Cassie Diaz
Eu passo a mão pelo tecido vermelho e sinto o arrepio da ansiedade subir pela espinha. O vestido novo é um segundo corpo, colado à minha pele como se tivesse sido desenhado exatamente para mim. E foi. Liora não gasta dinheiro em nada que não seja sob medida.
Esse vermelho… é proibido. É o tipo de cor que transforma qualquer mulher em algo perigoso e eu gosto de me sentir assim.
Aliso os fios lisos que descem pelas minhas costas. Os meus cabelos estão longos, lisos como seda, brilhando sob a luz amena do quarto. A maquiagem está no ponto certo. Sutil no rosto, deixando tudo natural, suave… e então, a boca. Vermelha. Vibrante. Tentação pura. Os meus lábios parecem gritar por atenção.
O perfume… ah, meu perfume. Uma mistura de jasmim, âmbar e aquela nota quente que ele sempre reconhece quando se aproxima de mim. O "meu" governador. Incrível como um homem tão importante se torna maleável quando escuto a sua respiração pesada atrás de mim.
Ele tem quarenta anos, uma presença que ocupa qualquer lugar. Alto, charmoso, bonito. Tem família, compromissos, mas sempre encontra tempo para aparecer em La Nuit Rouge pelo menos quatro vezes no mês. Não falha. Ele me escolhe. Ele me quer. Isso alimenta o meu ego como nada mais.
Hoje, quando acordei, já sabia que ele virá. E quando estou quase pronta, sinto aquela pequena explosão de expectativa no peitö. Aquele frio na barriga que não admito em voz alta. Ele me agrada, não vou negär. Não por afeto, isso seria ingênuo. Mas porque ele me trata como algo que vale ser lembrado. E eu gosto de ser lembrada.
Dou uma volta em frente ao espelho, observando o caimento perfeito do vestido. A cintura marcada, o quadril desenhado, as pernas longas realçadas pelo salto alto. Eu sou uma arma. E hoje vou usá-la bem.
Não uso o presente que me deu, porque tenho outros planos. Jamais usaria para deitar com outros. Não vale a pena.
Quando estou prestes a sair, escuto passos na porta. Viro e encontro madame Liora parada ali, com os braços cruzados e o olhar avaliando cada detalhe.
O sorriso dela que surge é largo e satisfeito.
— Perfeita! — Ela diz, me pegando pela mão e me fazendo girar como se eu fosse uma joia recém-lapidada. — Melhor impossível, Cassie.
Sorrio. Ela sabe o poder que esse vestido tem.
— Obrigada outra vez, Madame. Não vou desapontar.
— Você jamais desaponta. Tenho orgulho de você! — Responde.
Ela se aproxima mais, mostrando que tem algo bom a dizer.
— O governador já chegou. — Eu sorrio. — E já perguntou por você. — Ela ergue a sobrancelha.
Ah. Meu sorriso se abre mais ainda. Ele não consegue esperar. É isso que eu gosto.
— Ótimo. Hoje vou deixá-lo ocupado… por mais tempo.
— Faça isso! — Liora diz, satisfeita. — O compense pelo presente. Ele merece!
Seguimos juntas pelo corredor.
Conforme nos aproximamos do salão principal, a música se intensifica, vibrante, dominante, anunciando que a noite já está viva. As apresentações começaram. A casa está cheia. E eu… estou radiante.
Quando chegamos à entrada, sinto dezenas de olhares deslizando pelo meu corpo. Não somente clientes. As mulheres da casa também me encaram. Algumas com olhos arregalados, outras com rancor evidente. O vestido vermelho faz efeito imediato. Elas me olham de cima a baixo por causa dele. É como se eu tivesse entrado com um selo real no peitö. A inveja escorre delas sem esforço.
Mas eu não paro nelas. Não hoje.
Então meu olhar encontra o de quem eu realmente quero ver.
Ele está ali, em pé, aguardando, com aquele sorriso de canto, seguro, charmoso. Meu governador. Ele se aproxima, abre os braços como se estivesse recebendo uma obra de arte. Os olhos percorrem o meu corpo inteiro.
— Cassie. — A voz dele é quente. — Está… deslumbrante. Linda demais!
Eu rio baixo.
— Que bom que gostou. Pensei em você, meu governador.
O sorriso dele de satisfação e de desejo é imediato.
Ele me chama para beber com ele e eu, claro que aceito. A mesa dele é sempre reservada, sempre impecável. Em poucos minutos, champanhe e uísque são servidos. Ele se aproxima, a mão quente pousando na minha coxa. Seus dedos sobem devagar, num toque que eu já conheço, num toque que domina sem pressa.
— Esse vestido… — Ele sussurra. — Foi feito para você. Está um pecado, Cassie.
— Talvez tenha sido. — Digo, brincando. — Mas o presente que me deu… esse sim me pegou de surpresa.
Ele sorri como quem carrega segredos.
— Mas, não a vejo usando... por quê?
— Bom, não queria que outros me vissem com algo tão... valioso. E achei que...
