Ayla Solano
A porta da cabana parecia antiga, sua madeira desgastada pelo tempo, mas ainda sólida. Rick bateu com força, e o som reverberou pela clareira, interrompendo o silêncio sepulcral ao nosso redor. Segundos se passaram sem resposta. O vento sussurrava entre as árvores, e por um instante me perguntei se havíamos vindo até ali em vão.
Mas então, um rangido lento ecoou no ar. A porta se abriu, e uma mulher surgiu à nossa frente.
Ela era alta e magra, sua pele pálida contrastando com os cabelos grisalhos que caíam em ondas desiguais sobre os ombros. Mas o que mais me prendeu foi o olhar — olhos de um azul profundo e penetrante, tão frios e antigos que me senti sendo despida por eles.
— Finalmente. — Sua voz era calma, mas carregava uma força oculta, como se cada palavra tivesse um peso próprio.
Rick permaneceu imóvel, estudando-a como um predador prestes a atacar. Ele não confiava nela. E, para ser sincera, eu também não.
— Você é Naara? — Perguntei, dando um passo à frente antes que Rick pudesse me conter.
A mulher inclinou levemente a cabeça, um sorriso enigmático brincando em seus lábios.
— E você deve ser Ayla.
Um arrepio percorreu minha espinha.
— Como sabe quem eu sou?
Naara soltou um suspiro, como se minha pergunta fosse tola.
— Porque o símbolo em sua mão está gritando por respostas. E eu sou a única que pode oferecê-las.
Ela então voltou seu olhar para Rick, analisando-o com um interesse calculado. Seus olhos estreitaram-se levemente.
— E você… você é o lobo que carrega a sombra. Interessante.
Rick cruzou os braços, sua expressão se tornando ainda mais dura. O ar ao nosso redor parecia carregar uma eletricidade sutil, uma tensão invisível que ameaçava explodir a qualquer momento.
— Não estamos aqui para conversa fiada. — Sua voz saiu baixa e afiada como uma lâmina. — O que você sabe sobre o símbolo?
Naara soltou uma risada, mas havia algo nela que me incomodava — não era de humor, mas de diversão c***l.
— Entre, lobo. Entre, Ayla. E talvez eu conte.
Ela abriu mais a porta, revelando o interior escuro da cabana. O cheiro de ervas e madeira queimada se espalhou pelo ar, e meu coração bateu forte contra o peito. Algo me dizia que, ao cruzar aquele limiar, nada mais seria como antes.
Rick me lançou um olhar de aviso, mas eu já havia tomado minha decisão.
Eu precisava saber.
E, no fundo, temia que a verdade fosse muito mais sombria do que eu estava preparada para enfrentar.
A cabana era envolta em sombras, iluminada apenas pela luz bruxuleante de uma fogueira no centro do cômodo. O calor das chamas contrastava com o frio cortante da montanha, mas a sensação de desconforto vinha de outro lugar. Algo naquela cabana vibrava de forma estranha, como se um sussurro invisível preenchesse o ar.
Amuletos pendiam das paredes, oscilando levemente ao sabor de uma brisa inexistente. Seus formatos eram variados — alguns pareciam talismãs de proteção, enquanto outros, com símbolos desconhecidos, me deixavam inquieta. Livros de capas desgastadas estavam empilhados em prateleiras improvisadas, seus títulos escritos em idiomas que eu não conseguia decifrar. Tudo ali exalava uma energia antiga, densa, como se aquele espaço fosse uma interseção entre o presente e algo muito mais primitivo.
Naara se sentou em uma cadeira esculpida à mão, seu olhar observador analisando cada um de nossos movimentos. Seu semblante era impassível, mas seus olhos brilhavam com um misto de fascínio e um conhecimento que parecia pesado demais para ser compartilhado facilmente.
Ela gesticulou para que nos aproximássemos. Rick permaneceu de pé, imóvel como uma estátua, sua expressão indecifrável. Eu, por outro lado, me sentei na cadeira oposta, sentindo o símbolo em minha mão pulsar com um calor incomum. Apertei os dedos em torno dele, como se pudesse controlá-lo apenas com minha força de vontade.
— O que você sabe sobre isso? — Minha voz soou mais firme do que eu esperava ao estender a mão para Naara.
Ela inclinou a cabeça ligeiramente, seus olhos estreitando-se enquanto analisava o símbolo. O brilho intenso de suas íris azuladas refletia as chamas da fogueira, e por um momento, senti que ela estava vendo muito mais do que apenas a marca.
— Este símbolo é uma ligação com o equilíbrio. Ele é tanto uma chave quanto uma porta.
Minha respiração ficou presa por um instante.
— Uma porta para o quê? — Rick perguntou, sua voz baixa, mas carregada de autoridade.
Naara o ignorou por um momento, como se ele sequer estivesse ali. Seu olhar ainda estava fixo na marca em minha pele, sua expressão se tornando mais sombria.
— Para o equilíbrio. Mas também para o desequilíbrio, se usado de forma errada.
Um arrepio percorreu minha espinha. As palavras dela pairaram no ar, carregadas de algo perigoso e irrevogável.
— E como sabemos se estamos usando da forma certa? — Perguntei, minha voz um pouco mais hesitante agora.
Naara finalmente me olhou diretamente, e dessa vez sua expressão era séria, quase severa.
— Vocês dois precisam estar completamente conectados. Não pode haver dúvidas. Não pode haver segredos. Se houver, o símbolo se voltará contra vocês.
A tensão na sala se intensificou instantaneamente. Eu sabia que Rick estava ouvindo cada palavra, mesmo sem olhar para ele.
Ele franziu a testa, cruzando os braços sobre o peito.
— Isso é tudo? Parece óbvio.
A mulher soltou uma risada baixa, mas havia algo afiado nela. Algo sombrio.
— Você acha que é simples, lobo? — Seu olhar deslizou lentamente até Rick, desafiando-o. — Então me diga, você confia nela completamente?
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que eu esperava.
Meu peito apertou ao virar o rosto para Rick, esperando que ele respondesse sem hesitação. Mas ele apenas a encarou, seus olhos âmbar carregados de algo que eu não conseguia decifrar.
Naara sorriu levemente, como se tivesse provado seu ponto.
E naquele instante, entendi que a verdadeira batalha não era contra o desconhecido.
Era contra nós mesmos.