara passar por tal situação. Minha voz perdia força, o meu corpo não conseguia se mover mais de cansaço e temor, cada vez mais ela se aproximava e minha mente era mergulhada de milhões de possibilidade de dizer que aquele era o meu fim.... Contudo, uma voz me despertou, um grito em especifico: - Sai de perto dele! Arregalando mais os olhos, percebo melhor, deixo, quase que, um sorriso involuntário, avisto ele de longe se aproximando. Sua silhueta fica clara, é o Luiz, ele estava logo atrás do grupo, na entrada do terreno, mas afinal, o que ele queria aqui? Era ele contra um grupo, era obvio que ele não iria vencer, nem ao menos teria chance, a moça com a faca vira a atenção para o Luiz e ela gesticula para seus amigos irem até ele. Luiz continua: - Deixa ele em paz! - Ele vocifera, como um leão sedento por sangue. A menina dá risada, e prossegue: - Você é engraçado - ela vai em direção a ele e posiciona a faca em seu pescoço, enquanto dois seguravam seus braços de uma forma abrupta - vamos ver se vai ser tão valente assim depois que estiver sem a cabeça - ela ironiza e novamente todos do seu grupo acha humor em uma frase que bota medo na pele de qualquer um. Eles caem na gargalhada. - É isso que você quer, não é? - Luiz barganha com um tom sínico, mostrando diversas notas de cem reais. Quase que em uníssono, todos param de rir e começa a encarar o dinheiro. A mulher da faca deixa escapar um enorme sorriso, seus olhos fitam as notas e parecem brilhar de encanto. Então, ela toma o dinheiro da mão do Luiz de uma forma bruta e vai embora correndo e gritando, eles realmente estavam todos muito loucos de d***a. Luiz se aproxima de mim e estende a mão para eu levantar, olho para seu rosto receoso, ainda não conseguia esquecer do acontecimento de antes, meio tremulo e acovardado, seguro sua mão e ele me ajuda a levantar. - É melhor a gente sair daqui o mais rápido possível, quando eles perceberem que não é dinheiro de verdade... - diz com ar brincalhão. - Como você me achou? - Deixo um tom de voz ríspido escapar. Embora eu estivesse muito feliz de saber que ele veio atrás de mim, ainda não conseguia tirar as imagens de seu olhar frio e de seu rosto se virando quando eu mais precisava de ajuda... - Bem... meio que... - ele se perde em suas próprias palavras. E aquilo foi como uma facada para o meu coração. Porém, antes de nós continuarmos qualquer assunto pendente, somos pegos por pingos de chuva. As nuvens que já ameaçavam a um tempo, mostram sinais de uma tempestade forte. Os pingos foi se intensificando até se tornar uma chuva torrencial, as gotas estavam frias e o vento soprava muito forte. O Luiz agarra minha mão e tenta me guiar. Porém m*l conseguia enxergar pela força da chuva, quanto mais andar, depois de tantos quilômetros que corri, estava exausto, minhas pernas vacilavam, m*l conseguia andar. - Vamos para minha casa, rápido, não está muito longe daqui – ele diz em um tom doce e carinhoso. Então em um movimento repentino, Luiz me posiciona em suas costas, mostrando o quanto era forte, ele não parecia se incomodar com o meu peso, apesar que eu nem deveria pesar tanto. De canto, consigo ver suas feições adotarem um tom preocupado, então, naquele momento, esqueci tudo o que ocorrera antes, apenas me conforto sobre suas costas o abraçando, enquanto ele me carregava. Estava praticamente colado a ele, conseguia sentir seus músculos fortes e rígidos, e mesmo com a chuva forte, o cheiro do seu perfume de baunilha ainda prescindia. - Vai ficar tudo bem Wally – diz suavemente me desvirtuando do silêncio. Sua voz calma, foi o bastante para fazer o meu coração parar de bater rápido por conta da adrenalina de antes e aos poucos fui me entregando a tranquilidade que ele esbanjava, mesmo com os pingos de chuva frios, me deixo ser levado pelo sono, posiciono minha cabeça em seu ombro de uma forma confortável e me entrego a sonolência. Aos poucos o cenário foi ganhando tons de preto até se intensificar em um breu profundo, porém, ainda conseguia enxerga algumas imagens ao fundo, forçando minha visão, reparo na linda memória do seu beijo, estava desfocado e abstruso, porém ainda lembro dos seus lábios suaves e calorosos, me indicando que eu ainda não conseguia esquecer ele, desejo mais, e isso só me fez pensar que a palavra "gostar", não era só um verbo, era um adjetivo ao meu "te amo", indicando o quanto estou perdidamente atraído por ele...
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD