Capítulo 17

983 Words
Ayla Solano — Não se trata do que vocês sabem. — Sua voz era firme, cada palavra pesada como chumbo. — Trata-se do que estão dispostos a fazer. Rick soltou um suspiro pesado ao meu lado. Havia exaustão em seu olhar, mas também uma compreensão incômoda. — Por que eles te querem? — Sua voz carregava uma urgência contida. — O que exatamente você pode fazer? A menina desviou o olhar, buscando as palavras certas. Quando falou, sua voz estava marcada por algo que parecia muito próximo ao medo. — Eu sou a passagem. Meu corpo, minha mente... eles são a porta. Sem mim, eles não podem atravessar completamente para este mundo. Mas, se conseguirem me controlar, tudo o que vocês conhecem vai desaparecer. Um arrepio percorreu minha espinha. A realidade se impôs como uma corrente gelada ao redor do meu peito. Não era apenas uma batalha. Era o destino de tudo o que eu conhecia. E eu estava no centro dela. Minha garganta secou. Era mais do que eu estava preparada para ouvir. A ideia de que essa criança era a chave para um evento tão catastrófico parecia surreal, mas, ao mesmo tempo, tudo fazia sentido. Desde que ela apareceu, as sombras nos perseguiam, os ataques estavam se intensificando, e agora sabíamos por quê. — E o que acontece se eles não conseguirem te controlar? — Perguntei, hesitante, sentindo um frio percorrer minha espinha. A menina nos olhou novamente, seus olhos grandes e penetrantes carregando uma seriedade inquietante. Sua expressão, antes neutra, se fechou em algo sombrio, um vislumbre da tragédia que pairava sobre nós. — Então eles me destroem. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de um medo que não ousamos nomear. O coração martelava dentro do meu peito. Rick deu um passo à frente, sua postura rígida denunciando sua fúria contida. Ele se ajoelhou diante dela, os olhos faiscando determinação. — Isso não vai acontecer. Nós não vamos deixar. — Sua voz era firme, quase uma promessa selada pelo próprio destino. Mas a menina não parecia convencida. Ela inclinou a cabeça de leve, seus olhos carregando uma sabedoria que não condizia com sua idade. — Você não pode prometer isso. — A voz dela era suave, mas irrefutável. — Eles são fortes. Muito mais do que vocês imaginam. Foi quando senti a queimadura familiar na palma da mão. O símbolo começou a brilhar novamente, quente e pulsante, como se reagisse à ameaça iminente. Instintivamente, coloquei a outra mão sobre ele, tentando abafar a luz, mas era inútil. O brilho escapava entre meus dedos, uma prova inegável do que estava por vir. A menina fixou seu olhar em mim, seu rosto ganhando um novo tom, algo próximo à esperança. — Mas você pode lutar contra eles. — Ela afirmou, como se soubesse um segredo que ainda nos escapava. — Você e Rick. Vocês são diferentes. Rick franziu o cenho, seu olhar afiado e analítico buscando entender o que aquilo significava. — Diferentes como? — Ele pressionou, sua paciência claramente se esgotando. A menina hesitou por um instante, como se ponderasse sobre a resposta. Quando finalmente falou, sua voz soou baixa, mas carregada de convicção. — Vocês têm algo que eles temem. Algo que nem mesmo eles podem destruir. Meu coração acelerou. — O quê? — Minha pergunta saiu em um sussurro, minha mente já imaginando milhares de respostas possíveis. A menina sorriu levemente, um sorriso enigmático e carregado de um mistério que parecia maior do que tudo que havíamos enfrentado até ali. — Vocês têm um ao outro. As palavras dela caíram sobre nós como uma onda inesperada. Virei-me para Rick, encontrando seu olhar por um breve instante antes que ele desviasse, visivelmente desconfortável. Não era o momento para discussões sobre sentimentos, mas algo no tom da garota fazia parecer que aquilo era muito mais profundo do que uma simples constatação. Rick foi o primeiro a quebrar o silêncio. Seu maxilar estava travado, seus punhos cerrados. — Isso não muda nada. — Ele se levantou, cruzando os braços. — Ainda precisamos descobrir como lutar contra essas coisas e proteger você. A menina não respondeu imediatamente. Em vez disso, caminhou até a janela, observando a escuridão do lado de fora. Seu corpo pequeno parecia insignificante diante da vastidão da noite, mas sua presença preenchia o ambiente com um peso esmagador. — Eles virão em breve. Precisamos estar prontos. — Sua voz não carregava dúvida, apenas certeza. Uma certeza que me deixou inquieta até os ossos. Troquei um olhar com Rick. Ele sentia o mesmo. A luta estava chegando, e não havia mais como fugir. O destino nos colocou nesse caminho, e agora só restava decidir como encararíamos o que vinha pela frente. Rick respirou fundo, deixando a tensão se espalhar por seu corpo antes de finalmente declarar, com a voz firme e inabalável: — Nós vamos lutar. Não importa o que aconteça. Eu assenti, mesmo que o medo estivesse me consumindo por dentro. Não tínhamos todas as respostas, mas tínhamos a única certeza que importava naquele momento: desistir não era uma opção. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de algo novo. Não era mais a tensão sufocante de um impasse sem saída, mas uma determinação crescente, crua e inegociável. Rick ainda segurava minha mão, e a sensação daquele contato - firme, quente, quase protetor - fez um arrepio percorrer minha espinha. Ele sempre foi uma muralha intransponível, mas agora eu enxergava as rachaduras por trás da fortaleza. Medo. Responsabilidade. E talvez, apenas talvez, um vislumbre de fé em mim. Soltei sua mão com um movimento brusco, como se precisasse recuperar o controle sobre meu próprio corpo. Não era rejeição. Era necessidade. Distrações eram um luxo que não podíamos nos dar, não agora. Rick pareceu entender. Ele deu um passo para trás, cruzando os braços e assumindo novamente sua postura rígida, impassível. Mas seus olhos... eles diziam muito mais.
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