Ayla Solano
O silêncio do templo era quase ensurdecedor. O ar ao nosso redor parecia carregado, denso com algo invisível, mas palpável. O olhar de Naara encontrou o meu com uma serenidade que apenas os sábios carregam.
— O símbolo é mais do que um artefato. Ele é um elo, uma conexão com algo muito maior que você ou ele.
Ela desviou os olhos por um instante, pousando-os sobre Rick, que mantinha seu silêncio inquietante, os músculos tensos como um fio prestes a se romper. Meu coração tamborilava contra as costelas, um misto de frustração e medo se acumulando dentro de mim.
— E o que isso quer dizer? — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, carregada de emoções que eu m*l conseguia conter. — Por que eu?
Naara inclinou-se para trás, um pequeno sorriso dançando em seus lábios, como se minha pergunta já tivesse sido feita incontáveis vezes antes.
— Porque você é a luz, Ayla. Sempre foi. E ele... — Seu dedo esguio apontou para Rick, e sua voz ganhou um tom reverente. — ...é a sombra que equilibra você.
O ar na sala pareceu se contrair. Rick permaneceu imóvel por um instante, antes de finalmente quebrar o silêncio com sua voz grave e cheia de força.
— Sabemos disso. Mas como usamos esse equilíbrio para acabar com o que está vindo?
Naara sorriu, mas seus olhos brilharam com um perigo silencioso.
— Acabar? — Ela balançou a cabeça levemente. — Não se acaba com o desequilíbrio, lobo. Você o controla. Ou ele controla você.
O peso de suas palavras caiu sobre nós como uma avalanche. Meu peito apertou, e eu me vi trocando um olhar com Rick. Pela primeira vez, o medo real se instalou em mim: estávamos lutando contra algo impossível?
— Controlar? — Rebati, cruzando os braços em um reflexo de autopreservação. — Como eu deveria controlar algo que nem sei como funciona?
Naara inclinou-se para frente, sua intensidade queimando como brasas vivas.
— É exatamente por isso que veio até mim. A luz e a sombra coexistem, mas nunca em harmonia. Você carrega a força para guiá-lo, e ele... para protegê-la. Só juntos podem impedir o caos.
Rick deu um passo à frente, a mandíbula travada.
— Então, o que precisamos fazer? Não temos tempo para enigmas.
A velha mulher se ergueu com lentidão, seu corpo franzino carregando o peso de um conhecimento antigo. Ela se moveu até uma prateleira e retirou um pequeno livro encadernado em couro, depositando-o nas mãos de Rick. Seus dedos demoraram-se sobre os dele por um momento longo demais.
— Dentro deste livro estão os rituais que precisam executar. — Sua voz era quase uma prece, baixa e solene. — Mas cuidado, lobo. A sombra dentro de você é tão volátil quanto a luz dentro dela. Se um de vocês cair, o outro seguirá.
O aviso ecoou dentro de mim, mais frio do que o vento cortante das montanhas. Meus olhos encontraram os de Rick, e ali, por um segundo, não havia dúvida, apenas um compromisso silencioso.
— Estamos nisso juntos, Ayla. Sempre estivemos.
Engoli em seco, absorvendo a verdade por trás de suas palavras. Talvez, juntos, tivéssemos uma chance.
Caminhamos em silêncio pela trilha sinuosa, o céu já começando a se tingir com tons escuros de tempestade. O peso do livro na mão de Rick parecia pequeno comparado ao fardo que carregávamos dentro de nós.
As palavras de Naara martelavam na minha mente: "A confiança. A entrega total." Eu entendia o conceito, mas praticá-lo era outra história. Confiava em Rick, sim, mas até onde essa confiança poderia ir? Eu realmente me entregaria completamente a ele?
Rick caminhava ao meu lado, os olhos fixos no caminho à frente. Ele parecia perdido em seus próprios pensamentos, mas a tensão em seus ombros revelava que as dúvidas também o assombravam.
O vento gelado da montanha me fez puxar o casaco para mais perto do corpo, mas o calafrio que me percorria vinha de dentro.
Então, a sensação me atingiu como um soco no estômago.
— Você sente isso? — Minha voz saiu num sussurro, carregada de inquietação.
Rick parou, os sentidos aguçados. O ar ao nosso redor parecia mais denso, como se algo invisível se esgueirasse entre as sombras.
