Rocco Narcici
Acordo antes do sol, como sempre. Não por necessidade, mas por hábito. O silêncio é absoluto na cobertura, e eu gosto disso. O silêncio me lembra que não devo nada a ninguém e ninguém me deve nada também. É assim que eu mantenho tudo no lugar.
É assim que eu controlo o que construí.
Faço um expresso forte, deixo o aroma invadir a cozinha ampla e impecável. A temperatura do lugar está exatamente como eu programei, vinte e um graus, sem variação. Uma rotina previsível é uma rotina produtiva.
Meu celular vibra sobre a bancada de mármore. Três mensagens de diretores. Uma do time jurídico. Duas de Nova York, uma de Milão. Todas urgentes ou, pelo menos, urgentes para eles. Eu não tenho paciência para urgência falsa. Abro apenas o que importa.
“Mercado abriu em queda. Precisamos revisar as estratégias internas.”
Claro que está em queda. Eles sempre entram em pânico diante de qualquer mínima oscilação. Eu suspiro, deixo o café descer queimando, e já caminho para o escritório privado dentro da cobertura. As minhas manhãs são produtivas porque eu determino que sejam. E, quando chego na empresa, espero que tudo esteja no eixo.
Tenho uma frota de carros, mas hoje quero dirigir. Gosto de sentir o motor responder à minha mão, gosto da precisão, da potência. A cidade ainda está acordando, e as pessoas parecem formigas correndo em direções aleatórias. Não entendo como conseguem viver assim, sem metas claras, sem disciplina.
Irritante.
A sede da Narcici Diamonds ocupa três andares de um dos prédios mais valiosos da cidade de Washington. E o meu sobrenome enfeita a fachada de vidro com elegância e peso. Meu avô iniciou isso, meu pai ampliou, e eu transformei o que já era um império em algo absoluto. Tripliquei os lucros, expandi para o setor de tecnologia de lapidação, investi em criptografia internacional, controle de rastreio de pedras raras. Sou temido e respeitado em todos os lugares que piso. Mesmo aqueles que me odeiam, me aplaudem nas costas. É assim que o jogo funciona.
Eu criei as regras!
Entro no elevador privativo e as portas se fecham. Espelhos polidos. Meu reflexo me encara. Terno escuro, gravata perfeitamente alinhada, expressão impassível. Perfeição inquebrável. O elevador sobe. O meu tempo vale mais que qualquer pessoa lá embaixo.
Quando as portas abrem, todos olham. A reação é automática: eles se ajeitam, endireitam a postura, respiram fundo. O dono entrou. O imperador entrou.
Não digo bom-dia. Não faço cumprimentos vazios. Apenas caminho até a minha sala.
Minha assistente, Elena, entra com uma pasta já nervosa como sempre.
— Senhor Narcici, a reunião com os investidores de Dubai foi antecipada. Precisamos ajustar a projeção de custos para…
— Traga as projeções prontas. — Corto. — Quero tudo!
Ela engole seco, mas acena e sai. É competente, por isso a mantenho.
As horas passam em ritmo cronometrado. Reuniões, contratos, negociações. Todos têm medo de errar diante de mim. Eu escuto, analiso, decido. É simples. O poder é simples quando você sabe utilizá-lo.
Mas mesmo com toda a ordem, toda disciplina, toda a riqueza, algo incomoda. Um vazio irritante. Como se tudo fosse insuficiente. Não há satisfação completa. Nada é suficientemente grande, forte, intenso. Nada.
Talvez seja por isso que eu sinto falta de certas distrações especiais.
No meio da tarde, durante uma reunião morna, com investidores inseguros, vozes repetitivas, eu lembro do dia que aquele idiotä do setor imobiliário me entregou um cartão preto, pesado e rígido. Parecia mais um convite de sociedade secreta do que de um estabelecimento.
“O La Nuit Rouge vai lhe agradar. Ambiente seletivo. Pessoas do seu nível. Tem exclusividade!”
Eu não costumo aceitar convites. Não me misturo com qualquer porcaria que se autointitula exclusiva. Mas naquele dia, a minha agenda estava terminantemente vazia, e eu estava tentando evitar a própria mente. Então fui.
Cheguei à mansão. Rodeada de árvores. Entrada discreta. Segurança reforçada. Luzes vermelhas banhando as paredes internas. Era lindo, refinado, denso. Um ambiente muito bem construído para pecados caros.
Homens de influência estavam lá. Políticos. Investidores de bancos internacionais. CEOs que aparecem em capas de revista. Era um ambiente de poder. Um campo de concentração de egos gigantescos. Meu tipo de ambiente. E pra completar, realmente tinham as melhores bebidas que já conheço de todos os ângulos.
Fiquei satisfeito com isso. O conforto, o clima, a provocação...
E então a vi.
Não queria olhar. Eu tentei não olhar.
Uma loira, em um vestido justo demais, ousado demais. Um corpo feito para o pecado, mas havia algo além disso. Ela tinha o mesmo tipo de magnetismo de alguém que eu conheci anos atrás. Uma presença que lembrava… não importa. Eu bloqueei o pensamento antes que ele me torturasse mais. Não podia de cara perder o meu controle que há anos construí com fervor.
