159-O início

1587 Words
A SECRETÁRIA DO BILIONÁRIO BABACÄ SINOPSE Miranda Steel aprendeu cedo que o mundo não é gentil com quem nasce indesejado. Sozinha, endividada e carregando um passado que nunca escolheu, ela aceita qualquer trabalho que a mantenha de pé. Mesmo que isso signifique viver duas vidas que jamais poderiam se tocar. Durante o dia, ela é a secretária impecável de uma das maiores empresas de tecnologia do país. À noite, veste uma máscara que ninguém pode reconhecer. Adrian Gray é tudo o que Miranda nunca teve: poder, controle e um sobrenome que abre portas. Filho do dono da empresa, ele chega para comandar a nova filial com a frieza e com segredos que não deveriam se misturar com sentimentos. O envolvimento entre eles nasce silencioso, escondido, intenso demais para ser seguro. Miranda acredita. Adrian se permite. E ambos guardam segredos que podem destruir tudo. Porque amar um bilionário pode custar caro, mas amar um babacä pode custar tudo. ----------------- CAPÍTULO 1 Miranda Steel O som do despertador explode no quarto pequeno e eu acordo num pulo. Tão assustada que quase caio da cama. Meu coração dispara como se eu estivesse fugindo de algo, e por um segundo eu fico sentada, respirando fundo, tentando lembrar onde estou. Ah. Minha vida. Estendo a mão às cegas e desligo o alarme antes que ele me enlouqueça de vez. Ainda está escuro lá fora, mas o céu aqui de São Francisco nunca demora a clarear. Eu suspiro, passando a mão pelo rosto, sentindo o peso do cansaço acumulado nos ossos. Dormir pouco virou rotina. Dormir bem virou luxo. Mas parar não é uma opção. Levanto da cama e sigo direto para o banheiro minúsculo do apartamento. Abro o registro do chuveiro sem nem pensar duas vezes e deixo a água cair fria sobre mim. É sempre fria. Não porque eu goste, eu odeio, mas porque me desperta. Porque não me permite ficar ali, parada, pensando demais. Provei o banho quente e quase dormi aqui mesmo. Fecho os olhos enquanto a água escorre pelo meu corpo e tento ignorar a dor leve nos ombros, o peso nas pálpebras, o sono atrasado. Estou cansada. Muito. Mas não posso me dar ao luxo de reclamar. Ninguém vai fazer isso por mim. Quando saio do banho, o vapor frio embaça o espelho e por um instante eu prefiro assim. Menos detalhes. Escovo os dentes, prendo o cabelo ainda úmido num coque baixo e observo o reflexo voltar aos poucos. Postura reta. Queixo erguido. Olhar firme. A mulher que me encara no espelho não pode vacilar. O meu apartamento é pequeno. Um quarto e uma cozinha praticamente grudados um no outro, com um banheiro que mäl comporta uma pessoa direito. Mas é meu. Fica numa região movimentada, perto de tudo o que eu preciso, inclusive da empresa onde trabalho. Não é luxo, mas é o que eu consigo pagar e isso, pra mim, já é muito. Caminho até o guarda-roupa e escolho a roupa com o mesmo cuidado de todos os dias. Saia abaixo do joelho, tecido firme. Blusa clara, sem decote algum. Salto alto fino, daqueles que impõem respeito antes mesmo de eu abrir a boca. Maquiagem discreta, impecável. Nada exagerado. Nada chamativo. É profissional. Tudo em mim precisa gritar competência antes que alguém pense em qualquer outra coisa. Enquanto me arrumo com pressa, o inevitável acontece: bato o dedinho do pé com força na parede ao virar rápido demais. Um choque de dor sobe pela perna e eu paro no mesmo instante, apertando os lábios. — Aí, caramba! — Murmuro, quase sem som. Não xingo. Nunca tive esse costume. A dor passa, como sempre passa, e eu sigo em frente. Moro sozinha há tempo suficiente para já ter aprendido a ser apenas eu por mim. Não tenho ninguém esperando por mim no fim do dia, nem alguém para dividir contas, decisões ou medos. Nunca conheci meu pai em todos esses anos. Minha mãe… bem, minha mãe sempre foi uma história complicada. Uma dessas pessoas que fazem tudo errado e depois culpam o mundo inteiro pelas consequências. Ela foi embora de um jeito covarde. Mas isso ainda não é algo que eu consiga colocar em palavras. Eu sempre fui rejeitada por ela, então, não é que eu sinta falta. É como ela foi embora. O fato é que, agora, sou eu. Só eu. E estou me virando como posso. Na cozinha, preparo um café da manhã simples: um copo de suco com o restinho que tem e alguns biscoitos de leite. Abro a geladeira quase por reflexo e, para minha surpresa, encontro um iogurte escondido no fundo, esquecido atrás de uma garrafa de água. Um iogurte de copinho e com calça de morango. Pego o potinho e confiro a validade. Três dias para vencer. — Bebo ou