— Sim. — Ele murmurou, o olhar varrendo a escuridão. — Estamos sendo observados.
O perigo nos envolveu como um abraço frio, e naquele instante, soube que a batalha pela nossa sobrevivência já havia começado.
Rick parou abruptamente, seus olhos se estreitando enquanto todo o seu corpo entrava em alerta. O silêncio ao nosso redor tornou-se opressor, e eu percebi o modo como ele inclinava a cabeça levemente, como se estivesse ouvindo algo distante, algo que eu não conseguia captar.
— Sim. — Sua voz foi baixa, mas carregada de convicção. — Não estamos sozinhos.
O ar pareceu se tornar mais pesado, como se uma presença invisível estivesse nos cercando. Eu sabia que as sombras não estavam longe. Elas nunca estavam.
— Continue andando. — Ele ordenou, sua voz firme, mas controlada. — Não pare.
Meu coração martelava dentro do peito, tão rápido e intenso que eu quase podia ouvi-lo reverberar pelos ossos. Cada passo parecia um desafio, mas eu segui, confiando que Rick estaria ali se algo acontecesse. Ele sempre estava.
— Você acha que é o Caído? — Minha voz saiu em um sussurro tenso, enquanto eu tentava manter o pânico sob controle.
Rick não respondeu imediatamente. Seus olhos vasculhavam a floresta ao nosso redor, cada músculo de seu corpo tenso como uma corda prestes a se romper. Então, ele finalmente falou, com uma gravidade que fez o sangue gelar em minhas veias.
— Talvez. Ou algo pior.
Pior? Engoli em seco, tentando afastar as imagens horríveis que essa ideia evocava. O medo serpenteou pela minha pele como um veneno lento.
De repente, Rick parou e virou-se para mim, sua expressão séria e determinada.
— Ayla, se algo acontecer, você precisa usar o símbolo.
Meu peito se apertou. O que ele queria dizer com se algo acontecer?
— E você? — Perguntei, tentando ignorar o pavor que se infiltrava na minha voz.
Por um instante, algo brilhou em seus olhos. Algo que parecia errado, deslocado. Medo?
— Não importa o que aconteça comigo. O importante é que você continue e proteja a criança.
O chão sumiu sob meus pés.
— Rick, não. — Minha voz falhou. — Nós estamos nisso juntos. Eu não vou deixar você para trás.
Ele se aproximou, e quando suas mãos firmes tocaram meus ombros, um arrepio percorreu meu corpo. O calor de seu toque era reconfortante, mas suas palavras eram uma lâmina fria cravando-se dentro de mim.
— Você é a luz, Ayla. Se a luz desaparecer, tudo estará perdido.
A dor no meu peito se tornou insuportável. Eu queria argumentar, gritar com ele, mas as palavras morreram na minha garganta. Ele estava certo. Mas isso não tornava mais fácil aceitar.
Antes que eu pudesse responder, um som gutural e ameaçador ecoou pela floresta, cortando o ar como uma lâmina invisível. O som era profundo, primal, carregado com uma fúria que não pertencia a este mundo.
Meu corpo congelou.
Os olhos de Rick escureceram, e então, em um tom baixo e afiado como aço, ele murmurou apenas uma palavra:
— Corra.
Ele virou-se para a direção do som, seu corpo assumindo uma postura de combate. Os olhos âmbar brilharam como os de um lobo à espreita, selvagens e letais.
— Rick, não! — Gritei, sentindo o desespero rasgar minha garganta.
Mas ele já havia se movido. Como um guardião sombrio, ele se posicionou entre mim e a criatura que se aproximava. O ar ao nosso redor tremeu, eletrificado com a tensão do momento.
Eu sabia.
Sabia que ele estava disposto a se sacrificar por mim.
Sabia que, para ele, minha sobrevivência era mais importante do que qualquer coisa.
Mas naquele instante, algo dentro de mim mudou.
Uma fúria intensa, uma determinação feroz se acendeu em meu peito. Eu não aceitaria esse destino. Não importava o que Naara tivesse dito sobre luz e sombra.
Se ele caísse, eu cairia junto.
Meus dedos apertaram o símbolo contra minha pele, e senti sua energia pulsar, viva, quente, vibrante. Como um segundo coração batendo dentro de mim.
Não importava o que viesse.
Eu enfrentaria.
E enfrentaria ao lado dele.