Hoje faz cinco anos que eu trabalho para o meu chefe c***l. Apesar de sua insistência em ser visto assim, como impiedoso e arrogante, é exatamente essa imagem que Axel Salvatore quer passar. Se há algo mais no fundo – bem no fundo mesmo – é impossível para mim saber.
Envio os lembretes para seu e-mail e preparo seu lugar na sala de reuniões para sua última reunião do dia – que se estendeu pela noite na verdade. Deixo assim sua garrafa de água, que hoje é gaseificada, assim como um copo de café forte e sem açúcar. Talvez seja o café que o deixe tão irritado, quem em sã consciência pode ficar feliz em beber algo tão amargo? Para mim, um único gole foi o suficiente para eu detestar a experiência.
Terminando o meu serviço, vou direto para a saída e pego um táxi para casa. Estou exausta de uma semana exaustiva que se finaliza hoje, claramente eu não posso comemorar ter que passar o final de semana sem dar aos meus olhos o prazer de olhar para Axel, porém, admito precisar desse descanso – mesmo que ele não comece agora.
Eu prometi a Caroline, minha vizinha de porta e única amiga que iria com ela para uma boate. Esse lugar é privado, apenas pessoas convidadas que tem ingresso podem entrar – e consegui-los é uma escalada ao Everest se for alguém como nós. Já as pessoas “certas”, entram quando quiserem.
Carol é estudante de direito e trabalha em uma cafeteira, ela fez um favor a um homem na manhã de ontem. O pobrezinho estava atrasado para o trabalho, uma reunião que não podia perder. Minha amiga o entregou discretamente todos os cafés que pediu, sem que ele precisasse passar pela fila gigantesca. Acontece que de pobre esse homem não tinha nada, ele é relações públicas da Fire and secrets, a boate fechada a pessoas muito específicas.
Não preciso dizer que Carol acabou ganhando dois ingressos em retribuição, para aproveitar a noite no estilo Manhattan. É claro que minha amiga não se contentou até receber o meu sim para acompanha-la, então, cá estou eu terminando de me arrumar para ir a um aquário cheio de peixes grandes.
Termino de passar um gloss levemente rosado nos lábios quando ouço a campainha tocar. Carol não conteve a euforia até eu estar pronta e ir encontra-la na saída e já veio destilar sua empolgação. Deus me dê força, ou melhor, força não, paciência para aguentar essa noite sem nenhum inconveniente.
— Ainda falta meia hora para sairmos, apressadinha. Não pôde se conter, não é? — Sorrio ao abrir a porta e encarar Carol, exatamente como eu esperava.
A morena está eufórica, respirando tão rápido que é possível ver seu tórax se movendo. Seu olhar animado e o sorriso largo também não escondem o quão ansiosa ela estava por esse momento. Tudo bem, talvez eu possa me animar um pouco para fazer da noite dela tão boa quanto ela espera. A única coisa diferente nela é um cabide em suas mãos – carregando algo que não é possível ver, pois está coberto. Mas aos poucos, o sorriso dela vai diminuindo, com seus olhos caminhando por mim, dos pés até minha cabeça.
— Ainda está assim? Já era para você estar pronta, Alice! — Carol exclama, nada satisfeita. Eu caminho os olhos pelo meu corpo, confusa.
— Só falta os sapatos. — Franzo o cenho. Eu não pareço arrumada?
Claro que estamos bem diferentes uma da outra. Carol está vestida para matar como dizem, vestido e lábios vermelhos, salto alto e seus longos cabelos negros soltos – Porém sem um fio fora do lugar. Os saltos finíssimos deixam suas pernas mais bonitas e marcadas. A mulher realmente passa fácil por alguém que frequentaria essa boate, só não sei como ela conseguiu um vestido desse.
— O que aconteceu com você? Seu chefe queimou o resto dos neurônios que te restavam? Porque não é possível... Alice, você está falando sério?
— O que há de errado comigo? — Abro os braços, mostrando o vestidinho bege com flores coloridas.
As saias são estilo romântico, soltinho, eu adoro esse vestido. Nas mangas há pequenos detalhes, como se fosse um trançado com o próprio tecido. Meus cabelos estão em r**o de cavalo e fiz uma leve maquiagem, porém eu coloquei rímel e cor em minhas bochechas – diferente do que faço para o trabalho que costumo usar apenas algum cosmético na boca.
— Nada, Alice. Não há nada. — Carol cede ao riso, me deixando confusa. — Você está exatamente como eu esperava, parecendo a minha mãe quando ia para igreja.
— Eu realmente odeio você, acredite.
— Contanto que se vista como gente apenas por hoje, não me importo. Como eu já sabia que isso iria acontecer, eu vim preparada. Tire esse treco feio e vamos começar...
