Miranda Steel
Se existe uma palavra capaz de definir o meu dia desde o momento em que eu acordei, essa palavra é loucura.
O despertador tocou antes mesmo de o sol nascer por completo, e eu já levantei com aquela sensação estranha de que algo iria dar errado. Não foi superstição. Foi uma sensação pela experiência. Dias importantes demais costumam cobrar um preço alto.
Hoje é um desses dias.
A empresa inteira já estava em estado de alerta porque o novo CEO vai chegar. O filho do dono. O nome dele circulava em sussurros pelos corredores desde aquele dia, mas ninguém soube exatamente quando ele vai aparecer. Não houve anúncio oficial, não teve data marcada, não teve e-mail coletivo. Apenas um aviso seco: “Ele chega nos próximos dias.”
E isso transformou o tempo no meu maior inimigo.
Cheguei cedo. Mais cedo do que o normal. Mesmo assim, quando sentei na minha mesa e liguei o computador, já senti que estava atrasada para alguma coisa que ainda nem sabia o que era .
Sou a secretária geral do andar executivo. Isso significa que, em dias normais, eu já faço o trabalho de duas pessoas. Hoje, faço o de três. Talvez quatro.
Documentos para revisar. Contratos para conferir linha por linha. Sistema para atualizar. Pastas físicas e digitais para reorganizar. Mudança de salas, troca de ramais, alinhamento de agendas, confirmação de reuniões que surgem do nada.
Tudo precisa estar perfeito.
Porque qualquer erro aqui custa caro.
Abro um arquivo, fecho outro, respondo e-mails enquanto atendo o telefone com o ombro pressionado entre a cabeça e o fone. Minha perna balança sem parar embaixo da mesa.
— Miranda, você pode verificar se a sala três já está liberada?
— Miranda, o sistema não está puxando o relatório do trimestre.
— Miranda, você viu o memorando que o Jonas pediu?
Eu respondo a todos. Um por um. Sem reclamar. Sem suspirar alto. Sem demonstrar o cansaço que já começa a pesar atrás dos meus olhos.
Levanto. Sento. Levanto de novo.
Ando pelo corredor em passos rápidos, quase correndo em cima de um salto alto que definitivamente não foi feito para maratonas corporativas. Mas eu não reclamo. Não murmuro. Apenas priorizo.
O que é urgente vem primeiro. O que pode esperar, espera.
Mesmo assim, meu corpo sente. E minha mente sente ainda mais.
O relógio parece correr rápido demais e lento demais ao mesmo tempo. As horas passam, mas é como se nada avançasse de verdade. Sempre há mais uma coisa. Sempre há mais um detalhe.
Perto do meio-dia, percebo que meu estômago ronca.
Ignoro.
Não dá tempo de almoçar.
Abro a bolsa rapidamente, puxo duas barrinhas de cereal amassadas e como em pé mesmo, enquanto reviso uma planilha no celular. Sempre carrego barrinhas comigo. Sempre. Tenho muita fome, o tempo todo, e aprendi cedo que enganar o estômago é melhor do que deixá-lo me atrapalhar. E quando dá, eu belisco alguns biscoitos da copa e bebo água.
A tarde chega sem que eu perceba.
Tenho que checar a sala de reunião principal antes do fim do dia. Há documentos que precisam estar sobre a mesa. Um projetor para testar. Um arquivo específico no sistema que precisa ser conferido antes que alguém perceba qualquer falha.
Entro na sala falando sozinha, como sempre faço quando estou sobrecarregada.
— Tem que estar perfeito… perfeito… — Murmuro, ajeitando as cadeiras. — Verificar o acesso do sistema, revisar o contrato aditivo, conferir o login do projetor…
Abro o laptop da sala, acesso o sistema, confiro o documento uma última vez. Está tudo certo. Ou pelo menos, parece estar.
Respiro fundo.
Uma batida na porta me faz virar rapidamente.
— Miranda.
É o Jonas, meu chefe.
— A reunião começa em dez minutos. — Ele diz, direto. — Não esquece o café. E traz um pouco pra mim na minha sala.
— Tudo bem. — Respondo na hora, já fechando o laptop.
Saio quase correndo.
Hoje é, sem dúvida, um dos dias em que eu mais me sinto… fora de mim. É um vai e vem constante, um corre que não termina, uma lista mental que nunca se completa.
Na copa, começo a preparar o café da reunião. Enquanto a cafeteira trabalha, organizo a bandeja com os copinhos, ajeito guardanapos, coloco alguns biscoitos. Sempre coloco. Acho importante. Detalhes importam.
Quando tudo fica pronto, levo a bandeja até a sala de reunião, organizo sobre a mesa, confiro mais uma vez se está tudo certo.
