Tão logo descobriu que Noah não havia tomado o café da manhã e tampouco almoçado, Mary Anne não sossegou enquanto não o convenceu a fazer um lanche. Determinada a preparar uma refeição substanciosa, partiu para a cozinha, levando Maggie consigo. John Paul as seguiu, deixando Noah e o filho a sós.
— Sua mãe me disse que você prefere ser chamado de Erik — ele falou, sentindo-se estranhamente inquieto. Ainda não se recobrara da emoção profunda de haver segurado o filho nos braços pela primeira vez, após doze anos.
— Sim, senhor. — Erik se sentara no sofá, ao lado do pai.
— Vou levar algum tempo para absorver esse novo nome, mas acho que acabarei conseguindo.
— É como estou acostumado a ser tratado, senhor.
— Você me chamou de pai minutos atrás — Noah comentou delicadamente.
— Eu... eu sei. Mas talvez não devesse ter feito isso. — Os olhos do rapaz brilhavam angustiados. — Eu... eu disse a Me... Maggie que a chamaria pelo nome, e não de mãe.
— Entendo. Existe uma outra pessoa a quem você chama de mãe?
— Sim. Porém ela morreu há quatro meses. Seu nome era Diana.
— Ela era boa para você?
— Sim. Eu... eu a amava. Não tive coragem de deixá-la sozinha com aquele... Sozinha. — Erik baixou o olhar e ficou em silêncio por alguns instantes. — Provavelmente eu... eu feri os sentimentos de minha... Isto é, de Maggie.
— Você lhe explicou sobre sua outra -mãe?
— Não. Eu... — Ele cerrou os punhos, os ombros caídos revelando toda a tensão interior. — Eu não sabia como.
— Está tudo bem. Você poderá lhe contar quando se sentir pronto. E não há problema em chamá-la de Maggie, assim como poderá me chamar de Noah, se quiser.
— Nunca chamei ao outro de pai — Erik murmurou com uma ferocidade tal, que Noah se sentiu impressionado.
— Quem? Você está falando sobre o homem que o seqüestrou?
— Sim. Nunca o chamei de pai. Nunca.
— Está tudo bem, filho. — Noah estendeu a mão e o tocou no ombro de leve. Sentindo-o ficar rígido, rompeu o contato imediatamente.
Erik o estava observando atentamente.
— Talvez fosse melhor eu tratá-lo de Noah, certo?
— Certo.
— Quanto tempo você levou para chegar aqui?
— Duas semanas. Eu roubei nosso... o carro... dele, e tentei ir o mais longe possível. Tinha pouco dinheiro comigo e não podia gastá-lo em gasolina, assim, fui obrigado a abandonar o carro em Arbor e... — Ele parou de repente, percebendo que estava entrando em muitos detalhes. — Foi quando comecei a pedir carona na estrada. Fiquei sem-dinheiro em Mobile. Precisei andar um dia todo antes que um caminhoneiro me desse carona e me pagasse uma refeição. Ele estava indo para Tallahassee. De lá para cá, foi fácil.
Noah sabia que nada havia sido fácil na trajetória do filho. E doía-lhe a alma pensar no que aquele rapazinho suportara. Não era à toa que estivesse à beira de um colapso nervoso. Já vira o mesmo desespero mudo, o mesmo esforço sobre-humano para manter o controle nos seus recrutas. O menino precisava de tempo para ordenar os pensamentos e aprender a conviver com as lembranças de quase uma vida inteirai de sofrimento. Não havia a menor dúvida de que seu filho vivera num inferno. Oh Deus, que tipo de canalha mantivera Erik sob seu poder durante todos aqueles anos? Ainda que fosse a última coisa que fizesse, encontraria o criminoso e o faria desejar nunca ter nascido.
— Você sempre foi um SEAL? — Erik perguntou de súbito.
— Desde quando você era apenas um bebê.
— Em Michigan havia um velho que morava mais ou menos perto de nós. Ele tinha servido na Marinha e lutado no Vietnã. Às vezes, falava sobre a guerra e sobre os SEALs.
— Meu chefe esteve no Vietnã também. E tem muitas histórias para contar.
— Histórias verdadeiras?
— Sim.
— Os SEALs são mesmo treinados para m***r um homem com as mãos nuas?
