Capítulo 8

850 Words
Rick Dowson Eu a beijei. Caramba. Eu realmente fiz isso. Beijei uma mulher que m*l conheço... mas que, de alguma forma, parecia já fazer parte de mim, como se nossa história tivesse começado antes mesmo de nos encontrarmos. A conexão entre nós era intensa, visceral, quase impossível de explicar. Não precisava de palavras, eu sentia. Mas agora, sentado perto do fogo, com o silêncio da caverna ao meu redor, a realidade me atingia com uma brutalidade implacável. Ayla dormia próxima à entrada da caverna, seu corpo encolhido, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros delicados. O símbolo em sua mão pulsava suavemente, iluminando seu rosto de forma quase mística, uma luz fria e etérea que me fazia sentir algo profundo e inquietante. Ela parecia vulnerável ali, mas eu sabia que não era. Ela era mais forte do que qualquer um poderia imaginar. Algo nela... algo que eu não conseguia identificar, mas que meu instinto gritava para proteger. Eu não queria isso. Não queria sentir isso. Suspirei, passando a mão pelo rosto, tentando afastar o turbilhão dentro de mim. Como confiar em alguém quando a desconfiança sempre foi a única constante na minha vida? Mas, por algum motivo que eu ainda não compreendia, Ayla estava entrelaçada no meu destino de uma forma que eu não podia — ou não queria — evitar. Então, o vento mudou. E eu senti. Aquele cheiro. Metálico. Denso. Sangue. Meus músculos se contraíram como se estivessem sendo puxados por uma força invisível. Não era apenas sangue. Era fresco. Estava perto. E carregava uma presença sombria, uma ameaça que fazia minha pele arrepiar. Algo estava vindo. Algo estava caçando. Levantei-me abruptamente, todos os meus sentidos em alerta. — Algo está vindo. Fui silencioso, mas Ayla abriu os olhos no mesmo instante, como se tivesse sentido a mudança no ar. Seu olhar encontrou o meu com uma intensidade que me atravessou. — O que foi? — Sua voz estava rouca, abafada pelo sono, mas eu não consegui ignorar a preocupação que se escondia ali. — Fique aqui. Eu não olhei para trás enquanto me dirigia à saída da caverna, mas sabia que ela estava me seguindo. Ayla nunca se conformava em ser deixada para trás. Ela não entendia o que era submissão. — Você está brincando, certo? — Ela não estava surpresa, apenas irritada. — Eu não vou ficar aqui enquanto você enfrenta o que quer que seja sozinho. Parando, girei sobre os calcanhares e a encarei, mais furioso do que gostaria de admitir. — Ayla, isso não é um jogo. O que quer que esteja lá fora... está caçando. Ela arqueou a sobrancelha, como se aquilo fosse o suficiente para questionar tudo o que eu havia dito. Seu olhar, feroz e desafiador, encontrou o meu. — E eu também. Aquela frase foi como um golpe direto. Eu poderia ver a determinação em seus olhos, uma força que eu não queria reconhecer, mas não podia ignorar. Ela era mais do que aparentava. Era mais do que eu estava disposto a enfrentar. Ayla cruzou os braços, uma provocação silenciosa nos seus gestos, como se esperasse que eu recuasse. — Não acha que já está na hora de parar de me subestimar? Meu sangue ferveu, e algo animal dentro de mim respondeu ao seu desafio. Um rosnado baixo, quase imperceptível, escapou da minha garganta, mas eu não pude controlar. Minhas mãos tremiam, mas não de medo — de frustração. Frustração porque, ao olhar para ela, eu via não uma mulher a ser protegida, mas alguém tão implacável quanto qualquer coisa que estivesse nos caçando. Meus olhos, dourados como fogo líquido, brilharam com a luz das chamas da caverna. Eu queria gritar, queria forçá-la a entender o risco. Mas, mesmo em meu estado mais instintivo, algo me segurou. Era o brilho de vontade em seus olhos. — Não se coloque no meu caminho. — Minha voz saiu mais áspera do que eu esperava, carregada de um aviso silencioso. E saí. Claro que ela me seguiu. Porque Ayla nunca sabia quando recuar. A noite estava viva, mas de uma maneira opressiva, como se o próprio ar estivesse denso demais para respirar. A floresta não era mais acolhedora, mas estranha, cheia de sombras que pareciam se mover com vida própria. A lua cheia dominava o céu, mas sua luz m*l penetrava o manto de escuridão, tornando tudo mais sombrio, mais ameaçador. Meus sentidos estavam à flor da pele. Cada som ao redor, cada movimento nas sombras, cada folha que se mexia, parecia uma ameaça iminente. Mas Ayla... Ela caminhava com uma calma desconcertante, como se nada ali fosse capaz de tocá-la. Ou talvez estivesse sentindo a mesma coisa que eu... e apenas fingia não se importar. — Então, o que estamos enfrentando? — Sua voz cortou o silêncio, um sussurro que se perdeu entre as árvores. — Ainda não sei. — Minha resposta foi baixa, abafada pela tensão que me consumia. Eu sabia o que estava por vir, mas não tinha certeza do que era. — Mas posso te garantir uma coisa: seja lá o que for, não é humano.
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