Capítulo 18

940 Words
Ayla Solano A menina continuava nos observando. Seus olhos, grandes e sombrios, se moviam entre mim e Rick, absorvendo cada gesto, cada hesitação, como se estivesse decifrando um enigma invisível. — Então, qual é o plano? — perguntei, quebrando o silêncio antes que ele nos engolisse. Rick inspirou fundo, o olhar se tornando mais afiado, mais letal. — Precisamos localizá-los e entender como pretendem atacar. Não podemos esperar que venham até nós sem estarmos preparados. — Concordo — murmurei, mesmo sabendo que não seria tão simples. — Mas como encontramos algo que literalmente vive nas sombras? A menina se moveu, seu corpo tenso, como se estivesse reunindo coragem para falar. Sua voz, quando surgiu, soou mais firme do que antes: — Eu posso senti-los. Sempre posso. Mas quando eles se aproximam, eu perco o controle. Minha expressão se fechou. — Perde o controle como? — pressionei, tentando entender o peso de suas palavras. Ela hesitou. Seus dedos se crisparam em punhos e seu olhar dançou sobre as sombras ao nosso redor. Era como se estivesse escolhendo cada palavra com cautela, temendo o impacto da verdade. — Eles entram na minha mente — sua voz era quase um sussurro. — Usam minha conexão com o portal para se fortalecer. Quanto mais perto eles estão, mais fraca eu fico. Eles me puxam, como se quisessem me arrancar de mim mesma. O choque se espalhou pelo meu corpo como um raio. Se aquilo fosse verdade... então estávamos muito mais vulneráveis do que imaginávamos. Rick não disse nada de imediato. Apenas permaneceu ali, sua expressão endurecendo, seu olhar atravessando a menina como se pudesse encontrar a resposta para tudo no brilho inquieto de seus olhos. Eu engoli em seco. O peso da revelação caiu sobre nós como uma lâmina fria. Não apenas estávamos sendo caçados. O inimigo tinha uma vantagem que não podíamos ignorar. — Se eles usam você para se fortalecer — falei, minha mente já trabalhando a milhão —, então precisamos te proteger a qualquer custo. Se você cair, todos caímos. Rick finalmente se pronunciou, sua voz grave, cortante como uma lâmina recém-afiada: — Isso significa que eles virão atrás de você primeiro. A menina ergueu o queixo, uma determinação sombria nos olhos. — Então que venham. Mas não serei mais um peão no jogo deles. A faísca em sua voz me fez prender a respiração. Havia algo ali. Algo perigoso. Algo que poderia ser a nossa salvação ou a nossa ruína. E eu não sabia qual dos dois seria. Rick e eu trocamos olhares, e a gravidade da situação se tornou ainda mais evidente. Aquilo não era apenas um problema; era uma ameaça capaz de mudar o equilíbrio entre luz e escuridão. Se ela realmente fosse o elo entre os mundos, qualquer falha de nossa parte poderia significar a vitória das sombras. — Precisamos afastá-los de você. — Rick disse com seu tom de decisão inabalável, aquele que tornava suas palavras uma ordem incontestável. A menina, no entanto, balançou a cabeça, sua expressão carregada de uma sabedoria assustadoramente madura. — Isso não vai adiantar. Eles sempre vão me encontrar. O que precisamos é de algo que os enfraqueça. Minha mente acelerou, buscando qualquer informação que pudesse servir. Os livros de Rick mencionavam rituais ancestrais, símbolos de proteção e artefatos que selavam passagens entre dimensões. Se houvesse algo que pudesse impedir que as sombras a encontrassem, então precisávamos descobrir imediatamente. — Os livros. — Falei, voltando-me para Rick, o coração acelerado com a possibilidade. — Deve haver algo lá. Algum feitiço, um selo… Qualquer coisa que impeça o portal de ser usado contra nós. Rick assentiu sem hesitar e foi até a prateleira onde guardava seus volumes mais antigos. O peso da urgência pairava sobre nós como uma névoa espessa. Enquanto ele procurava, voltei-me para a menina. Ela parecia pequena e frágil, mas seus olhos… Seus olhos carregavam um mistério que fazia minha espinha gelar. Eles eram profundos, quase antigos, como se contivessem segredos que ninguém jamais deveria conhecer. — Por que você? — Minha voz saiu mais suave do que eu pretendia, mas não consegui evitar a pergunta. Ela me olhou sem surpresa, como se já esperasse por isso. — Porque eu fui feita para isso. Minhas sobrancelhas franziram no mesmo instante. — Feita? A menina ergueu o queixo, sua expressão serena, mas com um toque de tristeza. — Eu não sou como você, Ayla. — A voz dela era firme, mas carregava um peso invisível. — Minha existência não é um acaso. Fui criada para ser o portal, para equilibrar os mundos. Mas eles me querem para destruir esse equilíbrio. As palavras dela atingiram meu peito como um soco. O ar pareceu sumir dos meus pulmões. Não era apenas uma criança especial… Ela era uma criação. Um ser com um propósito determinado desde o início. Rick voltou, segurando um livro espesso, suas páginas desgastadas e amareladas pelo tempo. — Aqui. — Ele colocou o volume pesado sobre a mesa com um baque surdo. — Tem algo sobre rituais de selamento. É arriscado, mas pode funcionar. Olhei do livro para ele. O risco não importava mais. Estávamos lidando com forças que não nos dariam uma segunda chance. — Vamos começar. — Declarei, minha voz carregada de decisão. Rick assentiu, e a menina se aproximou, observando-nos com uma mistura de curiosidade e temor. O ar dentro da sala tornou-se denso, quase opressivo. A sensação de sermos observados se intensificou, como se as sombras estivessem à espreita, esperando o momento certo para atacar. Mas, desta vez, eu sentia algo diferente. Estávamos nos adiantando. E isso, por si só, já era um começo.
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