Adrian Gray
Saio da sala já ajustando o blazer no corpo e soltando o ar devagar.
Estou com fome.
Não aquela fome distraída de quem esqueceu de comer. É uma fome específica. Direcionada. Uma vontade quase física de carne. Algo quente, bem temperado, que me faça esquecer por alguns minutos a quantidade absurda de informações que absorvi desde cedo.
Enquanto caminho pelo corredor em direção ao elevador, observo o ambiente ao redor com mais atenção do que de manhã. O clima da empresa é leve. Pessoas conversam em tom baixo, riem em pequenos grupos, caminham sem pressa exagerada. Não há aquela tensão constante que parece pairar no ar da filial de Washington, como se todo mundo estivesse sempre a dois segundos de um colapso ou de uma reunião inesperada.
Aqui, o ritmo é diferente.
Não pior. Apenas… diferente.
O sistema é o mesmo. A base é a mesma. O resultado final também. Ainda assim, existem pequenos passos no processo que mudam. Ajustes mínimos. Caminhos alternativos que levam exatamente ao mesmo ponto.
E eu não entendo o motivo.
Talvez seja costume local. Talvez seja resistência a mudanças antigas. Talvez seja apenas a forma como as coisas sempre foram feitas aqui. Vou ter que me acostumar. Não adianta querer transformar tudo em uma cópia exata de Washington.
As portas do elevador se abrem.
Enquanto desço, penso involuntariamente no que o Jonas me disse antes mesmo de eu chegar.
Miranda.
Começo a entender agora.
Ela realmente entende tudo da empresa. Não no sentido superficial de quem conhece fluxos básicos, mas no nível profundo, estrutural. Documentação, processos, histórico, sistemas, falhas antigas, correções, soluções. Ela sabe onde está cada coisa. Resolve qualquer bug que surge. Responde qualquer dúvida antes mesmo de eu terminar de formular a pergunta.
E os códigos.
Quando ela mencionou o código do projeto, eu precisei me segurar para não demonstrar surpresa demais. Eu conheço todos os projetos da empresa. Sei o nome, a função, o impacto de cada um. Mas os códigos? Não. Nunca decorei.
E ela sabe.
Quem decoraria os códigos?
As portas se abrem no saguão, e quando caminho em direção à saída, esbarro com o Jonas.
— Indo almoçar? — Ele pergunta, já sorrindo.
— Estou precisando. — Respondo.
— Conheço um restaurante ótimo aqui perto. Quer ir comigo?
Assinto sem pensar muito. Aceito o convite com facilidade.
Seguimos juntos até o carro dele. No caminho, conversamos sobre coisas simples. O trânsito da região. A adaptação à nova rotina. Pequenos comentários que preenchem o silêncio.
Até que o nome dela surge.
— Fiquei surpreso com a Miranda hoje... — Comento, olhando pela janela enquanto o carro avança. — Ela sabe os códigos dos projetos. Porrä! Os códigos.
Jonas ri.
— Ela sabe de tudo.
Olho para ele.
— Tudo? — Repito.
— Tudo mesmo. Qualquer erro, por menor que seja, ela percebe. Tem uma atenção absurda. Se você disser algo pra ela hoje, daqui a cinco meses ou mais ela vai lembrar de cada palavra.
Franzo levemente a testa.
— Como assim?
— Eu suspeito que ela tenha algum tipo de memória fotográfica.
Desvio o olhar para ele, agora realmente atento.
— Isso existe mesmo?
— É raro. — Ele diz. — Mas existe. Pessoas que aprendem quase tudo de uma única vez. Veem algo uma vez e aquilo fica gravado por muito, muito tempo. E ela mostrou isso.
Fico em silêncio por alguns segundos, processando.
— Já percebi isso nela. — Jonas continua. — Ela não esquece nada. Nunca. E ela me ajudou em muita coisa... e sobre os problemas de inconsistências que ocorreram, ela que descobriu. E não foi culpa dela.
O carro para em um sinal, e observo a rua à frente enquanto penso. Se isso for verdade, explica muita coisa.
— Ela faz tudo pra todo mundo lá. — Ele acrescenta. — Resolve qualquer problema. Todo mundo sabe disso.
— E ninguém se aproveita?
— Alguns tentam. — Ele dá de ombros. — Mas ela impõe limites sem ser rude. É… eficiente.
Jonas faz uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras.
— Só é um pouco misteriosa.
Olho para ele de novo.
— Em que sentido?
— Ela não fala da vida pessoal. Nunca. Não sai com ninguém da empresa. Nunca foi a um evento fora do trabalho. Não almoça com colegas. Não sai pra beber depois do trabalho. Ninguém sabe o que ela faz fora dali. Enfim... não tem amizade com ninguém.
Isso me chama atenção mais do que deveria.
— Estranho. Muito estranho... — Murmuro.