— SEALs são soldados. Erik. São treinados para fazer o que soldados sempre fizeram. — Noah não gostava do rumo que a conversa estava tomando. Infelizmente, sabia muito bem que podia m***r um homem com as mãos nuas. Certa vez, há muito tempo, num lugar distante, tivera que fazer isso, porém não era algo que desejasse discutir com o filho. — Por que você está perguntando? — Sua voz soou um pouco mais dura do que pretendia e Erik se retraiu para um dos cantos do sofá.
— Eu estava apenas pensando. — O garoto mudou de assunto. — Você vai ficar aqui algum tempo?
— Em Hurricane Beach, sim. Mas não em Paraíso do Mar.
— Por que não? — Erik parecia mais relaxado agora, o olhar havendo perdido a expressão assustada.
— Acho que será mais fácil para todos se eu me hospedar num outro lugar. Sua mãe e eu estivemos separados por um longo tempo. E sua avó sempre manteve algumas reservas a meu respeito. Mary Anne não aprovou o fato de Maggie ter fugido comigo para se casar após três semanas de namoro. Maggie tinha somente dezenove anos e eu era um pouco mais velho. Um marinheiro sem perspectivas. Então você nasceu e sua avó se esqueceu de tudo. Para Mary Anne, o mundo passou a se resumir ao neto.
Erik sorriu de leve.
— Você não vai ficar muito longe daqui, não é?
— Estarei hospedado num daqueles chalés, logo no final da praia. Sabe onde é?
— Não. Ainda não conheço bem a cidade.
— E fácil localizá-los. Os chalés estão quase defronte à loja de sua tia Amy.
— Acho que serei capaz de encontrá-los.
— Creio que já demos à sua avó... e Maggie, tempo suficiente para terminar a função na cozinha. Que tal lanchar comigo?
O rapaz balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Não, obrigado. Tudo o que vovó tem feito desde ontem, quando cheguei, é me alimentar. Sinto-me exausto. Creio que seja porque eu ainda não me acostumei a todo esse sol e calor. Vou subir para meu quarto. Você explica a elas que fui descansar?
— Claro, filho.
Os dois se levantaram.
— Fico feliz que você esteja aqui — Erik falou.
— Fico feliz em tê-lo de volta. — Noah estendeu a mão e, depois de um breve instante de hesitação, desarrumou os cabelos do filho, num gesto transbordante de carinho.
— Você costumava fazer isso quando eu era pequeno? — Erik não sorriu, apenas continuou fitando o pai, os pensamentos parecendo muito distantes.
Noah concordou em silêncio. A última vez que o tocara, o filho não passava de um garotinho. Hoje, era quase um homem.
— Que tal se eu o apanhar amanhã cedo e o levar para cortar os cabelos?
— Sim. Acho que é uma boa idéia. Minha mãe... Diana — ele se corrigiu —, costumava cortar meus cabelos. Faz algum tempo desde que não os corto.
— Às dez horas estará bem para você?
— Está. Passarei pelo seu chalé para encontrá-lo.
— Ótima idéia — Noah concordou. — Então está combinado. Às dez. Eu gostaria de convidá-lo para tomar café da manhã comigo, mas duvido de que conseguirá sair daqui sem que Mary Anne o tenha feito comer por dois.
— E verdade. — Erik sorriu.
Um sorriso franco. Noah sentiu o coração disparar no peito. Era uma versão adolescente, quase adulta, do sorriso de seu filho aos quatro anos. Jamais tirara da carteira aquela última foto de Erik, tirada semanas antes do menino desaparecer, em que ele sorria feliz câmera. A foto, acompanhada da notícia do seqüestro o estiveram esperando quando regressara
uma missão secreta, do outro lado do mundo.
E o velho sentimento de culpa, que o perseguira durante todos esses doze anos, voltou a atormentá-lo.
Eu deveria ter estado perto para proteger meu filho.
— Erik? Aonde você vai?
Pai e filho estavam de pé, junto ao primeiro degrau da escada, quando Maggie entrou na sala. Mary Anne continuava na cozinha, terminando de preparar a salada que a filha começara e perguntando-se onde Annie, que tirara o dia de folga, havia escondido os salgadinhos. Ansiosa com o que poderia estar se passando entre Noah e Erik, Maggie pouco ajudara a mãe e saíra da cozinha, em busca dos dois, na primeira oportunidade.
— Erik tomou muito sol — Noah explicou, virando-se para fitá-la. — Vai subir para descansar.
Imediatamente ela voltou a atenção para o filho, notando a vermelhidão do rosto, braços e pernas. Logo, seu treinamento profissional, e instintos maternais, vieram à tona.
— Você está bem, Erik? Tem certeza de que não está com febre?