— Eu só queria... um descanso. — Falo sozinha. — Estou exausta!
Depois volto para a copa.
O café do Jonas precisa ser diferente. Xícara apropriada. Açúcar ao lado. Mais alguns biscoitos.
Coloco tudo na bandeja menor e saio com pressa pelo corredor.
Estou andando rápido demais. Eu sei disso. Mas não consigo desacelerar. Minha cabeça está alguns passos à frente do meu corpo.
— Preciso voltar, ligar pro TI, revisar o sistema, checar o e-mail… — Falo sozinha, quase sussurrando.
Viro o corredor e então tudo acontece em um segundo.
Um impacto forte.
— Drogä!
O café voa.
— Meu Deus, me desculpa! Desculpa mesmo!
O líquido quente atinge meu antebraço perto do pulso, e eu sinto a ardência imediata. A bandeja escorrega, os copos se quebram no chão. O cheiro forte de café se espalha pelo corredor.
Meu coração dispara.
— Você é louca? — O homem reclama, claramente irritado.
— Me desculpa, foi um acidente, eu… eu estava com pressa… a culpa foi minha. — Digo rápido demais, atropelando as palavras. — O senhor se machucou? O que eu posso fazer pra ajudar?
Ele me encara com frieza.
— Não chega perto. — Ele estende o braço. — Eu resolvo isso.
Dou um passo para trás, completamente desnorteada.
— Por favor, me desculpa… eu posso limpar tudo, posso chamar alguém…
— Limpa a bagunça! — Ele diz, seco. — E preste mais atenção na próxima.
Olho para ele.
Nunca vi esse homem antes. Não reconheço o rosto. Não faço ideia de quem seja. E a minha cabeça simplesmente não consegue processar nada além do caos imediato.
Antes que eu diga qualquer coisa, escuto outra voz.
— O que aconteceu aqui?
É o Jonas.
Meu estômago afunda de vez agora.
— Fui atingido por café quente. — O homem diz. — Quem é essa mulher tão descuidada? — Ele fala puxando a camisa de dentro. — Que merdä!
Sinto o rosto queimar.
— Ela é a secretária do andar. — Jonas responde rapidamente. — Peço desculpas, isso nunca aconteceu antes. Miranda sempre foi muito cuidadosa com tudo...
Eu nem sei como enfiar a minha cara aqui.
— Vem, Adrian. A gente pode...
O chão desaparece sob os meus pés.
Adrian.
O novo CEO.
O filho do dono.
Meu chefe.
O mundo parece girar lentamente enquanto essa informação se encaixa na minha cabeça como um quebra-cabeça crüel.
Eu conheci o meu chefe jogando café quente nele.
Tenho vontade de chorar.
Uma vontade enorme, sufocante. Mas me controlo. Engulo em seco.
— Me desculpa… — Digo mais uma vez, a voz baixa, trêmula. — Eu sinto muito mesmo.
Jonas suspira.
— Miranda, chama alguém da limpeza pra resolver isso. Vai ficar tudo bem!
Ele se vira para Adrian.
— Vamos ali, você pode se limpar em outro lugar. — Jonas diz. — Eu nem sabia que chegava hoje... deveria ter dito e...
Adrian me lança um último olhar. Um olhar carregado de fúria e irritação. Ele não diz nada. Apenas passa por mim e vai com Jonas.
E isso me desespera ainda mais.
Assim que eles se afastam, as minhas mãos começam a tremer de forma visível. Isso é um desastre. Um pesadelo. Ele vai ser o meu chefe. E, na minha cabeça, isso é motivo mais do que suficiente para ele me demitir de vez. Ele deve pensar que sou uma estabanada, uma maluca e que não sabe nem servir um café.
— Não acredito nisso... — Sussurro sozinha.
O nó na garganta aperta. Um gosto amargo sobe.
Ajoelho no chão e começo a juntar os cacos de vidro e coloco na bandeja, tentando me manter ocupada para não desabar. Mas, sinceramente, não sei se isso pode piorar.
— Menina, o que foi isso?
É a dona Vilma, da limpeza.
Não consigo explicar. As palavras não saem. Ela entende sem precisar de detalhes. Me ajuda a limpar tudo, recolhe os cacos, passa um pano no chão e segura o meu braço com cuidado.
— Vem comigo. — Ela diz.
Sou levada por ela pelo corredor e na copa, ela fecha a porta.
— Agora me conta.
Olho para ela tentando achar as palavras.
— Eu vou perder o emprego.
Uma lágrima escapa antes que eu consiga impedir.
E, pela primeira vez no dia, eu não sei o que vai acontecer agora.