— Um pouco. — Ele concorda. — Principalmente pra alguém que faz tudo por todo mundo. E por alguém que é conhecida no prédio todo!
Não faço mais perguntas. Apenas guardo a informação.
Minutos depois, chegamos ao restaurante. O lugar é agradável, discreto. Somos bem recebidos por um garçom, escolhemos uma mesa mais afastada e nos sentamos.
Olho o cardápio rapidamente e já sei o que vou querer.
— Vou querer essa carne ao ponto. — Digo quando o garçom retorna. — Com salada fresca. Molho de batata.
— E para beber?
— Um vinho.
Jonas pede um peixe grelhado e salada. E pra beber, ele pede um suco.
Enquanto esperamos, conversamos.
Ele é alguns anos mais velho do que eu. Casado. Não temos muita proximidade pessoal. Trabalhamos em filiais diferentes, mas sempre nos falamos mais por e-mail ou telefone. Mas eu sei que ele é alguém de extrema confiança do meu pai.
Aliás…
Enquanto ele fala, percebo a aliança em seu dedo.
Ele ainda usa.
Lembro vagamente de conversas antigas, de tensões perceptíveis nas conferências. Um Jonas mais fechado, mais rígido, às vezes até aéreo demais. Foi quando eu soube de problemas no seu casamento. Agora, ele parece mais leve. Mais presente.
— As coisas estão bem? — Pergunto, sem entrar em detalhes.
Ele sorri de canto.
— Estão melhor.
A comida chega. O cheiro da carne me faz perceber o quanto estava com fome. Comemos, bebemos um pouco de vinho, falamos da empresa. Em determinado momento, peço que ele me conte mais sobre a cidade.
Quero conhecer. Quero saber onde posso ir quando tiver algum tempo livre. Ele fala de restaurantes, lugares mais tranquilos, pontos interessantes. Ouço com atenção.
Passamos cerca de quarenta minutos aqui.
Quando voltamos para o carro, continuamos conversando. Falo um pouco de Washington, de como estão as coisas lá. Falo do meu pai.
— Ele vai começar a trabalhar agora... — Comento. — Está animado.
Jonas parece genuinamente aliviado.
— Fico muito feliz em saber disso. Eu estava preocupado com ele. Soube que passou por momentos difíceis, de saúde e também emocional...
— Passou. — Confirmo. — Mas está melhor.
— Ótimo. Muito bom mesmo.
Pouco depois, chegamos à empresa. Nos despedimos no estacionamento e cada um segue para seu setor.
Quando entro na minha sala, eu paro.
Há uma pasta imensa sobre a minha mesa. Franzo a testa e me aproximo.
Projeto G4206.
Abro a pasta, folheio os primeiros documentos. São os registros oficiais. Completos. Organizados. Exatamente o que pedi.
Olho para o relógio.
Ela conseguiu isso durante o horário de almoço.
— Pelo jeito… ela faz tudo mesmo. — Digo sozinho.
Sento-me e começo a analisar os arquivos. Conforme avanço, percebo que realmente preciso dessas informações. Não foi um pedido aleatório. Esses dados vão ser fundamentais para o projeto atual e como é muita coisa, eu quero pegar umas partes e deixar registrado aqui comigo.
Enquanto leio, penso que talvez eu tenha pesado a mão. Testado demais. Pedido coisas em excesso.
Talvez seja hora de pegar mais leve.
Ou talvez seja hora de testar de forma diferente. Ver até onde essa habilidade realmente vai.
Passo o resto da tarde mergulhado nos documentos, fazendo anotações, marcando pontos importantes, cruzando informações com o sistema. Quando percebo, o tempo passou rápido demais.
Miranda aparece na porta no fim do expediente.
— Senhor Gray, já finalizei tudo. Estou indo embora.
— Preciso que fique mais duas horas... — Digo, ainda olhando para os papéis. — Deixei passar alguns documentos e vou... que merdä! — Exclamo ao errar uma anotação. — Eu vou precisar de você...
Falo de cabeça baixa.
— Desculpe. — Ela diz. — Mas nas sextas eu não posso fazer hora extra. Tenho compromisso.
Levanto a cabeça devagar e olho bem para ela.
— Que tipo de compromisso pode ser mais importante do que o seu trabalho?
Ela me encara.
— Meu segundo emprego.
Fico em silêncio.
— Eu posso fazer extra de segunda à quinta sem problemas. — Ela continua. — Mas nas sextas, eu trabalho.
Processo a informação.
— Eu não sabia disso.
— Foi um combinado que fiz com o senhor Jonas há muito tempo. Não tenho como faltar. Mas eu compenso nos outros dias, se precisar.
Não tenho muita opção.
— Tudo bem. — Digo, finalmente. — Pode ir. Eu me viro.
Ela pede desculpas outra vez, pede licença, deseja boa noite e sai.
Fico sozinho na sala e penso: segundo emprego?
Por que alguém como ela precisaria de um segundo emprego?