161-Hora de partir

1214 Words
Eu errei o número do cap anterior. Ignorem kkkk Adrian Gray Deixar Washington nunca foi algo que eu imaginei fazer de forma tão… definitiva. Aqui sempre foi onde morei. Mesmo tendo me mudado muitas vezes ao longo da vida, sempre foi aqui que tudo parecia começar e terminar. Foi onde passei a maior parte da minha vida. A sede da empresa da família está aqui. As ruas que conheço desde garoto estão aqui. As lembranças boas e rüins também. Agora, estou prestes a atravessar estados e iniciar algo novo. É uma mudança grande. Talvez maior do que eu demonstro. Assumir uma filial inteira, em outro estado, com pessoas que mäl conheço, é um passo enorme até mesmo para alguém como eu, que cresceu sendo preparado para isso. Conheço apenas alguns membrös da diretoria local. O resto são rostos novos, histórias novas, dinâmicas que ainda não entendo. Mesmo assim… eu sinto que essa é a decisão certa. Preciso respirar novos ares. Preciso sair do lugar onde tudo me sufoca sem que eu perceba. Às vezes, a gente só entende o peso quando decide se afastar dele. Vivi a maior parte da minha vida aqui em Olympia. Apesar de viagens, mudanças temporárias e compromissos em outras cidades, se eu for contar o tempo de verdade, foi aqui que fiquei mais. Gosto daqui. Sei onde ir, sei o que esperar. É confortável. Seguro. Mas conforto demais também paralisa. As malas já estão prontas. Tudo organizado, revisado, conferido mais de uma vez. Ainda assim, antes de seguir para o aeroporto amanhã cedo, faço algo que se tornou quase um ritual: vou até a casa do meu pai. Dirijo até à mansão com a sensação estranha de estar indo e voltando ao mesmo tempo. Meu pai passou meses afastado da empresa. Meses difíceis. Ver ele agora, melhor, me dá uma tranquilidade que eu não sabia que precisava tanto para poder seguir em frente. Estaciono o carro, entro pela porta principal e sou recebido pelo mordomo, que me cumprimenta com o respeito de sempre. — Onde está meu pai? — Pergunto, já soltando o paletó. — Na academia dos fundos, senhor. — Ele responde. Sinto um alívio imediato. Saber que ele está se exercitando significa mais do que parece. Significa disciplina. Significa vontade de viver. Caminho pelo corredor longo até a área dos fundos, reconhecendo cada detalhe daquele lugar que praticamente me viu crescer. A porta da academia fica no fim do corredor. Assim que entro, o vejo. Meu pai está correndo na esteira, usando tênis adequados, roupas leves, um lenço jogado sobre o ombro para enxugar o suor. O ritmo é forte, controlado, firme. Ele parece… bem. Realmente bem. Aproximo-me devagar. Quando percebe minha presença, ele tira os fones de ouvido e começa a desacelerar a máquina. Um sorriso surge no rosto dele no mesmo instante. — Adrian, meu filho. — Ele diz, ainda ofegante, mas claramente feliz. — Oi, pai. Ele desce da esteira num salto e me puxa para um abraço rápido e meio torto. — Como você está? — Pergunta. — Bem. — Respondo. — Amanhã é o voo. Ele me observa com atenção, como se estivesse tentando ler algo além do que eu digo. — Você realmente entende por que pedi para você assumir essa filial? — Pergunta, sério. Assinto. — Entendo perfeitamente. E não estou achando rüim, longe disso... — Digo, sincero. — Na verdade… obrigado pela oportunidade. Vai fazer um bem pra mim. O canto da boca dele se curva num sorriso pequeno, mas verdadeiro. — Eu também achei que você precisaria desse tempo. Eu vi o que tem passado... — Ele admite. — Precisa de algo novo. Ele tem razão. Os últimos tempos foram difíceis. O problema de saúde dele não foi apenas físico. Ataques de ansiedade constantes, um início de depressão que ninguém queria nomear, pressão descontrolada, pré-diabetes. O corpo dele deu sinais claros de que algo precisava mudar. Ele tinha perdido muito peso e agora está se recuperando bem. Ele se afastou. Teve acompanhamento médico, psicológico, fez ajustes na rotina. Ainda está se cuidando, mas agora… agora ele parece pronto para voltar. Pelo menos um pouco. — Quero que você se concentre no trabalho. — Ele diz. — Se ocupe. Mas também se cuide. Isso é essencial. — Eu vou. — Prometo. — E você também precisa continuar se cuidando. Qualquer coisa, me liga. Não quero ficar preocupado à distância. Eu quero mesmo ir e ficar despreocupado, pai. Ele ri levemente como se eu fosse uma criança. — Pode deixar. Todo dia vou te mandar uma lista do que fiz. Sorrio. Isso é a cara dele. Nós somos muito próximos. Sempre fomos. Desde que perdi a minha mãe e meu irmão naquele acidente de trânsito, virou apenas nós dois. Uma fatalidade absurda, dessas que ninguém está preparado para enfrentar. Minha mãe era uma mulher incrível e sempre foi uma mãe presente. O meu irmão mais novo era uma cópia exata do meu pai e tínhamos quase dez anos de diferença. Mas, éramos próximos demais. Desde então, eu e o meu pai aprendemos a sobreviver juntos. E ele até hoje mão quis se envolver com mais ninguém. — Dorme aqui hoje. — Ele sugere. — Amanhã saímos cedo. Aceito sem pensar duas vezes. Enquanto ele vai tomar um banho rápido, fico esperando na sala ampla, sentado num dos sofás confortáveis. O meu celular vibra algumas vezes. Mensagens que eu ignoro. Não hoje. Hoje eu só quero estar aqui. O mordomo me serve uma bebida e eu agradeço com um aceno. Quando meu pai volta, sentamos juntos e conversamos por horas. Ele ri. Conta histórias. Faz planos. Ele fala o que quer fazer de hoje em diante. Ele tem planos e muita vontade. Finalmente, ele está voltando a ser quem sempre foi. — Estou louco para voltar à empresa. — Ele diz, animado. — Quero sentir o cheiro daquele escritório outra vez. — Vai com calma. — Aconselho. — Começa com meio período. Distribui algumas demandas. Você tem gente de confiança lá. — Eu sei o que estou fazendo. — Ele responde, firme. Assinto. Ele sempre soube. Aqui, eu decido que vou manter contato constante com a Mikaela, a secretária-geral, para saber como ele está se comportando quando voltar. Jantamos juntos. Comida simples, conversa boa. Depois, vou para o quarto de hóspedes e durmo ali. Na manhã seguinte, acordo cedo. Tudo já foi levado. Não falta nada. Meu pai me acompanha até o aeroporto. No caminho, percebo que ele está um pouco abalado, mesmo tentando disfarçar. Conversamos sobre coisas aleatórias. Sobre negócios. Sobre viagens. Sobre o clima da Califórnia. Quando chegamos ao aeroporto, meu celular vibra. Uma mensagem de Rocco. “Estou chegando. Se você pegar esse voo antes de eu aparecer aí, não vou deixar barato”. Solto um riso baixo. Eu enviei uma mensagem para ele ontem a noite avisando do voo, mas o idiotä nem respondeu. Só respondeu agora. E o Igor, como sempre, não está na cidade e a resposta que eu tive foi: "tenho planos para a Califórnia, então nos vemos lá". — O que foi? — O meu pai pergunta. — Rocco. — Respondo. — Ele vem se despedir. Esperamos um pouco. Tenho tempo. Não dá pra ir mesmo sem ao menos falar com Rocco.
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