não? — Pergunto a mim mesma, encarando o iogurte como se ele pudesse responder. — Seria loucura? Dou de ombros e abro mesmo assim. Na fé. Hoje eu preciso de toda ajuda possível. Termino rápido, pego a minha bolsa e procuro o celular pela casa. Encontro em cima da mesa, ainda conectado ao carregador. A tela acende e mostra a porcentagem. Cinquenta e dois por cento. — Ah, claro… — Murmuro, irritada. — Por que estaria totalmente carregado? Desconecto o carregador, coloco o celular na bolsa mesmo assim e ajeito tudo nos ombros antes de sair. Tranco a porta atrás de mim e sigo pelo corredor estreito do prédio, já mentalizando a lista de tarefas do dia. O transporte público leva menos de cinco minutos até a empresa. Às vezes, nem isso. Eu moro relativamente perto, mas ir andando não dá. Não com salto alto e uma agenda apertada. Táxi não entra nos meus planos. Cada dólar conta. Cada centavo, para ser exata. A cidade já está acordada quando desço no ponto. Carros passando, pessoas apressadas, prédios espelhados refletindo o céu claro. Luxo por todos os lados. Um contraste gritante com a simplicidade da minha rotina. Moro aqui há um tempo e posso dizer que adoro. Eu só queria aproveitar mais do lugar. A empresa de tecnologia onde trabalho ocupa um prédio imponente, moderno, todo em vidro e aço. Estou ali há alguns meses e, até hoje, sinto um frio leve no estômago sempre que entro. Eu estudei muito para conseguir esse emprego. Passei noites em claro, fiz anotações infinitas, revisei conceitos até decorar. Não era só um trabalho, era a chance de ter algo mais digno. Algo que me permitisse pagar o aluguel e tentar manter as contas sob controle. Contas! Eu odeio isso. Assim que entro, a correria começa. Eu sempre chego antes das oito da manhã e já deixo o celular na tomada mais uma vez. Organizo a sala do meu chefe, preparo o café exatamente do jeito que ele gosta, confiro e-mails, separo documentos. A minha própria sala é pequena, quase simbólica, mas tudo ali fica milimetricamente organizado. Cada coisa no seu lugar. Cada horário respeitado. Pouco depois, ele chega. — Miranda, preciso ver a agenda do dia. — Jonas Duffes diz, já entrando na própria sala sem diminuir o passo. — E tenho uma novidade. Pego o tablet e sigo atrás dele com passos largos. Jonas não é um homem fácil. Difícil, exigente, às vezes ríspido. Mas, com o tempo, aprendi a entendê-lo. Aprendi seus silêncios, seus humores, o jeito certo de falar com ele. Aprendi como ele funciona. Na sala, passo toda a agenda com precisão. Reuniões, horários, relatórios. Dou atenção especial aos projetos em andamento, aos códigos, às análises mais recentes. Nesses meses, eu conheço essa empresa como a palma da minha mão. Sei os produtos, os nomes dos projetos, os números, os detalhes. Li tudo o que pude, fiz anotações, revisei dados e continuo atualizando sempre. Eu acho que posso dizer que tenho a mente bem aberta para as coisas. Aprendo rápido. Faço isso porque preciso ficar. Porque não posso errar. — Ótimo! — Jonas diz, depois de alguns minutos. Então ele se recosta na cadeira e me encara de um jeito diferente. — Miranda… eu não vou mais ser o seu chefe. O ar some dos meus pulmões. Por um instante, eu paraliso. O meu corpo inteiro trava, como se alguém tivesse puxado o freio de emergência da minha vida. Não consigo nem respirar direito. — C-como assim? — Consigo perguntar, a voz mais baixa do que eu gostaria. — O novo CEO está chegando. — Ele explica, em tom calmo. — O filho do dono. Filho do senhor Gray. O meu coração bate mais forte, agora por um motivo diferente. Não sei exatamente o que dizer. Não sei o que pensar. — Isso vai mudar algumas coisas. — Jonas continua. — Mas fique tranquila. Eu já garanti que você continue na vaga. Afinal, é você quem resolve tudo aqui. Quem cuida de tudo. Engulo em seco. — Posso saber o motivo da mudança? — Pergunto. — O senhor vai embora? — O senhor Gray quer o filho assumindo os negócios. — Ele responde. — Adrian Gray é um homem experiente, jovem, extremamente capacitado. Vai assumir essa filial pessoalmente. Adrian Gray. O nome ecoa na minha cabeça enquanto Jonas conclui: — Você vai trabalhar diretamente com ele e eu me resolvo depois. Sinto um frio no estômago. Um medo silencioso se instala no meu peito. Ainda assim, forço um pequeno aceno de cabeça, profissional. Espero apenas que esse homem não chegue aqui achando que precisa demitir todo mundo para provar poder. Porque eu não posso perder esse emprego. Não agora.
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