— Estou bem, senhora.
— Tem mesmo certeza? — Maggie deu um passo à frente, porém Noah estava bloqueando o acesso à escada, o que acabou por impedi-la de se aproximar do filho. — Você não está acostumado a esse sol forte. É fácil sofrer queimaduras.
— Ele está bem, Maggie. Apenas precisa de um pouco de tempo sozinho.
— Mas o lanche...
— Deixe-o ir, Maggie, — Havia um certo tom de comando na voz baixa e profunda de Noah, um aviso sutil para que não pressionasse o filho.
Embora preferisse não admitir, Maggie sabia que Noah tinha razão. Erik estava se comportando de maneira cautelosa, quase desconfiada, e não devia forçá-lo a aceitar uma i********e para a qual não estava preparado. Assim, obrigou-se a se mostrar calma.
— Você vai descer para jantar conosco, Erik?
— Sim, senhora. — E então para Noah: — Até amanhã, às dez.
— Estarei à sua espera.
Maggie observou o filho subir os degraus. Haveria algo familiar na maneira com que ele se movimentava? Não. Nada que ligasse o adolescente alto à criança que lhe fora roubada. Seria capaz de aceitar, sem reservas, que aquele fosse o seu filho? Esperava que sim. Porém, pelo menos no momento, tal fé cega estava fora de seu alcance.
A voz de Noah interrompeu o curso de seus pensamentos.
— Ele teve um dia duro hoje. Precisa de tempo para assimilar tudo isso.
— O que foi que Erik quis dizer quando o avisou de que estaria pronto amanhã às dez?
— Vou levá-lo para cortar os cabelos e comprar algumas roupas.
— Você vai levá-lo? — Que história era essa? Como Noah podia saber que o garoto precisava de sapatos e roupas? Como, se os dois haviam conversado por menos de quinze minutos?
— Sim.
A cabeça de Maggie parecia a ponto de explodir. Noah reaparecera em sua vida quase tão repentinamente quanto o filho. Seu marido, que a passagem dos anos transformara num completo estranho, conseguira estabelecer uma conexão instantânea com Erik, um vínculo que ela não fora capaz de fazer brotar.
— Você não tem nenhum direito de levá-lo a lugar algum — ela murmurou, a voz carregada de tensão.
— Como não tenho nenhum direito? Sou o pai dele.
— Você nunca esteve presente quando necessário. Nosso filho o conhecia apenas através de fotografias. — Maggie cerrou os punhos, amaldiçoando os tremores que sacudiam seu corpo inteiro. — Não entendo por que ele se sentiu próximo de você, não de mim.
— Erik teve uma mãe todos esses anos — Noah falou suavemente.
Outro golpe doloroso em sua alma. Quantos mais seria obrigada a absorver hoje, meu Deus? Maggie se afastou da escada e buscou refúgio na quietude do escritório de John Paul. Sem nada enxergar, fitou as dezenas de livros espalhados pelas estantes. Volumes velhos e novos, tão lidos e amados. Fotografias da família, em belos porta-retratos, e pequenas lembranças trazidas das viagens dos pais.
— É por isso que ele não sabe como deve me chamar, não é? — Noah a tinha seguido e, mesmo sem se virar, podia sentir a presença máscula logo atrás de si.
— Sim.
— Ele não quis me contar nada sobre sua vida. Eu... Ele não deve querer que nós a encontremos, que a confrontemos.
— A mulher está morta.
— Erik lhe disse isso também?
— Sim.
— E ele teve um outro pai? — Não foi possível evitar que palavras soassem ásperas e irônicas.
— Nosso filho não teve mais ninguém, exceto o homem que o seqüestrou.
— Ele se recusou a me falar sobre essas pessoas. Creio que. preferiria fugir daqui do que me dizer quem eram os seqüestradores. — Um soluço torturado escapou-lhe do peito. — Erik os está protegendo.
— Não, Maggie. Você o entendeu m*l.
— Como pode ter tanta certeza?
— Ele não tinha um pai, mas um carcereiro. Tampouco tinha uma mãe de verdade e sim uma mulher que, por algum motivo, cooperou com o marido para manter Erik afastado da família por doze anos. Nosso filho está exausto, confuso e morto de medo.
— Morto de medo?
— Erik sofreu abusos.
— Não.
— Há todos os indícios — Noah falou muito sério. Maggie o notara, porém preferira não admitir. Erik não queria ser tocado. E recusava-se a olhar as pessoas nos olhos, como se estivesse zangado, ou aterrorizado. — Mental e emocionalmente com certeza — Noah continuou —, e é provável que fisicamente também.