— Fez bem! — Ele sorrir. — Quero te ver usando apelas ela depois. — Eu aceito na mesma hora. — Achei que merecia algo especial. Não esqueceria aquela noite por nada.
Eu o encaro e bebo um pouco da champanhe. O perfume dele sobe até mim, misturado ao uísque. Ele toca meus cabelos, elogia o meu perfume, elogia minhas pernas, elogia tudo. Isso me diverte. E me mantém aqui. Ele é um homem de recursos. Não economiza em nada. Principalmente comigo.
Ficamos conversando por um tempo, sem pressa. Quando vejo, a música muda, e Liora faz um sinal do palco.
É a minha hora.
— Volto já! — Digo.
Ele segura minha mão e beija meus dedos.
— Estarei te esperando. Não demore.
Subo ao palco com o som pulsando em meus ossos. As luzes me engolem, a música toma conta. Eu respiro fundo, sinto o tecido do vestido se mover com meu corpo e me entrego. O ritmo me guia: sensüal, lento inicialmente, depois acelerando conforme a batida cresce. Minhas mãos deslizam pela minha pele, pelo contorno das minhas pernas, pelos cabelos. Eu sinto o olhar dele em mim.
Sempre sinto. E muitos outros também.
A barra do pole dance está gelada na minha mão. Faço movimentos precisos, giros, curvas de quadril, descidas suaves que arrancam suspiros e aplausos. Meus cabelos voam quando jogo a cabeça para trás. Mordo os lábios e encaro o governador no fundo da plateia.
Ele está vidrado, completamente rendido.
Quando a música acaba, a explosão de aplausos me invade e eu sorrio. Desço do palco com o coração acelerado, pronta para voltar à mesa dele.
Mas Liora surge no meu caminho. Ela não perde tempo.
— Cassie... vem! — Ela diz em tom baixo, chamando minha atenção.
Seguimos até o bar.
— O que foi? — Pergunto, ainda recuperando o fôlego. — Algum problema?
— Rocco Narcici chegou há cinco minutos. — Ela diz, firme.
Meu corpo endurece por reflexo. Aquele homem. Aquele malditö que teve a ousadia de me rejeitar.
— Não me importo com ele. — Digo, engolindo seco. — Ele pode ficar com a Thaís de novo, já que prefere... ou com qualquer outra. — Eu quase me viro, mas ela me segura.
— Espere! Ele chegou, te viu dançando, e já mandou dizer que quer você. — Liora interrompe, incisiva. — Mesmo que tenha que pagar o dobro... ele quer você!
Eu congelo.
O dobro?
Minha mente falha por um segundo. Por que diabös ele mudaria de ideia assim? Por quê?
Olho ao redor, buscando-o, e finalmente o encontro.
Ele está sentado numa mesa ao fundo, afastado de todos. As luzes não chegam completamente ali. Ele está cercado de sombra, o uísque na mão, o olhar fixo em mim.
Aquele olhar.
Predador.
Frio.
Intenso.
E sim, ele está olhando para mim e sem parar.
— Ele já reservou o quarto. Quer te encontrar lá agora. — Eu engulo em seco. — Ele quer ser o seu primeiro da noite.
Meu coração bate rápido.
E do outro lado, vejo o governador me aguardando. O homem que me tratou bem, que gastou uma fortuna para me presentear, que não pode ser simplesmente dispensado.
— Cassie... — Liora diz mais sério. — Você não pode perder essa chance. O pagamento é em dobro. E... eu invento algo ao governador. Vá discretamente.
Eu fecho os olhos por um segundo.
Dinheiro. Poder. Imagem. Importância.
Tudo conta.
— Está bem. Eu vou! — Digo.
— Boa garota! — Liora responde, satisfeita. — Te ensinei bem e aproveita.
Eu inspiro, forço o meu corpo a mudar de foco. Caminho até o corredor reservado, onde ficam os quartos. A mansão parece mais silenciosa por aqui. A música continua longe, abafada. Cada passo meu ecoa alto dentro de mim.
Eu estou surtando! Por que?
O quarto reservado por ele está com a luz discretamente acesa. Eu entro. O ambiente tem cheiro de madeira e algo levemente amargo. Fecho a porta parcialmente, mas não por completo. Caminho até o centro, ajeito o vestido. Retoco o batom. Aliso os cabelos. Respiro fundo.
O silêncio me engole.
Minutos passam.
O ar parece mais denso. Não consigo crer que agora ele resolveu me escolher.
Então…
A maçaneta gira.
Devagar e a porta abre.
E eu engulo em seco.
Ele é maior do que eu imaginei. Forte de um jeito que preenche a porta inteira. O rosto sério, a barba curta, o maxilar marcado. O olhar… Deus, o olhar. É aquele tipo de olhar que atravessa pele e pecado. Que lê intenção e destrói defesa.
Rocco Narcici entra sem pressa. Fecha a porta atrás de si. E Tranca.
O clique da fechadura ecoa dentro de mim como uma sentença.
Ele não diz nada.
Apenas me encara.
E é nesse silêncio que eu percebo… a noite não será igual a nenhuma outra.