Rick Dowson
A sensação de algo errado se entranhava em cada fibra do meu corpo. Mesmo depois que as criaturas recuaram, mesmo depois que Ayla e a garota pareceram se acalmar, as palavras pairavam sobre mim como uma sentença de morte: "O portador".
Odeio mistérios. Odeio ainda mais quando envolvem a mim. Minha vida sempre foi sobre força, velocidade e instinto - certezas inabaláveis de que nada poderia me derrubar se eu fosse rápido o suficiente, forte o suficiente. Mas agora... agora, algo além da minha compreensão espreitava nas sombras, zombando da minha ignorância.
Caminhávamos a floresta em silêncio, cada passo ecoando a tensão que nos envolvia. Ayla caminhava ao meu lado, segurando a menina pela mão. O símbolo na palma dela pulsava, vivo como um coração batendo fora de compasso, irradiando uma energia inquietante. Eu queria perguntar o que significava, queria exigir respostas, mas algo dentro de mim dizia que a verdade viria no momento certo e que eu não estava pronto para ela.
— Estamos longe o suficiente? — Quebrei o silêncio, minha voz mais dura do que pretendia.
Ayla parou abruptamente, seus olhos varrendo a escuridão ao nosso redor antes de balançar a cabeça.
— Por enquanto. Mas isso não vai durar muito.
Minha paciência estava à beira do colapso. Soltei um suspiro pesado e cruzei os braços.
— Certo. Agora chega. Você vai me dizer o que está acontecendo. E quero tudo, Ayla. Sem rodeios.
Ela ergueu o olhar para mim, e algo em seus olhos me fez hesitar. Medo. Não de mim, mas de algo maior. Algo que ela carregava sozinha há tempo demais.
—Tudo bem. — Sua voz foi um sussurro, mas carregava o peso de uma confissão. Ela soltou a mão da menina e deu um passo à frente. — Mas se prepare, Rick. O que vou te contar... vai mudar tudo.
Ri, seco, carregado de descrença.
— Eu sempre estou preparado.
Mentira. E ela sabia disso.
Ayla parou diante de mim, seus olhos brilhando com uma intensidade que me fez sentir um desconforto profundo.
— Rick, sua linhagem não foi escolhida para liderar ou proteger como você sempre acreditou.
Franzi o cenho, irritado.
— Foi isso que me ensinaram. Somos fortes, os melhores. É o que somos.
Ela balançou a cabeça, sua voz baixa, mas afiada como uma lâmina.
— Não. Sua linhagem foi amaldiçoada.
As palavras dela me atingiram como um soco no estômago. Minha mente girava, tentando processar o que ela acabara de dizer.
— Amaldiçoada? O que isso quer dizer?
Ayla deu um passo à frente, a luz do símbolo em sua mão lançando sombras dançantes sobre seu rosto, realçando cada curva determinada de sua expressão.
— Significa que você não é só um lobisomem. Sua linhagem carrega algo selado há séculos. Algo que as sombras querem... e que destruirá tudo se cair nas mãos erradas.
Engoli em seco, minha garganta de repente seca. O ar ao nosso redor parecia mais denso, mais sufocante. Ayla estava perto demais, sua presença queimando minha pele como uma brasa viva.
— E quem são essas sombras? — Minha voz saiu rouca, mais baixa do que eu pretendia.
Ela ergueu a mão, tocando meu peito com a ponta dos dedos, o calor do contato se espalhando como um choque elétrico.
— Eles são aqueles que sempre estiveram à espreita, esperando que o portador despertasse. Esperando por você, Rick.
O impacto de suas palavras foi instantâneo, uma explosão silenciosa dentro de mim. Tudo o que eu conhecia, tudo o que eu acreditava, estava desmoronando diante de mim. Mas, naquele momento, com Ayla tão perto, sua voz carregada de uma verdade inegável, percebi que a única certeza que eu ainda tinha era ela.
E isso mudava tudo.
— Por que ninguém nunca me contou isso? — minha voz saiu cortante, carregada de frustração e incredulidade.
A menina, que até então se mantinha em silêncio, ergueu a cabeça lentamente, como se cada movimento fosse calculado. Seu olhar encontrou o meu sem hesitação, tão frio e penetrante que senti um arrepio subir por minha espinha.
— Porque ninguém queria que você soubesse.
Minha paciência se desfez em pedaços. Um rugido baixo escapou de meus lábios enquanto eu dava um passo à frente, minhas garras latejando sob a pele.
— O que você sabe, garota?
Ela não piscou. Sua voz veio serena, mas carregada de uma certeza que me fez estremecer.
— Eu sei que você é a chave. E que as sombras não vão parar até te encontrar.
Meus instintos gritaram. Eu dei mais um passo, sentindo a ameaça ferver em minhas veias, pronto para arrancar a verdade à força. Mas antes que eu pudesse sequer respirar fundo, Ayla ergueu a mão, sua presença como uma barreira invisível entre mim e a menina.
— Pare, Rick. — Sua voz não era um pedido. Era uma ordem.
Eu me virei para ela, a raiva queimando meu peito como uma tempestade prestes a explodir.
— E você sabe disso como? Porque, até agora, tudo o que você faz é me enrolar com enigmas!
Ayla respirou fundo, seus olhos azuis brilhando sob a luz difusa. Seu rosto estava tenso, mas seu olhar não vacilou.
— Porque o símbolo que eu carrego… foi feito para proteger você. Sua linhagem.
O mundo ao meu redor pareceu tremer. O peso das palavras dela me atingiu como um soco no estômago.
— Proteger-me? — Minha voz saiu em um sussurro rouco, incapaz de conter a incredulidade.
Ela assentiu, sua expressão carregada de um peso que eu não conseguia entender por completo.
— Há séculos, um poder foi selado dentro da sua linhagem. Um poder tão destrutivo que só poderia ser contido com magia antiga. — Ayla ergueu a mão, e o brilho do símbolo em sua pele era quase ofuscante. — Esse símbolo… é a única barreira entre você e as sombras que querem libertar isso.
O silêncio que se seguiu foi denso, sufocante. Meu coração martelava no peito. Eu podia sentir o perigo rondando, a verdade se desenrolando diante de mim como um fio prestes a se partir.
Ayla deu um passo à frente, seu olhar fixo no meu, como se tentasse ancorar minha alma à dela.
— Você não está sozinho, Rick. — Sua voz saiu baixa, mas carregada de emoção. — Eu jurei proteger você… custe o que custar.
Eu podia ver a verdade no olhar dela, a entrega naquelas palavras. Ayla estava ali por mim. Sempre esteve.
E, naquele instante, percebi que talvez o destino tivesse muito mais entrelaçado para nós do que eu jamais imaginara.