Ela mordeu os lábios com força para sufocar um grito de dor. Depois, colocou em palavras o que a angustiava.
— a***o s****l? — indagou num murmúrio.
— Não sei, Maggie. — As feições de Noah pareciam esculpidas em pedra. — É possível, mas não há como descobrir, a não ser que ele nos diga.
— Temos que achar um médico. Um terapeuta...
— Não creio que seja uma boa idéia pressioná-lo agora.
— Como pode ter tanta certeza assim?
— Trabalho todos os dias com garotos apenas alguns anos mais velhos do que Erik. Eu os treino para arriscarem suas vidas de centenas de maneiras diferentes, em centenas de lugares diferentes. Tenho que saber o que os move. E meu trabalho.
— Oh, Deus! — Ela olhou para o teto, como se pudesse enxergar através da camada de tijolos e cimento o coração e a mente do garoto que descansava no quarto. — Erik realmente precisa de alguém com quem conversar.
Noah aproximou-se devagar, a solidez do peito largo toldando-lhe a visão, o calor do corpo forte e o perfume másculo envolvendo-a por inteiro. Se pudesse fechar os olhos e se apoiar no marido para sempre...
— Erik tem a nós dois, Maggie. Por enquanto, é o suficiente.
Ela deu um passo atrás, tentando colocar um pouco de espaço entre ambos. Cada centímetro de seu corpo lembrava-se do toque das mãos de Noah, do gosto dos lábios sensuais na sua pele, da paixão que os unira.
Erik tem a nós dois. De repente, toda a raiva contida durante anos veio à tona.
— Ele tem a nós dois — Maggie repetiu sarcástica. — Nosso filho nunca teve a nós dois. Mas apenas a mim. Você jamais esteve presente. E só voltou para casa três intermináveis semanas depois de Erik ter sido seqüestrado.
— Nós já discutimos isso antes.
— O que não torna o assunto mais fácil. Você sempre foi um SEAL acima de tudo e em primeiro lugar. Suas obrigações de marido e pai vinham num distante segundo lugar.
— Você sabia o que ser esposa de um SEAL significava, quando se casou comigo.
— Não, eu não sabia. Eu não tinha nem vinte anos. E estava grávida. Amava você e queria que fosse feliz no trabalho. Não tinha idéia de que o estava perdendo para um estilo de vida que lhe exigia tudo, nada restando para sua mulher e filho.
— Não foi bem assim.
Maggie deu-lhe as costas, a raiva quase esgotada.
— Para mim foi. Você era mais próximo de seus companheiros do que de mim. A Marinha nem sequer o notificou quando nosso filhinho foi seqüestrado. — Ela mordeu os lábios até sentir o gosto de sangue. A dor sufocaria as lágrimas e a impediria de se atirar naqueles braços fortes, em busca de consolo.
— Eu estava numa missão...
— E eu estava sozinha. Sozinha. Não pense que você pode consertar tudo agora. Volte para Coronado. Deixe-me com meu filho.
Noah se moveu tão depressa que ela não teve tempo de se afastar. Em questão de segundos, sentia-se prisioneira do olhar duro e irado.
— Sou o pai de Erik. Não tenho intenção de ir a lugar nenhum. Você pode me odiar tanto quanto quiser, mas não poderá me manter longe de meu filho. Portanto, não pense em tentar impedi-lo de passar algum tempo comigo.
Então Noah lhe deu as costas e saiu da casa antes que ela pudesse se recobrar. Trêmula, Maggie sentou-se no sofá e apoiou a cabeça entre as mãos.
Como haviam chegado àquele ponto? Embora seu casamento não fosse mais nada, além de uma mera formalidade, ambos deveriam ter sido capazes de encontrar uma maneira de enfrentarem, com serenidade, aquele dia, o mais importante de suas vidas.
Doze anos atrás havia perdido o filho para um estranho.
Tornaria a perdê-lo agora, para o pai?
— Qual é o problema, Mary Anne? — John Paul observou a esposa retornar à cozinha, ainda carregando a mesma bandeja que levara até a sala, momentos antes.
— Aconteceu alguma coisa com Erik?
— Não. Isto é, acredito que o garoto esteja bem.
