Capítulo 12

1202 Words
Rick Dowson A hesitação dela foi breve, mas quando finalmente respondeu, suas palavras me atingiram como um soco no estômago. — Você é a peça que faltava. Sempre foi. Mas isso vai te custar, Rick. Vai nos custar. Soltei um riso amargo, carregado de exaustão e incredulidade. — Claro. Por que não? Eu já estou afundado nisso até o pescoço. Que venha o resto. Mas, no fundo, sabia que não era tão simples. Algo nessa revelação me fez sentir um medo que nunca havia experimentado antes. Não era o medo da luta ou da morte, mas o medo do que aquilo significava para mim. Pela primeira vez, temi não sair inteiro dessa. A clareira estava mergulhada em um silêncio opressor, o tipo que pesa no peito e sufoca a alma. O gosto metálico do sangue ainda estava na minha boca enquanto eu limpava os vestígios das criaturas das mãos. O calor da batalha ainda ardia sob minha pele, mas as palavras da menina não saíam da minha cabeça. Eu me virei, meus olhos cravados em Ayla. Ela estava de joelhos, exausta, mas segurava a mão da menina como se aquilo fosse o único elo que a mantinha presa à realidade. — Alguém vai me explicar o que diabos está acontecendo? — Minha voz saiu baixa, mas carregada de uma fúria contida, prestes a transbordar. Ayla ergueu o olhar para mim, e vi algo que nunca tinha enxergado nela antes: medo. Mas não era medo de morrer, de perder uma batalha ou enfrentar um inimigo. Era medo de dizer a verdade. Ela respirou fundo, como se tentasse reunir coragem para pronunciar as palavras que mudariam tudo. — Rick… você sempre se perguntou por que é diferente, não é? Cerrei os dentes. O tom dela me irritava, como se estivesse prestes a soltar uma bomba que não poderia ser desfeita. — Eu não sou diferente. Sou apenas… eu. — Minha voz saiu dura, defensiva. Ayla balançou a cabeça lentamente, os olhos cravados nos meus. — Não, Rick. Você não é "apenas você". Você é o Alfa da sua alcateia, sim, mas isso é só a superfície. Existe uma linhagem… uma conexão antiga. E você faz parte disso. Minha paciência já estava desgastada, e seu enigma não ajudava em nada. — Conexão? Que conexão? — rosnei, sentindo minha irritação crescer. Ayla se ergueu devagar. O símbolo em sua mão brilhava fracamente, como se estivesse recuperando forças. — Essas criaturas não estão atrás de mim por causa do que eu carrego. Elas estão atrás de você. Meu peito se contraiu. — De mim? Ayla assentiu, o olhar carregado de algo que me fez sentir como um prisioneiro diante de sua sentença. — Porque você carrega algo muito mais importante. Ela ergueu a mão, apontando para o meu peito como se pudesse enxergar algo dentro de mim que eu mesmo desconhecia. Minhas mãos se fecharam em punhos. — E o que diabos eu carrego, Ayla? Sem metáforas. Fala logo. A menina, que até então estivera calada, ergueu os olhos para mim. A culpa em sua expressão me incomodou mais do que qualquer palavra dita até aquele momento. — Você é o portador, Rick. — Sua voz saiu firme, apesar da suavidade. — O Alfa dos Alfas. O escolhido para manter o equilíbrio entre o que vocês são… e o que eles são. Meu riso saiu seco, sem humor. — Equilíbrio? Isso parece um conto de fadas que alguém inventou para justificar o caos. Ayla se aproximou, pousando uma mão firme em meu ombro. O toque dela era quente, mas ao mesmo tempo, me trouxe um calafrio que percorreu minha espinha. — Rick, você sempre soube que havia algo diferente em você. Algo que ninguém mais tem. Isso é o que elas querem. Você é mais do que um Alfa. Você é a chave para um poder que elas nunca tiveram… mas que você também nunca quis. Minha respiração ficou pesada. Eu queria negar. Queria gritar que aquilo era absurdo. Mas, no fundo, sempre houve algo que me separava dos outros. Algo que carreguei desde sempre. Engoli em seco. — Você sabia disso o tempo todo? — Minha voz saiu mais baixa agora. Ayla desviou os olhos, hesitando, mas logo voltou a me encarar. — Eu suspeitava. Mas não sabia ao certo… até hoje. Passei a mão pelo cabelo, tentando processar a informação. Tudo parecia se encaixar em um quebra-cabeça que eu nem sabia que existia. As criaturas. O símbolo. A menina. E eu. — Então é isso? Sou só mais uma peça em um jogo que nem sequer entendo? Ayla apertou os lábios, mas não respondeu de imediato. Quando finalmente falou, sua voz era um sussurro carregado de um peso que eu não queria carregar. — Não é só um jogo, Rick. Ela segurou meu olhar, e eu vi o destino se fechando ao meu redor. — É uma guerra. Meu peito se contraiu. — E, quer você goste ou não… você é o único que pode decidir como isso termina. As palavras dela pairaram no ar, pesadas, impregnadas de uma verdade que eu não estava pronto para encarar. Meu peito subia e descia em um ritmo irregular, como se meu próprio corpo lutasse contra a realidade que acabara de ser lançada sobre mim. Não era apenas sobre mim. Nunca foi. Era algo maior, algo que eu nunca quis fazer parte. Mas, agora, não havia mais como negar. A tensão entre nós era quase sufocante, carregada de significados ocultos que ainda não compreendia totalmente. Meu instinto de proteção sempre foi intenso, feroz. Mas, pela primeira vez, comecei a perceber que não era apenas uma característica do meu ser como alfa. Era algo mais profundo, uma conexão ancestral que percorria minhas veias como um chamado inevitável. A palavra ressoava dentro da minha mente como um trovão abafado: portador. Meu corpo ficou rígido. Meu olhar encontrou o dela, buscando respostas, mas tudo que encontrei foi uma determinação silenciosa. O que significava aquilo? Por que eu? Qual era a lógica de carregar um fardo tão grande, um legado que eu nunca pedi? Sempre dizem que o destino escolhe seus guerreiros, mas, sinceramente, isso não me parecia uma honra. Isso parecia uma maldição. E então, havia Ayla. Ela era a única que parecia compreender o peso dessa revelação. Talvez porque ela também estivesse marcada por um destino c***l. O vínculo entre nós estava se fortalecendo, tornando-se algo impossível de ignorar. Mas era assustador. Era como se uma força invisível nos mantivesse presos, nos empurrando para algo que não podíamos evitar. Não sabíamos onde isso nos levaria, apenas que estávamos caminhando para algo grande... e perigoso. O perigo ao nosso redor não cessava. A cada momento, sentia a sombra da escuridão se fechando sobre nós, ameaçando consumir tudo. E agora, fugir não era uma opção. Mesmo que eu quisesse. Mesmo que todo o meu ser gritasse para correr. Ser o portador não era apenas sobre mim. Era sobre ela também. De alguma forma, estávamos no centro de algo que poderia mudar tudo. Mas a que custo? Essa era a pergunta que martelava em minha mente sem cessar. E eu temia que a resposta fosse algo que eu não estivesse pronto para enfrentar.
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