165-Um recado

1205 Words
Adrian Gray O expediente terminou mais rápido do que eu esperava. Nas poucas horas que fiquei na empresa hoje, consegui ver exatamente o que eu mais queria: o funcionamento real daquele lugar. Nada de relatórios maquiados ou discursos bonitos. Vi gente trabalhando, gente errando, gente correndo contra prazos, gente fingindo controle. Vi gente se movendo. Jonas fez um tour comigo pelo andar da presidência. Mostrou as salas, os setores, os acessos restritos. Ele falou bastante, explicou os processos, apontou quem é quem. Eu escutei tudo com atenção, memorizando. A empresa estava com tudo nos eixos e posso dizer que, ter chegado sem avisar, me fez ver um ambiente real. Não vi nada absurdo, nada comprometedor e não notei aquele clima de tensão e medo ao redor. Então, não tinham nada a esconder. E isso me tranquilizou demais. Aos poucos, a raiva do incidente ocorrido foi passando. O incidente do café fiou para trás, ao menos conscientemente. Decidi ignorar. Foi um acidente. Acontece. Mas meu corpo não esqueceu. — Olha, sobre a Miranda... — Jonas falou. — Ela é excelente! É competente, sabe de tudo do andar e ela resolve qualquer coisa. É de confiança e todos sabem que ela é capaz. — Fiquei ouvindo. — Espero que isso não lhe faça deixar de ver o trabalho dela. — Eu vou analisar como sempre faço. — Garanti. — Se eu ver algo fora do padrão, eu resolvo. Se não... não vejo motivos de tirá-la. Ele acenou. Quando olhei para o braço e para a lateral da barriga mais tarde, as marcas ainda estavam ali, levemente avermelhadas, sensíveis ao toque. Um lembrete silencioso do meu primeiro impacto real com aquela maluca. Jonas se despediu e disse que amanhã começamos oficialmente. Eu concordo e fui saindo. Aqui no carro, nesse momento, o silêncio me acompanha até o apartamento. Vejo a cidade com mais atenção e fico curioso com alguns pontos. É bem movimentado e acho que logo vou me acostumar. Quando chego e entro, finalmente paro para olhar o lugar com calma. É amplo. Bem iluminado. Mobiliado com bom gosto, sem exageros. Tons claros, linhas limpas, nada sufocante. O tipo de lugar que não exige nada de mim. Apenas oferece conforto. Paz. É isso que me atravessa o peitö quando fecho a porta atrás de mim. Uma das empregadas já está de saída e ela vem sem uniforme e com uma bolsa. — Está tudo pronto, senhor Gray. Espero que se sinta à vontade! — Obrigado. — Respondo. — Volto amanhã cedo. Boa noite. Ela vai embora, e o apartamento fica em silêncio novamente. Vou até o quarto e vejo que as minhas roupas já estão organizadas no closet, meus pertences no lugar. Nada fora do eixo. Tudo exatamente como deveria estar. Entro no banheiro e tomo um banho morno, deixando a água aliviar os músculos. Fecho os olhos. Respiro fundo. Estou exausto. Mas é um cansaço diferente. Um cansaço que não vem carregado de angústia. Saio do banho, visto apenas uma calça de moletom e vou até a cozinha. Na bancada, um bilhete: “Senhor Gray, há comida no forno.” Abro e encontro uma lasanha ainda quente. Bem-feita. Cheirosa demais para ser ignorada. Sirvo um prato generoso, pego uma salada fresca, escolho algo para beber e me sento. A comida é ótima. Simples, caseira, reconfortante. Percebo o quanto precisava disso quando sinto o corpo relaxar enquanto mastigo. Depois, limpo tudo sem pressa. Apago as luzes. Vou para o quarto. Deito aqui e sinto que vou dormir a noite inteira. { . . . } Acordo sentindo algo raro: descanso. O meu corpo responde bem, a mente está clara e eu realmente dormi a noite toda. Sem pausa! Olho o relógio e é a hora certa. Levanto, me arrumo e encontro o café da manhã servido. Troco poucas palavras com a empregada, algo sobre horários, rotina, organização. Com ela, eu descobro mais sobre o prédio e acho que vou utilizar bastante os serviços do local. Depois, eu saio direto para a empresa. Ao chegar, sou cumprimentado por onde passo e faço apenas um breve aceno. Pego o elevador, vou subindo e vejo umas mensagens do meu pai. Ele está louco por mais notícias. Quando chego, vou direto para a sala que agora é minha. A porta está aberta e lá está ela. Miranda. Ela organiza a sala com atenção, ajeita papéis, confere detalhes. Um café já está sobre a mesa, perfeitamente posicionado. E eu olho por alguns segundos. — Bom dia. — Digo. — Bom dia, senhor Gray. — Ela responde, formal, postura impecável. — Seja muito bem-vindo. O seu café está servido. Forte, com apenas dois cubinhos de açúcar, uma colher pequena de creme e feito na hora. — Ela suspira forte. Está nervosa. — Os documentos mais cruciais estão na mesa. Ela sorrir. Isso me deixa intrigado. Como ela sabe do jeito que eu gosto do meu café? — Vamos passar a agenda. Está com ela? — Vou pegar o tablet agora mesmo. — Ela diz. Ela se move rápido, mas não corre. Nota-se o cuidado em cada passo, mas ainda fico intrigado. Saímos juntos da sala, indo pelo corredor. É nesse momento que percebo que quase todos ainda estão se organizando para começar o dia. É bem cedo ainda e de alguma forma, parece que todos já sabiam que eu iria chegar antes da hora. Isso é curioso. Bem aqui no salão geral, eu paro e chamo atenção de todos do andar da presidência. — Bom dia a todos. Peço apenas um minuto da atenção! As conversas cessam. Os olhares se voltam para mim. — Para quem ainda não me conhece, sou Adrian Gray. Estou assumindo a direção desta filial a partir de hoje e quero muito ajudar e ser ajudado nesse local. Silêncio absoluto. — Vim para somar. Para organizar, corrigir falhas e alavancar resultados. Acredito que juntos, poderemos fazer até o impossível em nome dos negócios. Dou alguns passos à frente. — Eu não sou uma pessoa tão complicada e não precisam ter medo de mim. Mas, eu exijo profissionalismo. Postura. Perfeição em tudo o que for feito aqui. Exijo resultados! O meu olhar percorre o ambiente. — Não aceito desculpas vazias. Não aceito falhas repetidas. Cada documento, cada ação no sistema, cada processo deve ser tratado com atenção total. Como prioridade! Então, quase involuntariamente, meu olhar passa por Miranda. Ela cora na hora. — Sejam profissionais em tudo! Ela entendeu o recado. Eu imagino que ela pense que foi algo apenas para ela, mas não foi. — Bom dia. Podem começar a trabalhar. Viro e volto para minha sala. Sento na cadeira e observo o espaço. Tudo está exatamente como deveria estar. Do lado de fora, ouço o movimento recomeçar. Passos, movimentos e tudo começa a nascer. E penso nela. Na secretária. Sim, o recado foi para ela, mas para todos também! E aqui, eu decido algo em silêncio: vou ficar de olho nela. Não por causa do café, mas para descobrir se ela é realmente tão boa quanto aparenta ou se vai quebrar sob pressão. Quero ver o quanto ela foi preparada e quero analisar esse lugar por um tempo antes de decidir alguma coisa. Eu sei reconhecer quem aguenta.
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