Ela ficou em silêncio, pensando em como gostaria de conversar com o marido sobre o que a angustiava. Mas, agora, quase não se falavam. E se existia alguma chance de recapturarem a felicidade conjugal do passado, a iniciativa deveria ser sua. Três meses atrás, convencera John Paul de que deveriam fingir estar à beira do divórcio, na esperança de que suas três filhas se unissem para salvar o casamento dos pais. Porém, quase imediatamente, o plano fugira ao seu controle. A caixa de Pandora que teimara em abrir acabara expondo ressentimentos guardados e uma raiva que não sabia existir dentro de si. John Paul ficara atônito, e magoado, quando ela o acusara de ser controlador e superprotetor. No auge da crise, Mary Anne saíra de Paraíso do Mar e John Paul começara a falar em vender a propriedade da família. Numa última tentativa de salvar seu casamento, ela voltara para casa, embora os dois passassem a dormir em quartos separados. Precisava encontrar uma maneira de tocar o coração do marido antes que fosse tarde demais.
— Mary Anne, diga-me o que está havendo. Se o problema não é com Erik, então o que há?
— Aconteceu algo. Maggie está aos prantos na sala e Noah saiu repentinamente. Sei que brigaram. Por causa de Erik.
— Como pode ter certeza? Os dois não se vêem há anos. Que motivos teriam para discutir?
— Talvez você tenha razão. Mas estou convencida de que é algo relacionado à maneira como o menino se apegou a Noah, tão rapidamente. Ela ficou magoada, John Paul.
— O que você sugere que façamos?
Mary Anne quase sorriu. E quando ia tocar o rosto do marido, percebeu a presença de alguém junto à porta da cozinha.
— Erik, querido. Em que podemos ajudá-lo?
— Eu estava querendo uma aspirina — ele falou. Vestindo apenas short, o rapaz tinha o peito, braços e pernas bastante queimados de sol e os olhos brilhavam, febris.
— Sim, claro. Acho que temos um vidro de aspirinas aqui mesmo na cozinha, em algum lugar. E outro no armário de um dos banheiros. — O medicamento estava guardado na terceira prateleira sobre a pia, bem fora de alcance. Um velho hábito de quem passara anos com três menininhas curiosas andando pela casa. — John Paul, você pode pegar o frasco para mim?
Ele estendeu o longo braço e apanhou o medicamento, entregando-o à esposa.
— Nunca consigo abrir essas coisas — falou. — Maldita artrite. Você pode fazê-lo para mim?
— Com prazer. — Mary Anne sorriu, embora, para seu pesar, o marido permanecesse sério. Então virou-se para o neto. — Aqui está, Erik. Vou buscar um pouco de água.
— Obrigado, senhora. — Ele engoliu o comprimido e bebeu toda a água.
— Você acha que poderia me chamar de vovó?
— E a mim de vovô? — John Paul indagou, aproximando-se do neto.
— Certo. — Apesar da resposta, a voz de Erik soava tão distante, tão desprovida de emoção, que Mary Anne desejou não haver sugerido nada.
Incapaz de resistir ao impulso, tocou-o de leve no ombro. Erik se retraiu imediatamente.
— Oh, querido, você está com uma queimadura f**a aqui. Espere um instante, vou apanhar o vinagre. É bom para aliviar a ardência.
— Não, obrigado — ele respondeu depressa, caminhando na direção da escada. — Não está doendo, não mesmo. Ficarei bem. Preciso apenas descansar um pouco.
— Irei lhe chamar quando o jantar estiver pronto.
— Meu pai jantará conosco também?
— Acho que não. — Mary Anne olhou para o marido, sem saber o que dizer.
John Paul entendeu e veio em seu auxílio.
— Na verdade, seu pai saiu antes que pudéssemos convidá-lo.
— Isso mesmo — Mary Anne concordou, aliviada com a explicação tática do marido.
— Oh! Não estou com muita fome. Não creio que descerei para o jantar, se vocês não se importarem.
— Sinta-se à vontade para fazer como quiser. Você pode tomar um lanche mais tarde, quando tiver fome. Deixarei tudo na geladeira.
— Obrigado.
Erik subiu a escada e fechou-se no quarto.
— Você acha que ele nos ouviu conversando?
— Não sei. — John Paul encostou-se no balcão da pia, pensativo. Numa outra época, percebendo a angústia da esposa, a teria tomado nos braços e a confortado. Mas não mais.
— Oh, John Paul. Este deveria ser um dos dias mais felizes de nossas vidas. Temos nosso neto de volta. Maggie e Noah reencontraram o filho. Porém... nada é como deveria ser.