— Começar o que? — Mantenho a ruga em minha testa franzida, confusa. O riso malicioso no rosto de Carol me assusta.
— Sua transformação, Cinderela. Vou te deixar irreconhecível, serei sua fada madrinha.
Não posso dizer que foi algo fácil, para nenhuma de nós duas. Eu não estou acostumada com toda essa produção, é novidade, e novidades as vezes me assustam. Mas para Carol, lidar com meus ataques histéricos a cada passo também não foi uma maravilha. Quando ela tirou o vestido dourado de dentro da coberta do cabide, eu quase tive um ataque cardíaco.
Tudo bem, é perfeito, mas com certeza veio faltando uma quantidade de pano. É brilhoso, de tecido sedoso e com vários recortes, uma manga é mais caída que a outra e só cobre até onde minha b***a termina. Tenho s***s volumosos que se destacam em especial na parte do vestido onde a alça despenca em meu ombro. As costas são nuas, fazendo o único pano ser a pequena saia que cobre meu bumbum. Carol soltou meus cabelos e fez babyliss em todo o comprimento, deixando-os em um estilo selvagem.
Claro que ela não iria parar por aí, deixando meu rosto praticamente limpo de maquiagem. Agora eu tenho lábios pintados de vermelho, cílios longos e olhos bem marcados, assim como o contorno realçando as formas do meu rosto. Eu até tenho um rosto bonito, uma mandíbula bem feita, lábios cheios, nariz empinado, fora a cor de um amarelo Âmbar que chama a atenção em meus olhos. Sim, meus olhos são meu ponto forte, mesmo que eu nunca os realce e constantemente ande evitando olhar em qualquer direção importante – como o Axel.
— O que você fez comigo? — Encaro meu próprio reflexo no espelho, séria, meio chocada.
— Se você disser que não gostou, eu juro que vou jogar você pela janela.
— Não, eu... Só estou em choque. — Falo pausadamente.
— Essa era a intenção. — Se orgulha. — Essa vai ser a noite de nossas vidas, eu estou sentindo!
— Se eu voltar inteira, será um lucro. Lembra o que aconteceu a última vez que eu bebi álcool?
— Eu vou cuidar de você, prometo! — Carol levanta a mão, como uma espécie de juramento.
— Até aparecer um cara gostoso e você me deixar sozinha. — Ela dá de ombros, sabendo que eu tenho razão.
— Vamos arrumar um cara gostoso para você também. — Sugere.
— Não seria r**m, talvez assim eu esquecesse o Axel por pelo menos uma noite. Seria bom não ter ele em meus pensamentos por alguns segundos.
— Vamos arrumar alguém para colocar outra coisa dentro de você, mas não será nos pensamentos. — Meu queixo cai. — O que foi? Desde que perdeu a virgindade tragicamente você não voltou a t*****r. Por Deus, tenho certeza que tem um cabaço novamente aí dentro.
— Justamente por isso eu não costumo beber. — Relembro.
Tudo foi consensual, eu não estava desacordada, mas também perdi o resto da vergonha e qualquer insegurança que me restava. Com isso... Lá se foi minha dignidade junto com minha virgindade. Isso aconteceu exatamente cinco anos atrás, quando eu comecei a trabalhar na Salvatore graças a aprovação de Carmélia. No outro dia, foi quando conheci a razão dos meus pensamentos mais impuros, Axel.
— É melhor eu ficar mesmo de olho em você, ou no primeiro gole está abrindo as pernas para o barmen. — Finjo estar ofendida, jogando a bolsinha preta em cima dela, que desvia e agarra com a mão em gargalhadas. — Pelo menos algo se salvou nesse look, pode ficar com a bolsa.
— Vamos acabar logo com isso. — Me aproximo, tomo de volta a minha bolsa e sorrio para ela. — Talvez não seja tão r**m.
— Prometo que não será. Peça um Uber para nós, para sua sorte nós calçamos o mesmo número e eu tenho muitos saltos. Não vou deixar que estrague o vestido colocando um tênis. — Carol pisca, indo até a porta.
— Falando nisso, como conseguiu esses vestidos?
— Contatos, Alice, contatos. Mas por via das dúvidas, melhor não estraga-lo, preciso devolver amanhã ou terei problemas. — Bom, essa é minha amiga. — E claro, não quero perder o canal.
Chamo o Uber, dou uma última olhada na mulher completamente diferente que aparece no espelho e caminho para fora junto com Caroline. Começo a sentir algo estranho em meu estômago, a clara sensação de quando se caminha para o desconhecido.
Amanhã eu volto para minha monótona vida e essa noite ficará apenas como uma história passada para Caroline e eu darmos risada.
O que pode acontecer de tão r**m, é apenas um noitada, não é?