Ela se ofereceu com os olhos. Não com palavras. Com uma provocação estudada, quase artesanal. Como se tivesse sido treinada para isso e, provavelmente foi. Mas eu não me aproximei naquela noite. Sabia que, se me aproximasse, poderia perder o controle. Ou até a minha dignidade.
“O senhor prefere outra? Temos várias disponíveis.”
Esperei, estudei o ambiente e escolhi outra. Uma morena elegante, eficiente. Cumpriu o seu papel. Eu cumpri o meu. E saí de lá sem olhar para trás. Ou pelo menos, tentei.
Mas quando cheguei em casa, a mente insistiu em revisitar a imagem da loira. As curvas. O olhar. A ousadia. O meu autocontrole venceu naquela noite, mas me deixou irritado por dias. E irritação é algo que eu não tolero em mim mesmo. É sinal de fraqueza estrutural. E eu não tenho isso. Não posso ter.
— Ainda preso nesse prédio até quando? — Adrian, um velho amigo já chega sem avisar.
Ele sabe que odeio isso, mas faz mesmo assim.
— Não deveria...
— Me poupe... não sou nenhum estranho! — Ele se joga na poltrona. — Porrä, Rocco... você precisa fazer algo diferente, cara. Não te vejo em nada além disso aqui. — Ele abre os braços. — Por que não viaja pelo menos?
— Porque não quero... deu pra entender?
— Não consigo te entender... às vezes, eu acho que você não superou o...
— Não quero ouvir merdä nenhuma, Andrian! Já deu! — Ele mostra as mãos em rendição. — O que você quer aqui?
— Vim ver meu amigo rabugento, mas parece que ele não quer vê ninguém e muito menos eu. — E começou o drama. — Cara... você não dá notícias, não envia uma mensagem sequer e se isola demais. Eu me preocupo.
— Desde quando eu me casei com você? — E o riso vem. — Deixa de ser idiotä!
Eu tento, tento mesmo, mas ele fica mais tempo para encher o meu sacö e o jeito é respirar fundo e aguentar.
{ . . . }
Hoje voltei.
Sem desculpas, sem hesitação, sem agenda marcada. Eu queria confirmar que aquilo não era nada além de um instante de distração. Queria olhar para ela e ver que eu estava errado. Queria tirá-la da minha cabeça e encerrar esse interesse ridículo.
Mas ao entrar no salão e vê-la dançar… a irritação voltou. E um desejo tão afiado que quase cortou a minha paciência ao meio.
Ela sabia o que estava fazendo. Cada movimento provocante era direto para mim. Ou parecia. Ela deslizou as mãos pelo próprio corpo, jogou os cabelos, olhou para mim como se pudesse ler a minha mente. Como se me desafiasse. Aquela loira estava causando demais e queria uma atenção em conjunto. Tudo, absolutamente tudo dela exalava desafio.
Eu não aceito desafios.
Não quando envolvem controle.
E decidi: hoje, ela será minha. Por uma hora, talvez duas. Quanto tempo eu quiser. E depois, encerro isso. Destruo o interesse malditö pela raiz.
Vejo a Madame de longe, e ela sorri como quem acaba de ganhar na loteria. Ela sabe o valor que o meu nome carrega. E quando digo que quero a loira, vejo nos olhos dela a satisfação de alguém que entende a linguagem do dinheiro.
— Isso é ótimo! Fico feliz com a escolha... ela está disponível.
— Pago o dobro se precisar! Quero ser o primeiro da noite. — Ela fica surpresa.
— Eu vou prepará-la. Já tem um quarto disponível, senhor Narcici. — Ela se mostra satisfeita. — Cassie é experiente e vai lhe surpreender. — Aceno e espero.
Cassie. O próprio nome já é de excitação e pecado. Um nome de provocação e mostra bem que ela, possivelmente, será um estrago.
Vejo o momento exato que elas conversam e eu bebo a minha bebida sem pressa, apenas degustando o calor que descer rasgando a garganta. Um prazer imensurável.
Não demoro a ver Cassie fazendo o seu caminho e me preparo para o último gole do meu uísque. Respiro fundo, a mente afiada com uma lista do que quero e preciso fazer hoje para me sentir satisfeito de vez.
— O senhor pode ir por esse caminho. — Madame Liora comenta.
Perfeito.
Ando pelo caminho devagar, não por hesitação, mas por controle. Cada passo é calculado. Cada segundo, planejado.
Chego diante da porta do quarto reservado.
Espero um momento. Me sinto calmo. Firme. Inabalável. Nada me descontrola. Nada me toca. Nada me atinge. Terei uma bela noite de prazer e sairei com um desejo saciado de vez.
Coloco a mão na maçaneta.
Giro.
Abro.
E ali está ela.
No centro do quarto, impecável, irresistível, perigosa.
Ela me olha.
E eu fecho a porta atrás de mim. Silenciosamente.
E tranco.
Agora eu quero ver do que Cassie é capaz!